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As mãos dos sacerdotes

“Um padre, ao Paraíso ou ao inferno, nunca vai sozinho: vão sempre com ele almas em grande número, ou salvas pelo seu santo ministério e com o seu bom exemplo, ou perdidas pela sua negligência no cumprimento dos próprios deveres e pelos seus maus exemplos.” (São João Bosco)

Redação (06/01/2022 09:38, Gaudium Press) Mais um ano ficou nos anais da história; um ano muito marcante, por toda a carga de medo, incertezas, isolamento, morte e crises nos mais diversos setores da sociedade. No período de fim de um ano e entrada de outro, é comum fazermos um balanço, computando perdas e ganhos.

Num ano tão atípico, embora alguns tenham ganhado muito, honesta ou desonestamente, valendo-se das oportunidades suscitadas pela crise, a grande maioria perdeu. Perdeu-se saúde, perderam-se vidas, empregos, poder aquisitivo, liberdade de ir e vir, direito de mostrar o rosto. E, entre as perdas sofridas, uma das que eu mais lamento é a de não podermos mais oscular as mãos dos sacerdotes.

Nos tempos atuais, com uma preocupante diminuição das vocações, a visão que se tem sobre a importância dos sacerdotes parece estar cada vez mais deturpada. E, como temos o hábito nocivo de considerar o todo pela parte, quando um sacerdote age mal e conspurca a sacralidade da sua missão, muitos, sobretudo aqueles que desconhecem o que exatamente significa o sacerdócio, tendem a nivelar por baixo todos os que exercem essa excelsa função.

Sacerdotes são pessoas humanas e, infelizmente, somos forçados a admitir que, nos últimos tempos, alguns têm sido mais humanos que divinos e, nada exemplares em seu comportamento, traindo o sagrado Sacramento da Ordem.

Quando uma pessoa peca, ela ofende a Deus, mas, quando um sacerdote peca, sobretudo quando peca gravemente, ele altera a ordem do universo, tal a sua importância na economia da vida.

Criticar ou rezar?

Mas, não estou aqui para “falar mal dos sacerdotes”, algo que jamais deve ser feito. Claro, não devemos fechar os olhos para os seus erros e, quando esses erros atingem a moral e a dignidade de outros seres humanos, eles devem não apenas ser denunciados, mas expostos, em vez de acobertados e jogados para debaixo dos tapetes eclesiásticos.

No entanto, há uma atitude muito superior à simples crítica e disseminação dos erros dos sacerdotes: a oração. Quando um padre erra, não é a Igreja que erra, no entanto, ela é profundamente ferida pelos erros de seus mais altos representantes, uma vez que foi constituída por Nosso Senhor Jesus Cristo como fundamento e caminho para a santidade, a continuação da presença d’Ele sobre a Terra.

Santa Teresinha do Menino Jesus foi um dos maiores exemplos de intercessora de que se tem notícia, ela rezava e oferecia sacrifícios pelos sacerdotes continuamente. Padre Pio de Pietrelcina orientava: “Em vez de criticá-los, pensa em rezar por eles!”. E São Nicolau de Flüe, santo suíço que não era sacerdote, mas pai de família, tornou-se famoso por incentivar as pessoas a rezarem pelos padres e pelas vocações; para ele, disso dependia a salutar manutenção da vida da Igreja.

Não me confesso a um homem!

É muito comum ouvirmos pessoas que não frequentam o Sacramento da Reconciliação darem a desculpa de que confessam seus pecados diretamente a Deus, por não quererem confessar a um homem. Sem meias-palavras, sabemos que isso é desculpa de fracos e oportunistas, que cultuam os próprios pecados e, ao “confessarem” diretamente a Deus o fazem com tal parcimônia que sequer ouvem a voz da própria consciência – presença de Deus em nós – a acusá-los.

Os impenitentes, que usam desse artifício para se furtar à confissão, sabem muito bem que não o fazem pelo fato de o sacerdote ser um homem, mas porque a sua própria humanidade corrompida lhes diz que, aquele homem, ao ouvi-los em confissão, é o legítimo representante de Deus, e eles têm vergonha e medo de ouvir de Deus, pela boca do sacerdote, a verdade nua e crua que exporá a eles a gravidade dos seus pecados e a necessidade de mudar de vida. Não se arrependem, não querem mudar e muito menos deixar de pecar, pois, se comprazem em suas más ações, mas, para aplacar a própria consciência, preferem não se confessar, acusando os padres de pecadores, em vez de ver neles a figura sacrossanta de Jesus, disposta a perdoá-los e ajudá-los a mudar de vida.

Quem é o sacerdote?

O Catecismo da Igreja Católica, em seu artigo 1548, afirma: “No serviço eclesial do ministro ordenado, é o próprio Cristo que está presente à sua Igreja enquanto Cabeça de seu Corpo, Pastor de seu rebanho, Sumo Sacerdote do sacrifício redentor, Mestre da Verdade. A Igreja o expressa dizendo que o sacerdote, em virtude do Sacramento da Ordem, age ‘in persona Christi Capitis’ (na pessoa de Cristo Cabeça).”

No parágrafo 1551 encontramos ainda: “O Sacramento da Ordem comunica ‘um poder sagrado’, que é o próprio poder de Cristo. O exercício desta autoridade deve, pois, ser medido pelo modelo de Cristo que, por amor, se fez o último e servo de todos.”

E no parágrafo 1120: “A missão de salvação confiada pelo Pai a seu Filho encarnado é confiada aos apóstolos e, por meio deles, a seus sucessores: recebem o Espírito de Jesus para agir em Seu nome e em Sua pessoa. Assim, o ministro ordenado é o elo sacramental que liga a ação litúrgica àquilo que disseram e fizeram os apóstolos e, por meio destes, ao que disse e fez Cristo, fonte e fundamento dos sacramentos.”

As explicações do Catecismo sobre quem é o sacerdote são claríssimas. Podemos citar ainda uma precisa descrição das Sagradas Escrituras: “O sacerdote é o homem de Deus.” (2 Tm 3, 17). No entanto, nada melhor do que bons exemplos para fornecer uma imagem clara a esse respeito…

Por que São Francisco não quis ser sacerdote?

São Francisco de Assis não quis fazer-se sacerdote porque se achava indigno de tão alta vocação. Ele tinha tal admiração, veneração e amor aos sacerdotes, que beijava até mesmo a terra pisada por um deles. Ele jamais se encontrava com um sacerdote sem oscular-lhes as mãos, e sempre fazia isso de joelhos, osculando-lhes também os pés. Seu respeito era imenso e, ao tocar as mãos de um sacerdote, ele dizia que estava tocando as mãos do Filho de Deus.

São João Bosco costumava falar sobre a importância de se respeitar todos os sacerdotes, a quem se referia como ministros sagrados de Deus; ter reverência quando falar com eles e beijar-lhes obsequiosamente as mãos. Sem dúvida, se tratava de um sacerdote consciente da grandeza de seu próprio ministério, um sacerdote que respeitava a si mesmo e jamais manchava as mãos de Jesus que trazia unidas aos seus braços operosos.

Entre o Anjo e o Sacerdote

São Cassiano dizia que a dignidade do sacerdote é celestial, São Dionísio a considerava divina, Santo Efrém, infinita, e Santo Inácio, mártir, completava dizendo que essa dignidade “é venerada pelos próprios Anjos, a ponto de, quando o sacerdote celebra o Sacrifício Divino, os Anjos ficarem perto dele e assisti-lo.”

Santa Catarina de Sena, Santa Teresinha e Santa Verônica Giuliani, entre outros, assim como São Francisco, beijavam a terra onde tivesse passado um sacerdote.  E São João Maria Vianey, o Santo Cura D’Ars, padroeiro dos sacerdotes, dizia: “Se eu me encontrasse com um sacerdote e um Anjo, saudaria primeiro o sacerdote, depois o Anjo!”, explicando que, sem o sacerdote, de nada valeria a Paixão e Morte de Jesus, pois é o sacerdote que tem as chaves dos tesouros celestes e é o dispensador dos mistérios divinos (cf. 1 Cor 4, 1).

Tal visão foi confirmada pela venerável Catarina Vannini que, em êxtase via, durante as Missas, os Anjos sustentando as mãos do sacerdote no momento da elevação da Hóstia e do Cálice.

Sacerdote: ministro em tempo integral

Podem dizer que tenho espírito tacanho, mas, há certas mudanças de hábito que não me caem bem. Até há algumas décadas, era comum os sacerdotes usarem a batina no dia a dia. Assim, a gente sempre sabia quando estava diante de um sacerdote.

Hoje, poucos padres usam o hábito ou a batina, alguns, ainda usam o clérgima, porém, a grande maioria usa roupas comuns e, pior, roupas que não vão bem nem a um leigo, quanto mais a um sacerdote! Não vou me aprofundar nisso, mas, é difícil, por exemplo, encontrar um homem de bermuda e camiseta regatas e saber que se está diante de um sacerdote consagrado! Até tatuagem já estão usando.

Já ouvi, para grande consternação, até mesmo de sacerdotes, que, uma vez terminada a Missa, o sacerdote volta a ser um homem comum. Isso não é verdade. O sacerdote não é um homem comum! Ele é um ser separado, escolhido por Deus para uma altíssima missão. “Ninguém assume por si mesmo esta honra, mas só quem é chamado por Deus.” (Hb 5, 4).

São Paulo deixa claro que, quando Deus faz o chamado para o sacerdócio, Ele separa aquele homem de todos os outros, ele é “segregado para o Evangelho” (Rm 1,1) e o marca para sempre, fazendo dele “sacerdote para a eternidade” (Hb 5,6).

Portanto, pode haver padres desviados de seu caminho, mas, não existem ex-padres, porque a Ordem é um ministério indissolúvel e, diferente do matrimônio, que se desfaz com a morte, nem mesmo depois de morto um sacerdote deixará de ser sacerdote. Ele é consagrado em seu corpo e em sua alma, e deve permanecer casto e imaculado.

São Gregório de Nissa diz: “Aquele que ontem estava confundido com o povo, torna-se mestre do povo, torna-se superior ao povo, doutor nas coisas santas e chefe nos sagrados mistérios.”

Deus não os amará menos por isso

Deus não força ninguém e, quando um homem é chamado para a vocação sacerdotal, ele pode escolher aceitar ou não. Um jovem não se torna padre da noite para o dia. São, pelos menos, oito anos de estudo, um longo período de preparação e discernimento. Findo esse período, alguns desistem, pois não se sentem em condições de cumprir as exigências deste sagrado ofício e Deus não os amará menos por isso, porque eles poderão seguir as trilhas do Evangelho em outro estado de vida.

No entanto, ao tornar-se sacerdote, ao professar os votos de castidade, pobreza e obediência e receber o Sacramento da Ordem, aquele indivíduo tem que saber que está morrendo para o mundo. Ele continuará sendo um homem, com as fraquezas pertinentes à natureza humana, mas, a sua escolha deverá preponderar sempre.

Mais um motivo pelo qual devemos rezar muito pelos sacerdotes e por sua altíssima missão, cuja sublimidade acarreta grandes responsabilidades. A santidade é construída passo a passo, portanto, o sacerdote não deixa de estar sujeito ao pecado e de sofrer tentações. Cabe a ele viver como Jesus viveu.

São Bernardo dizia que “o sacerdote, por natureza, é como todos os outros homens; por dignidade é superior a qualquer outro homem desta terra; e, por sua conduta, deve ser um êmulo dos Anjos.” Às mãos dos sacerdotes está confiada não apenas a ministração dos sacramentos, mas a própria salvação das almas e, como afirmou São João Bosco, pela sua conduta, pelo seu exemplo, ele arrastará muitos ao Céu… ou ao inferno.

Quando olhamos para as mãos de um sacerdote…

Disso, podemos concluir que, se a um sacerdote cabe descansar, cabe se alimentar bem e até mesmo ter momentos de descontração e lazer, cada uma dessas coisas deve ser feita santamente. Não cabe ao homem de Deus frequentar bailes e festas mundanas, não cabe ao homem de Deus se imiscuir com pessoas de má vida, a não ser com o propósito de evangelizá-las, sem participar de seu conúbio com as trevas.

Ao homem de Deus não cabe trair seus votos, manchar sua pureza, enganar àqueles a quem deve obediência e enriquecer com a lã e a gordura das ovelhas (cf. Ez 34). E, principalmente, abrindo mão de sua própria inocência, não lhe cabe perder a inocência daqueles que nele confiam.

Assim, quando olhamos para as mãos de um sacerdote, lembremo-nos sempre de que aquelas mãos tocam o próprio corpo de Nosso Senhor, ao reviver o mistério do sacrifício divino, na Eucaristia. Mais ainda, aquelas mãos, são as próprias mãos de Jesus Cristo, mãos forjadas pelo Espírito Santo, mãos abençoadas por Maria Santíssima e mãos feitas para abençoar os filhos de Deus.

E, ainda que, por questões sanitárias, continuemos impedidos de oscular essas sagradas mãos, ao menos, veneremo-las no silêncio de nossos corações, pedindo a Deus que elas não se contaminem, que elas não amaldiçoem e, sobretudo, que jamais voltem a ser simplesmente as mãos de um vil pecador.

Afonso Pessoa

 

 

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