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Arcanjos: guerreiros que combatem os inimigos de Deus

A predestinação de Nossa Senhora refulgiu diante da multidão dos Anjos qual gládio divisor, distinguindo o bem e o mal, sem deixar lugar a uma terceira posição. Houve, nos Céus, uma grande batalha!

Redação (23/09/2020 17:49, Gaudium Press) “No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava informe e vazia; trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: ‘Faça-se a luz! ’ E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz dia, e às trevas noite” (Gn 1, 1-5).

Teólogos eminentes interpretaram essa passagem como uma alusão simbólica à criação dos Anjos e à sucessiva batalha capitaneada por São Miguel contra satanás.

A consideração do momento grandioso em que a multidão incontável dos espíritos angélicos saiu das mãos onipotentes de Deus faz o entendimento humano perceber sua extrema pequenez.

Se o espetáculo do firmamento coalhado de estrelas não cessa de extasiar os inocentes, como descrever o estupor que suporia ver essas miríades de Anjos muito mais esplendorosas que os astros de maior fulgor?

Dotados de inteligência cristalina e superior, a eles foram mostradas as maravilhas do Céu e os mil reflexos que nele cintilavam das perfeições do Divino Criador. A seguir, Deus lhes expôs seu plano a respeito do conjunto da criação, numa espécie de comunicação profética cheia de grandeza. Entre uma série quase infinda de seres corpóreos, o homem despontaria como autêntico rei, composto de matéria e espírito à maneira de síntese de todo o universo.

Diferentemente dos puros espíritos, a humanidade se prolongaria nos séculos mediante a geração de novos indivíduos, dando origem à História. Na plenitude dos tempos nasceria de uma Mulher a obra-mestra da Trindade, a “imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a criação” (Col 1, 15), Jesus, o Senhor.

E, pelo fato de haver sido assumido pelo Verbo no próprio instante de sua concepção, todos os Anjos deveriam adorá-Lo (cf. Hb 1, 6). Ele teria por Mãe uma Virgem puríssima, excelência da natureza e da graça, que seria coroada Soberana do Céu e da terra! Esta sublime revelação foi o desafio lançado pela sabedoria divina para a definição dos espíritos celestes.

 “Vi satanás cair do Céu como um raio”

À medida que o Senhor dos Exércitos Se comunicava, os Anjos iam contemplando os aspectos do esplêndido plano divino que eram mais chamados a representar. Para cada um tal consideração constituía, ao mesmo tempo, motivo de enlevo e de perplexidade, assim como exigia um ato de adesão pessoal a certo modo de agir de Deus que tocava o mais íntimo da própria axiologia, pondo-a à prova.

São Rafael, espírito de retidão adamantina, possuía um especial entusiasmo pela justiça. A revelação da clemência do Pai para com os homens, da efusão de graças a eles distribuídas pelo Verbo – mesmo sem o merecerem – e da benevolência ilimitada do Espírito Santo deixaram-no estupefato. Contudo, acatou a vontade superior que lhe parecia, à primeira vista, contraditória. Como prêmio, tornou-se o Anjo da consolação, o médico infalível de qualquer gênero de enfermidade e o exorcista invencível contra os demônios impuros. Essas prerrogativas o levariam a zelar por seus custodiados com dedicação quase materna, como relatado no Livro de Tobias.

São Gabriel, espelho da força divina, surpreendeu-se com a fraqueza a que se veria sujeito o homem se pecasse. As consequências sobre sua natureza seriam trágicas: uma inteligência enfraquecida e uma vontade instável, tendente ao egoísmo e ao mal. Como brilharia, então, a majestade do Onipotente em meio a um exército de estropiados, fracos e pecadores?

Ante a crucial alternativa, o Anjo inclinou-se com despretensão, aceitando e amando o desígnio de Deus, sem entendê-lo. Como recompensa foi-lhe concedido intervir em favor da Redenção do gênero humano enquanto embaixador do poder divino junto a Maria Santíssima! Maior mostra de força jamais houve, nem haverá.

São Miguel, príncipe da milícia celestial, dotado de eminente e peculiar perfeição, o mais semelhante ao Criador entre os puros espíritos, viu-se como que diminuído em sua primazia pelo Homem-Deus e pela Virgem Santíssima, sua Mãe. Possuindo uma natureza tão inferior à sua, ambos seriam em relação a ele como suseranos para com seu vassalo. Enlevado com essa determinação do Senhor, submeteu-se ardorosamente a Jesus e a Maria, consagrando- se como escravo d’Eles, e proclamou a grandeza do Altíssimo, que em tudo age com sabedoria. Por isso, São Miguel “é o mais zeloso em homenagear Maria e fazer com que Lhe rendam toda sorte de homenagens, sempre atento para ter a honra de ser enviado por Ela em auxílio de qualquer dos seus servidores”.

Algo análogo se passou com cada um dos Anjos. Diante de certa aparência de absurdo, tiveram de definir-se: ou se submetiam na alegria de seu espírito ou se rebelavam com insolência.

E nesse instante Deus separou a luz das trevas!

Lúcifer e seus sequazes vociferaram com revolta: “Non serviam!” Recusaram-se a ser escravos do Todo-Poderoso e a servi-Lo em Maria, rejeitando assim a possibilidade de participar das graças que receberiam pela universal mediação d’Ela. A predestinação de Nossa Senhora constituiu-se em fator de luta: Ela refulgiu diante da multidão dos Anjos qual gládio divisor, distinguindo o bem e o mal, sem deixar lugar a uma terceira posição.

Os Anjos fiéis responderam de imediato, ecoando o brado exorcístico e profético de São Miguel: “Quis ut Deus?” Sua primeira atitude havia sido a submissão enlevada à vontade misteriosa e fascinante do Criador. Em seguida, o amor pela hierarquia e o anseio de se tornarem escravos de Jesus em Maria levaram-nos a rejeitar por completo a arrogância de satanás, o qual julgava um rebaixamento insuportável sujeitar-se à superioridade alheia. Por conseguinte, proelium magnum factum est in coelis – houve nos Céus uma grande batalha!

Fulgurante guerra entre espíritos

Fica-se extasiado ante o desafio de imaginar como terá sido semelhante confronto. A violência de todas as batalhas da História dos homens somadas não resultaria nem na centésima parte desse tremendo e gigantesco embate dos anjos. Tal é a intensidade de uma guerra entre puros espíritos, que o efeito da bomba atômica resulta inofensivo se comparado a ela.

O rugido de Lúcifer, emitido num ímpeto orgulhoso e irrefletido de inconformidade, contagiou o bando desprezível dos medíocres e revoltosos. São Miguel, por sua vez, dividiu as hostes do inimigo com seu brado de indignação contrarrevolucionária e coligou sob seu comando as legiões de fidelidade inquebrantável.

Cessada a formidável luta, a vitória dos Anjos fieis havia sido estrondosa! O próprio Verbo de Deus Encarnado descreveu aos discípulos, em seus dias no tempo, aquilo que diante d’Ele se passara na eternidade: “Vi satanás cair do Céu como um relâmpago!” (Lc 10, 18). A eficácia angélica lograra expulsar com suma rapidez a corja imunda do Paraíso Celeste, antes mesmo que este fosse maculado por seu pecado.

A grande batalha do Céu é paradigmática para a existência na terra. O duelo angélico, selado para sempre com o triunfo dos bons, deverá desenvolver-se ao longo dos séculos entre os homens, como Deus anunciou após o pecado de nossos primeiros pais ao declarar à serpente: “Porei inimizade entre ti e a Mulher, entre a tua descendência e a d’Ela” (Gn 3, 15).

São Miguel e seus Anjos venceram o primeiro combate contra Lúcifer, mas a guerra da História não se concluirá até que o último inimigo de Cristo seja posto sob seus pés (cf. I Cor 15, 25).

Aos escolhidos compete manter lealdade a Deus, crer na vitória do bem em meio às tormentas, aos fracassos e aos absurdos e, consagrando-se como escravos da Sabedoria Encarnada pelas mãos de Maria, proclamar em alta voz durante as provas: “Quis ut Deus! Quis ut Virgo! A vitória será nossa pelo Sangue do Cordeiro! Amém, amém, amém!”.

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

 

Texto extraído, com adaptações, do livro Maria Santíssima! O Paraíso de Deus revelado aos homens. Parte III.

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