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Beato Inácio de Azevedo e seus companheiros: Mártires da Terra de Santa Cruz

Na raiz de uma grande obra, sempre encontraremos sangue vertido com generosidade. Também o Brasil se gloria de ter sido regado com o sangue destes mártires, celebrados hoje pela Igreja.

Redação (16/07/2020 15:19, Gaudium Press) Um país de proporções continentais, com paisagens grandiosas e, ao mesmo tempo, acolhedoras; nação-mãe de um povo cuja fé católica brilha com ardor incomum – fé que talvez seja um dos mais belos atributos desta Terra de Santa Cruz –, não poderia deixar de ser regado, em suas origens, com generoso sangue, unido aos sofrimentos do Divino Redentor.

Esse foi o sangue colhido pela Providência na segunda metade do século XVI, quando trinta e nove membros da Companhia de Jesus, sob a direção do Pe. Inácio de Azevedo, decidiram singrar o Atlântico rumo às terras brasileiras.

Aqueles religiosos que embarcaram na nau São Tiago não imaginavam que comprariam, com seu próprio sangue, os frutos de um apostolado que por eles seria desenvolvido no Brasil somente na eternidade.

Pe. Inácio de Azevedo e “seu Brasil”

Um novo impulso missionário fora dado ao Brasil com a vinda dos filhos de Santo Inácio para estas terras. De fato, a recém-fundada Companhia de Jesus lograva admirável fervor apostólico, indispensável para a árdua tarefa de evangelizar as inóspitas e incivilizadas terras do “novo mundo”.

A Europa, agitada por guerras de Religião, via as falanges de Inácio de Loyola multiplicarem-se rapidamente, de modo quase miraculoso. A passagem desses austeros pregadores desencadeava verdadeiras ondas de conversão e de mudança de vida, em ambientes muitas vezes dominados pela euforia renascentista da idolatria do prazer. Em casos não raros, o colorido traje de corte era definitivamente abandonado em prol da batina preta do noviço jesuíta. Assim, em 1547, um português de nobre linhagem, tocado a fundo pela pregação do padre Francisco Estrada, decidiu abandonar a vida mundana e ingressar nas fileiras da Companhia. Chamava-se Inácio de Azevedo.

Em meio à incessante ação apostólica, inúmeras vezes, pediu ele ao Geral a graça de ser enviado às terras mais longínquas, onde a presença dos filhos de Inácio de Loyola se fazia mais necessária. O Brasil exercia sobre ele um misterioso atrativo, e o terceiro Geral da Companhia, Francisco de Borja, compreendeu o apelo à missão que fazia vibrar o coração desse seu súdito a ponto de mencionar afetuosamente “o seu Brasil”[1] nas cartas dirigidas ao jesuíta lusitano. Em fevereiro de 1567, Inácio de Azevedo era nomeado Visitador da Terra de Santa Cruz.

Derradeira viagem que culminou em heroico Martírio

Azevedo percorreu incansavelmente todo o litoral brasileiro por duas vezes. Introduziu costumes, ouviu queixas e sugestões, incentivou e organizou os estudos e ditou sábias regras para a perseverança daqueles que se embrenhavam pelas matas tropicais. De retorno a Portugal, idealizou novos planos para uma verdadeira renovação espiritual e material da colônia, insistindo sobre a necessidade de vocações especificamente destinadas à evangelização do Brasil. Transcorreram dois anos até a partida da nau mercante, São Tiago, no dia 5 de junho de 1570. Era a armada de Dom Luís de Vasconcelos, novo Governador do Brasil, que levantou âncora na foz do Tejo, levando o esquadrão de voluntários: o padre Inácio, com trinta e nove companheiros, que haviam sido recebidos em audiência pelo Papa São Pio V antes de partir.

Em poucos dias, a esquadra aportou na Ilha da Madeira. Como Dom Luís de Vasconcelos permanecesse ali durante algumas semanas, o capitão da São Tiago, já impaciente, pediu para navegar sozinho até as ilhas Canárias – atitude a qual Inácio de Azevedo era contrário, dado o perigo do assalto por corsários em alto mar. Deu, pois, a liberdade a seus súditos de permanecerem junto à esquadra; mas um verdadeiro surto de entusiasmo levou-os a optarem por permanecer junto dele.

E a nau partiu sozinha, arribando pouco tempo depois ao pequeno porto de Terça–Corte, nas Canárias. Tudo indicava que o padre Inácio recebera ali claros sinais do Céu sobre a sorte que os esperava, pois, a partir de então, suas palavras de encorajamento sempre versavam sobre a beleza do martírio e o serviço prestado a Deus por aqueles que entregam as suas vidas pela Fé Católica. Entrementes, Dom Luís de Vasconcelos, ainda na Madeira, mandava as suas naus saírem precipitadamente da barra para perseguir alguns navios que despontavam ao largo. Tratava-se de Jacques Sória — corsário francês a serviço da rainha da Navarra, Joana d’Albret, e famoso por seu fanatismo anticatólico e sanguinário — que partira de La Rochelle à caça dos jesuítas. Porém, o pirata não ousou enfrentar a esquadra portuguesa e retomou o alto-mar, aproximando-se de Las Palmas, exatamente quando os peregrinos, após deixarem Terça-Corte, avistavam o porto desejado. Foi nesse momento que o vigia da São Tiago deu o alarme: “Naus à vista!”.

“Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma”

Tudo aconteceu rapidamente: enquanto os inimigos cercavam a sua presa, procurando a abordagem, os filhos de Santo Inácio reuniram-se junto ao mastro central da São Tiago, em torno do seu superior, o qual mantinha erguida uma imagem de Nossa Senhora. Entoaram então a ladainha lauretana e ofereceram a Deus suas vidas em alta voz. O padre Azevedo designou um grupo para proclamar a Fé Católica durante a luta e socorrer os combatentes feridos, enquanto os outros permaneceriam rezando sem cessar. Ele próprio manteve-se até o fim ao pé do grande mastro, exposto ao furor da peleja. Teve início, então, um breve duelo de artilharia, cujo resultado era fácil de prever, dada a enorme desigualdade de forças.

Apertado o cerco, uma multidão de calvinistas tomou conta do tombadilho da nau, iniciando o massacre. A pequena tripulação não pôde conter o avanço dos corsários, e, em pouco tempo, um destes se aproximou do Pe. Inácio, desferindo-lhe certeira espadagada no crânio. O mártir, entretanto, não recuou diante de novas estocadas, e proclamou ao cair: “Todos me sejam testemunhas de que morro pela Fé Católica e pela Santa Igreja Romana”.[2]

Jacques Sória ordenou que fossem mortos todos os jesuítas, com exceção do cozinheiro, João Sanches, o qual reservaria como escravo. E, assim, traspassados por punhais e espadas, foram mortos os que restaram vivos após o primeiro embate, tendo seus corpos arremessados no oceano.

E enquanto transcorria trágico e grandioso espetáculo, a grande Santa Teresa D’Ávila recebia misticamente a visão de tudo quanto passara a estes quarenta novos mártires da Santa Igreja.[3]

A muitos títulos, “Terra de Santa Cruz”

Os séculos se sucederam após o ocorrido com os tripulantes da nau São Tiago. A Igreja Católica deitou raízes muito profundas na imensa nação, a qual o padre Inácio de Azevedo tanto desejara evangelizar.

E por que quis a Providência chamar a si gente tão generosa, que podia ter feito tanto pela Igreja nos primórdios do Brasil?

Ao contemplarmos as calmas praias brasileiras, cujas águas parecem oscular tranquilamente as areias para depois se retirarem, poucas vezes refletimos sobre o preço desta terra. Não o preço físico, mas o preço de toda uma civilização nascida da Santa Igreja, sob o estandarte da Cruz. Pois estas mesmas águas vêm até nós, tingidas pelo sangue que se uniu ao de Nosso Senhor no sacrifício de sua existência. Pois, quis o Divino Redentor associar à sua Paixão quarenta valorosos soldados de cristo, que aceitaram corajosamente o Martírio. Entre os frutos deste generoso holocausto figura certamente a fidelidade a Deus deste nosso Brasil, terra banhada pelo Sangue de Jesus e destes santos mártires. Com efeito, terra que leva a Cruz em seu nome e em sua história.

Por João Paulo Bueno

 

Segue-se a lista dos nomes dos mártires:

 Pe. Inácio de Azevedo, Sacerdote, 43 anos

Pe. Diogo de Andrade, Sacerdote, 38 anos aprox.

Diac. Gonçalo Henriques, Diácono, 20 anos aprox.

Afonso de Baena, Irmão, 31 anos

Aleixo Delgado, Estudante, Cantor, 17 anos

Álvaro Mendes, Estudante, Cantor, 19 anos aprox.

Amaro Vaz, Irmão, Ourives, 17 anos

André Gonçalves, Estudante (Filosofia), 18 anos

António Correia, Estudante, 17 anos

António Fernandes, Irmão, Carpinteiro, 18 anos aprox.

António Soares, Estudante, 21 anos aprox.

Bento de Castro, Mestre de Noviços, 27 anos

Brás Ribeiro, Irmão, Noviço, 24 anos

Diogo Pires, Estudante, 24 anos aprox.

Domingos Fernandes, Irmão, 19 anos

Estêvão de Zuraire, Irmão, Bordador, 30 anos

Fernão Sanchez, Estudante, 18 anos aprox.

Francisco Pérez Godoy, Estudante, Canonista, 30 anos

Francisco Álvares, Irmão, 31 anos

Francisco de Magalhães, Estudante, Cantor, 21 anos

Gaspar Álvares, Irmão, 18 anos aprox.

Gregório Escrivano, Irmão, 18 anos aprox.

João Adaucto, Estudante, 18 anos aprox.

João de Mayorga, Irmão, Pintor, 37 anos

João de San Martín, Estudante, 20 anos

João de Zafra, Irmão, 18 anos aprox.

João Fernandes, de Lisboa, Estudante, 19 anos

João Fernandes, de Braga, Estudante, 23 anos

Luís Correia, Estudante, 17 anos

Luís Rodrigues, Estudante, 16 anos

Manuel Álvares, Irmão, 24 anos

Manuel Fernandes, Estudante, 19 anos aprox.

Manuel Pacheco, Estudante, 19 anos aprox.

Manuel Rodrigues, Estudante, 20 anos aprox.

Marcos Caldeira, Estudante, Noviço, 23 anos

Nicolau Dinis, Estudante, Noviço, 17 anos

Pero de Fontoura, Irmão, Noviço, 23 anos

Pero Nunes, Estudante, 19 anos aprox.

Simão da Costa, Irmão, 19 anos

Simão Lopes, Estudante, 18 anos


[1] M. GONÇALVES DA COSTA. Inácio de Azevedo, o homem e sua época. Livraria Cruz, Braga, 1957, p. 227.

[2] Idem, p. 415.

[3] Cf. ROCHA PITA. História da América Latina Portuguesa. Itatiaia, Belo Horizonte, 1976, p. 90.

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