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Bélgica: jesuítas deixam Liège após 457 anos

Presentes em Liège desde a época de Santo Inácio, os jesuítas se despediram da “Cidade do Fogo” no dia 13 de junho. Sua partida marca o fim de mais de quatro séculos e meio de atuação educacional, espiritual e social a serviço da Igreja e do povo.

Foto: Jésuites EOF/ Facebook

Foto: Jésuites EOF/ Facebook

Redação (16/06/2026 09:04, Gaudium Press) Em 13 de junho passado, o bispo de Liège, Dom Jean-Pierre Delville, presidiu uma missa de ação de graças na Igreja de Saint-Christophe que reuniu cerca de 600 pessoas — sacerdotes, religiosos, ex-alunos, professores e fiéis. O evento marcou o fim oficial de uma presença contínua da Companhia de Jesus na cidade belga desde 1569. Mais de quatro séculos e meio de história, educação, espiritualidade e evangelização chegam ao fim, embora o legado continue vivo em várias iniciativas.

Essa partida não passou despercebida apenas para os católicos locais. Ela levanta uma questão mais ampla sobre o futuro das ordens religiosas tradicionais na Europa, um continente que enfrenta um processo acelerado de descristianização, envelhecimento da população e queda drástica no número de vocações sacerdotais e religiosas.

Uma história que começou com Inácio de Loyola

A chegada dos jesuítas a Liège ocorreu poucos anos após a aprovação oficial da Companhia de Jesus por Paulo III, em 1540. Em 1569, eles se estabeleceram na região, fundaram o Colégio de Isle em 1582 e, posteriormente, o Colégio dos Ingleses em 1616. Ao longo dos séculos, os filhos de Santo Inácio de Loyola se destacaram não só na formação espiritual, mas também na educação de elite e na promoção da cultura católica. Entre os primeiros jesuítas a passar um tempo na cidade estava São Pedro Canísio, um dos membros pioneiros da Companhia.

Após a restauração da Companhia de Jesus no século XIX, iniciou-se um novo capítulo. Em 1828, um sacerdote diocesano fundou o Collège Saint-Servais em segredo. Dez anos depois, após ingressar na Companhia de Jesus, ele confiou a escola aos jesuítas, a qual prosperou e se tornou um marco da educação jesuíta na região.

Eles também fundaram o Colégio Saint-Louis no final do século XIX e o Instituto Gramme, uma escola de engenharia industrial que continua em funcionamento até hoje. Essas instituições formaram gerações de líderes, intelectuais e profissionais que marcaram a vida da região. A pedagogia jesuíta, inspirada nos Exercícios Espirituais, enfatizava a formação integral da pessoa — intelecto, coração e vontade —, combinando rigor acadêmico com reflexão pessoal e serviço aos outros.

Além da educação, os jesuítas atuaram em pastoral, pesquisa teológica, diálogo social e apoio a comunidades. Sua presença ajudou a fazer de Liège um polo significativo do catolicismo na Europa setentrional, mesmo em tempos de conflitos religiosos e políticos.

Os motivos de uma saída inevitável

Como em muitas outras congregações na Europa Ocidental, a principal razão da partida dos jesuítas é o envelhecimento dos membros e a escassez de novas vocações. A comunidade jesuíta da rua Saint-Gilles fechará suas portas no final do ano letivo 2025-2026, e será em breve transformada em salas de aula para o colégio, que precisa se expandir, e em salas de reunião para os grupos do Espace Loyola. Os sacerdotes se mudarão gradualmente entre o final de junho e meados de julho próximo, sendo realocados para outras missões na província europeia.

Durante a celebração, Dom Jean-Pierre Delville fez uma reflexão que tocou profundamente os presentes: “Se os jesuítas se retiram de Liège porque não são mais numerosos o suficiente, será porque não rezamos o suficiente?”   A pergunta vai além do caso local e toca em um problema estrutural da Igreja na Europa: a dificuldade de transmitir a fé às novas gerações em sociedades cada vez mais secularizadas, onde o individualismo, o materialismo e as mudanças culturais afastam muitos jovens do compromisso religioso.

Essa crise não é nova. Desde o Concílio Vaticano II e, mais intensamente nas últimas décadas, o número de jesuítas na Europa tem diminuído. A província da Europa Ocidental Francófona (que inclui Bélgica, França, Luxemburgo e áreas francófonas da Suíça) vem passando por uma reestruturação para concentrar forças onde ainda há vitalidade. O fechamento em Liège segue o de outras comunidades, como a de Charleroi anos antes.

O legado que permanece

Felizmente, a influência dos jesuítas não desaparece por completo. O Centro Escolar Saint-Benoît Saint-Servais, que atende mais de 2.000 alunos do maternal ao ensino médio, continuará operando e mantendo a tradição pedagógica inaciana. Ele faz parte da rede de colégios jesuítas da Bélgica francófona. Atividades como a Comunidade de Vida Cristã (CVX) e semanas de oração acompanhada também devem prosseguir.

Ainda assim, a ausência de uma comunidade residente representa uma perda simbólica forte: os jesuítas eram rostos conhecidos, confessores, orientadores espirituais e uma presença cotidiana que enriquecia a vida da diocese.

Eventos como esse carregam um tom melancólico e até trágico para muitos católicos. No entanto, a história da Igreja mostra que períodos de aparente declínio frequentemente preparam renovações profundas. Santos como Inácio surgiram em tempos de crise, e movimentos leigos, novas comunidades e formas criativas de evangelização surgem exatamente onde as estruturas tradicionais enfraquecem.

A partida dos jesuítas de Liège não é apenas o fechamento de um capítulo. É um convite à reflexão e à oração por novas vocações para que a mensagem do Evangelho continue ecoando em toda a Europa.

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