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Antigo regime: arte da conversa

Entre o final do século XVI e a Revolução Francesa, vigorou na França o Antigo Regime, sistema de governo monárquico que se caracterizou pelo esplendor do cerimonial na vida de Corte e pela ordem harmônica e hierárquica reinante na sociedade.

Foto: Wikipedia

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Redação (29/10/2026 19:19, Gaudium Press) O bispo revolucionário Talleyrand afirmou: “Não conhece a doçura de viver quem não viveu na França antes de 1789”.[1]

Havia grande respeito entre as pessoas, e os cumprimentos se manifestavam conforme o grau que elas ocupavam na hierarquia social.

O Duque Saint-Simon, um dos maiores escritores franceses do século XVIII, em suas “Memórias” cita “uma senhora da Corte que era capaz de fazer uma só reverência para cinco homens de categorias muito diversas e, com o olhar, cumprimentar cada um de acordo com a respectiva categoria”.[2] Afirma também que o Rei Luís XIV nunca passou diante de uma criada sem erguer o chapéu.

Com clarividência, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira descreve aspectos da sociedade francesa de então.

“O século XVIII foi, de um lado, a época na qual certos predicados de civilização, nascidos da Igreja Católica, chegaram ao seu pleno apogeu. Foi o século da elegância, da distinção, do bom gosto, das belas maneiras, de grandes literatos, de grandes artistas, da vida de Corte levada ao seu mais alto grau de florescimento.

Divórcio entre a sociedade temporal e a Igreja

“Mas, como todas as coisas neste mundo, mesmo quando são boas, só conseguem evitar a sua própria deterioração e putrefação quando são profundamente unidas à Igreja, e como, infelizmente, no século XVIII havia um divórcio cada vez maior entre a sociedade e a Igreja, aconteceu que essas qualidades nascidas da Civilização Cristã eram deterioradas pela impiedade do século.

“Temos, então, este paradoxo: foi o século da delicadeza por excelência, mas de uma excelência deteriorada até a fragilidade, a moleza e uma espécie de exagero de sentimentalismo. Foi o século da distinção, mas também da sensualidade.

“No final do século XVIII, naturalmente, as qualidades deterioradas estavam sobrepujando de muito as boas. Como resultado, eclodiu a Revolução Francesa.

A putrefação começou nas classes mais altas

“As classes sociais principalmente afetadas por esta deterioração eram as elites. Há um provérbio antigo o qual diz que o apodrecimento do peixe começa pela cabeça. Assim também a putrefação de qualquer sociedade tem seu início nas classes mais altas.

“Naquele tempo, quais eram essas classes? O clero, que era a primeira; a nobreza, a segunda classe social; e depois a alta burguesia, muito rica e, por isso, muito chegada à nobreza, tendendo mesmo a se misturar com ela.

“É doloroso dizer, mas o clero estava tão trabalhado pelo espírito do tempo, pelo ateísmo, pela libertinagem, pelo gosto dos costumes depravados, que não era raro encontrar padres, bispos e até cardeais declaradamente ateus. Recebiam cargos eclesiásticos que, na sociedade daquele tempo, eram considerados muito rendosos, e levavam depois uma vida absolutamente como qualquer civil.

“Os conventos de freiras eram um pouco mais moralizados do que os de frades. Mas mesmo aqueles eram uns depósitos de solteironas. As famílias eram muito numerosas, e as da nobreza muitas vezes não tinham dinheiro para manter no estado nobiliárquico todas as suas filhas. Então, empurravam para as Ordens religiosas as filhas que não tinham condições financeiras para manter. Estas, portanto, ingressavam nas Ordens religiosas sem vocação. Eram conventos ricos que proporcionavam uma vida muito farta e cômoda às freiras que, podendo manter relações sociais, levavam uma vida mundana e tranquila, sem preocupações econômicas.

“Os homens da nobreza conservavam a valentia dos antigos tempos, sendo habitualmente muito bons guerreiros. Na sociedade, eram fidalgos brilhantes, mas também profundamente afastados da prática da Religião e entregues aos prazeres da vida.”[3]

Antecipação do Céu

Nessa época surgiu e desabrochou a arte da conversa.

“Um dos pontos em que indiscutivelmente o Ancien Régime progrediu em relação à Idade Média foi o que se chamou a vida de salão, que consistia em um grupo de pessoas que se reuniam habitualmente para conversar.

“Mas o principal da conversa não eram as novidades, e sim os pensamentos. A conversa de salão era pensamento apresentado de modo leve, florido, onde entrava uma nota simbólica bonita em cada pormenor. Era a participação de um mesmo modo de ver em profundidade até as bagatelas.

“Com efeito, o máximo do convívio é participar de uma mesma visão, de uma mesma concepção das coisas trazidas da inocência primaveril, que vemos melhor à luz da Fé, a qual constitui um mesmo objetivo para o qual todos nós caminhamos. Aí se estabelece um convívio perfeito. Inclusive, com isso, a pessoa escapa do cárcere da própria contingência. Porque nossa contingência nos é dolorida e só a teremos remediada quando repousarmos em Deus. Enquanto não repousarmos n’Ele, o intercâmbio dessas coisas entre nós é propriamente uma antecipação do Céu.”[4]

Burguesia e povinho

“A alta burguesia procurava macaquear a nobreza como podia, meter-se nela por meio de casamentos com membros da nobreza empobrecida, de maneira a subir. Assim, a burguesia, que fora no século XVII uma classe muito moralizada, estava se contaminando com todos os defeitos da nobreza.

“Contudo, o povo ainda não tinha sido penetrado a fundo por todas essas deformações inerentes à impiedade, ao ateísmo, ao enciclopedismo e aos erros filosóficos e morais do século XVIII. Sobretudo, quando se tratava do povinho que morava nas cidades médias e pequenas ou no campo.”

“A alta sociedade rolava, assim, para o caminho da apostasia, não sendo suficiente a ação de grandes Santos, como Santo Afonso Maria de Ligório e o Bem-aventurado Inocêncio XI, para conter a avalanche da impiedade.”[5]

São Luís Maria Grignion de Montfort fez um profícuo apostolado junto ao povinho e foi autor da guerra da Vendeia contra a Revolução Francesa.

Entretanto, muitos desses salões foram se transformando em propagadores das ideias revolucionárias. Atacava-se a Igreja como instituição, o clero, a nobreza e o próprio rei.

Diversos historiadores afirmam que tais salões foram “laboratórios de opinião pública”, “centros de propaganda filosófica”, “antecâmaras do poder” que preparavam a Revolução Francesa.

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja,


[1] ROBERT, Henri. Os grandes processos da História. Porto Alegre: Globo. 1960 v. 2, p. 40.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. As mil expressões de Nosso Senhor Jesus Cristo na Ascensão, in Dr. Plinio. São Paulo. Ano XVII, n. 314 (maio 2024), p. 11.

[3] Idem. Proclamando as verdades sem rebuços. In Dr. Plinio. Ano XXI, n. 247 (outubro 2018), p. 23-24.

[4] Idem. A felicidade da infância — Como se perde? Como se recupera? Ano XXIII, n. 269 (agosto 2020), p. 25.

[5] Idem. Proclamando as verdades sem rebuços. In Dr. Plinio. Ano XXI, n. 247 (outubro 2018), p. 24.

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