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Assis, Paz e Ecumenismo

1986 – 2020: 34º Aniversário do Encontro de Assis, realizado primeiramente por João Paulo II.

ecumenismo

Redação (28/10/2020 15:14, Gaudium Press) 27 de outubro de 2020, data em que se comemora o 34º aniversário do Encontro Inter-religioso de Assis, realizado primeiramente por João Paulo II no ano de 1986. Acontecimento ruidoso em sua época, mas que abriu as portas para o diálogo com as outras religiões, lembrando sempre o intuito de evitar um sincretismo religioso. “Estar juntos para rezar, mas não para rezar juntos”. (PP. João Paulo II)

O ecumenismo, expresso no diálogo inter-religioso, é um ideal, se compreendido no seu real sentido, de converter ao redil de um único Pastor todas as ovelhas desgarradas, sem se imbuir de seus erros ou de qualquer tolerância religiosa anticatólica, evitando a todo custo o relativismo religioso.

Outro significado, totalmente equívoco, é buscar a paz, com extremismos, na utilização do diálogo, ao aproximar tanto os irmãos separados da fé que se deixe de lado a divergência entre sua crença e a religião católica. Já que todos os nossos irmãos separados podem se converter mediante sorrisos, em última análise, significa que só alguns equívocos e alguns ressentimentos os mantêm afastados de nós.

Ninguém se salva sozinho – Paz e Fraternidade

Desde o 1º encontro em Assis, em 1986, a Comunidade de Santo Egídio celebra o encontro em Prol da Paz. Esse ano, realizou-se a 34ª edição, cujo lema foi: “Ninguém se salva sozinho – Paz e Fraternidade”.

O que pode evocar esse lema que toca em realidades tão elevadas, como o da vida eterna, e em ideais humanos almejados por toda a sociedade?

“Ninguém se salva sozinho!” Quão real é essa máxima que exprime a fé posta em ação. Aquele que ama a Deus deve se desdobrar em anunciar o Evangelho a toda criatura, transformando em obras, aquilo que crê com o coração. Este é o cumprimento pleno da Lei: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Porém, assim como os primeiros missionários que se dirigiam a terras desconhecidas, nas quais a liberdade da Igreja não era admitida ou os costumes estavam ainda voltados ao barbarismo, precisavam estar preparados para enfrentar os maiores perigos; da mesma forma, hoje em dia, o trabalho missionário deve ser feito com muito cuidado para não haver nenhum tipo de relativismo e concessão, uma vez que as convicções estão muito diluídas e pouco arraigadas no espírito do homem contemporâneo.

As preocupações puramente sociais e humanitárias, tão e tão propagadas na atualidade, igualam de tal forma os homens naquilo que eles realmente têm em comum, ou seja, os direitos que lhe provêm da natureza concedida por Deus, que as diferenças fundamentais, como as de cunho religioso, por exemplo, estão cada vez mais superficiais e relegadas a uma divergência meramente cultural e indumentária. Antigamente, ao ver alguém vestido com determinado traje característico de sua crença era possível determinar qual era seu credo e suas convicções, atualmente, as diferenças podem ser apenas exteriores e as convicções até idênticas.

Paz e Fraternidade: O que significa isso?

“Paz e Fraternidade”. Tão belos conceitos – ambos estreitamente conexos – pedem um aprofundamento.

O que é a paz? Em filosofia, define-se como a “tranquilidade da ordem”. Se entramos, por exemplo, num quarto de UTI e nos deparamos com um pobre homem acometido por um câncer em estado terminal, já em coma induzido, veremos que tudo ali parece estar imerso na tranquilidade. Do ponto de vista natural, aquele organismo está em paz? Não, pois há uma profunda desordem em seu interior. Ele caminha para a morte.

No mundo de hoje, se algo falta, é a ordem. Ou – diríamos ainda – o que sobra é a desordem! Desordem política, social, desordem sobretudo moral. O que rege, hoje em dia, a conduta dos indivíduos é seu próprio prazer, e este deve ser conquistado a todo custo. A tal ponto que há quem defenda as piores agressões à ordem natural do relacionamento humano. E por isso só nos resta concordar com as palavras de Francisco: “Não podemos ficar indiferentes. Hoje o mundo tem uma sede ardente de paz” (Discurso no Dia Mundial de Oração pela Paz, Assis, 20/IX/2016).

Sim. O mundo tem sede de paz, porque o mundo tem sede de ordem. E o que vem a ser a ordem? Aqui entramos no problema da fraternidade.

O exemplo máximo do convívio pacífico – ao menos em tese – é aquele verificado entre irmãos. Por quê? Pelo fato de que, no campo natural, numa mesma família reinará sempre uma certa semelhança, certa homogeneidade. Ora, o semelhante se regozija com seu semelhante. Por isso, diz a Escritura: “Como é bom e alegre os irmãos viverem em unidade” (Sl 133, 1).

O mesmo se dá no campo ideológico. Entre duas ou mais pessoas que compartilham uma mesma doutrina, uma só moral e idêntica fé, há necessariamente uma fraternidade. Ora, nós católicos sabemos que isso só pode ocorrer na única Igreja verdadeira, fundada por Jesus Cristo: qualquer outra coisa que não seja isso é uma mentira espúria. Querer afirmar que todas as religiões – as quais muitas vezes defendem posições diametralmente opostas – estão em posse da verdade, é impossível, pois a verdade é uma só.

Daí a necessidade do apostolado, que visa trazer a todos aqueles que estão fora do seio da Igreja, para a unidade desta mesma Mãe: “ninguém se salva sozinho”.

O “espírito de Assis”

“O ‘espírito de Assis’ plana sobre as águas agitadas das religiões e já cria maravilhas de diálogo fraterno.” [1] Assim se exprimia o Cardeal Roger Etchegaray, em 1996, lembrando com emoção os dias que viveu com João Paulo II no Encontro de Assis. Segundo o purpurado, o “espírito de Assis” é uma expressão cunhada por João Paulo II. Ela resume em si o ideal que tinham os encontros realizados na cidade do Poverello.

 ***

Nesse último dia 20, em que Francisco se reuniu com alguns membros de outras religiões para celebrar o Encontro, o que mais caracterizava a igualdade entre todos era o instrumento que, de per se, deveria atrapalhar o diálogo: a máscara.

Mas isso não passa de uma exterioridade coincidente, o que importa realmente é que se chegue ao verdadeiro ecumenismo, para o qual é necessário ter sempre presente o que nos une e o que nos separa das demais crenças; do contrário produz-se uma confusão religiosa, especialmente no coração daqueles que tem menos possibilidade de compreender que nem sempre as aparências condizem com a realidade, e que é possível estar juntos, mas não em concordância.

Por Odair Ferreira


[1] Cardeal Roger Etchegaray. Iubileum a.d. 2000. Tertium millennium. N.2/ June-September 1996:  Lo “spirito di Assisi. Disponível em: http://www.vatican.va/jubilee_2000/magazine/documents/ju_mag_june-sept-1996_etchegaray-assisi_it.html

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