Gaudium news > Bento XVI, a ditadura mundial, o Anticristo e os peixes maus na Igreja

Bento XVI, a ditadura mundial, o Anticristo e os peixes maus na Igreja

A nova biografia sobre Bento XVI vai muito além do teor das recentes notícias. Que ditadura? Que anticristo? A resposta talvez tenha a ver com os “peixes maus”…

Redação (07/05/2020 15:39, Gaudium Press) Desde sábado passado (2 de maio), a mídia internacional tem anunciado a mais recente biografia sobre Bento XVI, escrita por Peter Seewald: Benedikt XVI. Ein Leben (Bento XVI, uma vida, sem tradução para o português; ISBN: 978-3-426-27692-1), lançada no dia 4 de maio em alemão.

Bento XVI: mais uma vez tergiversado

Vários veículos de comunicação trouxeram, porém, dados bastante enviesados sobre o Pontífice Emérito, entre os quais que ele teria “comparado” o “casamento entre pessoas do mesmo sexo” ao Anticristo. Os comentários se concentraram quase sempre nesse assunto considerado “polêmico”. Entretanto, o cerne da questão é bem outro.

Desta feita, convém analisar a parte da entrevista em questão que lançou Bento XVI mais uma vez no colimador de seus inimigos.

Muito além de Vatileaks

Seewald recorda a Bento XVI a sua paradigmática frase logo no início do pontificado: “Rezem por mim para que não eu fuja dos lobos”.

A partir disso, o entrevistador pergunta então se o Pontífice Emérito tinha previsto tudo que aconteceria (referindo-se à renúncia e à sua atual situação na Igreja).

Bento XVI respondeu que existe “um limite muito pequeno naquilo que um Papa pode temer”, mas não nega que “assuntos como Vatileaks são preocupantes e, antes de tudo, incompreensíveis e extremamente perturbadores para a maioria das pessoas”.

Nesta esteira, portanto, Bento XVI implicitamente nega mais uma vez que o fenômeno Vatileaks tenha a ver (ao menos diretamente) com a sua renúncia.

Ditadura mundial de ideologias na aparência humanistas. Quem é o ditador?

O cerne da questão não é esse conjunto de intrigas, conforme ele mesmo destaca a seguir:

“Contudo, a ameaça real à Igreja e, portanto, ao ministério petrino, não se cifra nessas coisas [ligadas ao Vatileaks], mas sim na ditadura mundial de ideologias aparentemente humanistas, as quais, quando contrapostas, conduzem à exclusão do consenso social de base”.

Ratzinger que já falou em “ditadura do relativismo”,[1] fala agora de uma “ditadura mundial” (weltweiten Diktatur) que procura impor um cabedal de ideologias pseudo-humanistas por todo o orbe.

Pois bem, se não existe governo sem “governante”, assim também, por óbvio, não existe ditadura sem “ditador”. Desta feita, quem seria o artífice dessa ditadura, ou seja, esse “ditador mundial”? Quem estaria impondo essa “agenda” anticristã, sob a máscara do humanismo?

Seja como for, a referida “exclusão do consenso social de base” indica a clara existência de uma espécie de perseguição àqueles que se opõem a essa “agenda” autocrática anticristã.

Que agenda anticatólica?

Pois bem: quais seriam os tópicos dessa agenda? Continua Bento XVI:

“Há cem anos, todos pensavam que seria um absurdo falar em casamento homossexual. Hoje, quem a ele se opõe é excomungado socialmente. O mesmo se aplica ao aborto e à produção de seres humanos em laboratório. A sociedade moderna está formulando um ‘credo anticristão’, ao qual não se pode opor sem ser punido de excomunhão social”.

De modo análogo: se há “excomungados”, há quem os “excomunga” de modo tirânico: quem seria? Além das pautas acima apresentadas, quais seriam as outras ideologias defendidas por esse “credo anticristão”?

Para responder a isso, retornemos ao questionamento inicial de Seewald, baseado no pedido de oração feito por Bento XVI para que ele possa resistir ao “lobo” (ou seja, ao inimigo que ameaça as ovelhas, os fiéis).

Quem é o Anticristo?

O Papa Emérito conclui:

“É, portanto, mais do que natural ter medo dessa força espiritual do Anticristo e é realmente necessária a oração de cada uma das dioceses e da Igreja Universal para suportá-la”.

Nem todos perceberam, mas aqui encontramos a figura do ditador transposto para a figura do Anticristo. Ora, Bento XVI se refere aqui a uma pessoa em específico ou a um conjunto de indivíduos de modo figurado?

Se for o primeiro caso, já se sabe a opinião de Bento XVI sobre o caráter do Anticristo: “Antes da vinda do Senhor haverá a apostasia e deverá ser revelado um não bem identificado ‘homem iníquo’ (2Ts 2, 3), que a tradição chamará depois o Anticristo”.[2]

O Pontífice Emérito está afirmando, portanto, que existe um poder (mundial) do Anticristo – desse “homem iníquo” –, que visa atingir a Igreja.

A Igreja está acossada pelo poder do mal: os maus peixes

Os comentários sobre a nova biografia na grande mídia, em geral, não vão além dessa questão sobre a renúncia e os temas “polêmicos”. Contudo, para entender bem a resposta de Bento XVI é mister recorrer à questão seguinte formulada pelo entrevistador.

Peter Seewald recorda um comentário de Volker Reinhardt, professor de História da Igreja na Universidade de Friburgo (Suíça): “Para mim, a renúncia de Bento XVI é um ato de extremo distanciamento da situação da Igreja e um reconhecimento de que ele não era capaz de governar a Igreja o quanto seria necessário”.

A esse comentário, o Papa Emérito se defende, explicando que “de nenhuma maneira era a sua intenção” se distanciar da situação da Igreja.

A seguir, faz um comentário praticamente subestimado pelos grandes veículos de informação, mas que parece fundamental:

“Se se estuda a história dos papas, logo se percebe que a Igreja sempre foi uma rede de bons e de maus peixes. Faz parte da compreensão católica da Igreja e da sua gestão que não se deve pensar em uma igreja ideal, mas antes deve-se estar pronto para viver e trabalhar numa igreja acossada pelo poder do mal”.

Portanto, Bento XVI dá a entender que a crise da Igreja não estaria concentrada apenas nos fatores externos de ideologias que minam suas doutrinas, mas também nesses “maus peixes” que a corrompem por dentro. Logo, no fundo, a ditadura do Anticristo estaria penetrada no próprio seio da Igreja.

Retomando a pergunta inicial, não é inútil, portanto, se perguntar quais foram os efeitos da renúncia de Bento XVI nas tramas do Anticristo. Talvez só o tempo poderá responder.

Por Luís Fernando Ribeiro


[1] Ratzinger, Joseph. Missa para a eleição do Pontífice, 18 de abril de 2005.

[2] Bento XVI. Audiência geral, 12 de novembro de 2008.

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas