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Arcebispo de Sydney: restauração da reverência diante do Santíssimo Sacramento

“A vida litúrgica é aquela que envolve a pessoa como um todo, por meio de todos os sentidos. Contemplamos o sagrado na beleza das ações litúrgicas, na arte e na arquitetura da igreja, ao ‘contemplar’ o Cordeiro de Deus na missa ou na adoração eucarística”.

Foto: Catholic Archdiocese of Melbourne/ Facebook

Foto: Catholic Archdiocese of Melbourne/ Facebook

Redação (09/06/2026 09:42, Gaudium Press) Em um gesto que reforça o compromisso com a reverência ao Santíssimo Sacramento, o arcebispo de Sydney, Austrália, Dom Anthony Fisher OP, lançou um forte apelo para que as paróquias de sua arquidiocese restaurem os genuflexórios e promovam uma reverência mais profunda diante do Santíssimo Sacramento. A iniciativa foi detalhada em uma carta pastoral publicada por ocasião da Solenidade de Corpus Christi, preparando o terreno para o 54º Congresso Eucarístico Internacional, que Sydney sediará em 2028.

A carta, intitulada “Adorando o Senhor Eucarístico: ‘Vinde, ajoelhemos diante do Senhor que nos criou’ (cf. Sl 94,6)”, é endereçada a clérigos, religiosos e fiéis leigos. Ela oferece uma profunda reflexão teológica e litúrgica sobre o significado dos gestos corporais — especialmente o ato de ajoelhar-se — na vida de oração e culto católico.

Redescobrindo o sentido de ajoelhar-se

Para Dom Fisher, as posturas físicas na liturgia não são meros símbolos ou formalidades; elas expressam o que cremos no coração. “De todas as posturas físicas, ajoelhar-se é a que mais claramente revela que acreditamos em Deus e nossa relação com Ele”, escreve o arcebispo.

Ajoelhar-se é um ato de humildade, adoração e súplica. Ele envolve todo o ser humano — corpo e espírito — em um diálogo íntimo com o Senhor presente na Eucaristia. A Igreja sempre manteve essa prática como legítima e significativa. Os fiéis são convidados a ajoelhar-se durante a Oração Eucarística, na adoração eucarística, na bênção do Santíssimo e até mesmo ao receber a Comunhão, que continua sendo “uma opção perfeitamente válida prevista no Missal atual”.

Enfrentando críticas modernas

O arcebispo não foge das controvérsias contemporâneas. Alguns críticos veem o ajoelhar-se como um gesto antiquado, “humilhante, um ato de subserviência próprio de um escravo, um sinal de desespero, de arrependimento e até mesmo de ódio por si mesmo”, e que diminui a dignidade humana, “inconsistente com a sensibilidade moderna de ‘não se curvar a ninguém’’’. E acrescenta: “Talvez por esse motivo, os genuflexórios tenham sido removidos dos bancos e confessionários em algumas igrejas, e as pessoas até instruídas a não se ajoelharem”. Dom Fisher refuta essa visão com base na Sagrada Escritura e na Tradição.

Ele recorda diversos exemplos bíblicos, entre eles: Moisés prostou-se diante da sarça ardente, Salomão ajoelhou-se na consagração do Templo, os Magos adorando o Menino Jesus, os discípulos perante o Cristo Ressuscitado, e São Paulo resumiu a reverência em sua carta aos filipenses: “Ao nome de Jesus se dobre todo joelho nos céus, na terra e sob a terra” (cf. Fl 2,10). Ajoelhar-se não é degradação, mas reverência, confiança, gratidão e súplica diante do Criador.

Propósitos

A carta vai além da teoria e propõe ações práticas:

– Frequentar regularmente a missa

– Preparar-se bem para a missa por meio da confissão, observando o jejum eucarístico de uma hora, a oração silenciosa antes da missa e a atenção ao próprio coração durante o Rito Penitencial

– Fazer uma ação de graças digna após a missa

– Encontrar tempo e entusiasmo para adorar o Senhor Eucarístico durante a missa e fora dela

– Participar das devoções paroquiais e arquidiocesanas, tais como a Adoração, a Bênção e as procissões

– Refletir sobre como você pode colocar em prática e compartilhar com o mundo exterior o que recebeu na Eucaristia.

E nas paróquias

– Ampliação dos horários de abertura das igrejas.

– Pelo menos uma hora de adoração eucarística semanal em cada paróquia.

– Estímulo à criação de capelas de Adoração Perpétua.

– Restauração dos genuflexórios em todas as igrejas onde foram removidos, para facilitar o ato de ajoelhar-se.

– Catequese intensiva sobre as posturas litúrgicas, para que o corpo acompanhe e expresse a devoção do coração.

Essas medidas resgatam uma tradição milenar da Igreja Latina, na qual o ajoelhar-se para receber a Comunhão era a prática padrão, muitas vezes facilitada pelas mesas de comunhão ainda presentes em igrejas históricas.

Adoração que leva à missão

Dom Fisher enfatiza que a devoção eucarística não é algo fechado em si mesmo. Pelo contrário: o encontro com Cristo na Eucaristia impulsiona a missão evangelizadora. Ele cita o profeta Isaías, São Pedro e os discípulos de Emaús — figuras que, após o encontro com Deus, levantam-se e saem para anunciar o Evangelho.

“A adoração e a missão estão intimamente ligadas; a oração eucarística e a vida eucarística. Ajoelhamo-nos para reconhecê-Lo e, em seguida, levantamo-nos para torná-Lo conhecido”, resume o arcebispo. A adoração autêntica gera santidade, caridade e compromisso social.

Preparando para 2028

Sydney sediará o Congresso Eucarístico Internacional em 2028 — exatamente 100 anos após o primeiro congresso realizado na cidade, em 1928. O tema escolhido por Papa Leão XIV é “Este é o Meu Corpo, entregue por Vós”. O evento representa uma oportunidade única de renovação espiritual para a Igreja na Austrália e para toda a Igreja universal.

A carta pastoral de Dom Fisher faz parte de uma preparação espiritual que já vem sendo construída. O arcebispo deseja que a Arquidiocese chegue ao Congresso com uma fé eucarística mais viva, marcada por sinais visíveis de reverência e um renovado ardor missionário.

Em um mundo cada vez mais secularizado e onde muitos gestos tradicionais de piedade foram abandonados, a iniciativa de Dom Anthony Fisher representa um movimento de recuperação equilibrada da tradição. Não se trata de um retrocesso, mas de uma redescoberta da profundidade dos sinais que, por séculos, ajudaram os católicos a expressar sua fé no Mistério da Presença Real de Cristo.

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