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Antes amigo de Deus do que dos homens

Jônatas, filho do primeiro rei dos judeus, sempre generoso na hora da dificuldade, recebeu o prêmio dos amigos fiéis.

Redação (16/09/2021 09:29, Gaudium Press) As Sagradas Escrituras, sempre sábias e justas em suas descrições e apreciações, não deixam de atestar reiteradas vezes as virtudes e méritos de grandes homens do Antigo Testamento.

Relacionados à ascendência do Messias, inúmeros personagens brilharam por sua atuação como protetores, cooperadores e defensores da linhagem do Homem-Deus, sem propriamente fazerem parte da bendita linhagem.

Jônatas, filho do rei Saul e ilustre amigo do rei David, representou a verdadeira amizade em seu grau mais alto, isto é, a disposição de dar o sangue e renunciar a toda e qualquer vantagem ou benefício em favor dos outros, sem esperar retribuições.

Sempre generoso…

Como atesta a Escritura,[1] o filho do primeiro rei de Israel era de uma coragem e audácia incomparáveis, sempre aliadas a mais sutil perspicácia. Acompanhando seu pai nos combates contra os povos vizinhos da Palestina, sua espada mais de uma vez determinou a salvação e o êxito dos israelitas; nada seria desta ousadia, entretanto, se não estivesse sempre iluminada pela Fé: “Nada impede ao Senhor dar a vitória, sejamos muitos ou poucos[2], era o que repetia insistentemente na horas difíceis; o Senhor, por isso, assegurava-lhe a vitória.

No entanto, diante da imensa potência dos Filisteus[3] que ameaçava seriamente o reino de Israel, Deus escolheu um jovem para uma grande missão: David, ungido pelo profeta Samuel em nome de Deus, deveria substituir Saul no governo do reino e exterminar os infiéis.

Após a humilhante derrota de Golias, enquanto todos os louvores e atenções se dirigiam ao jovem David, o coração de Saul se endurecia ao discernir o desígnio da Providência sobre aquele menino, ao qual nunca mais viu com bons olhos. Ao contrário de seu progenitor, Jônatas possuía uma alma eminentemente admirativa e, em um golpe de vista, “apegou-se profundamente a Davi; amou-o como a si mesmo”.[4]

Entretanto, como uma paixão raramente se satisfaz com o que tem, a inveja e ódio do rei contra o vencedor dos filisteus crescia constantemente; a tal ponto estes sentimentos se apoderaram dele que, em presença da corte reunida, anunciou sua intenção de matar David.[5]

…na hora da dificuldade…

Mas — narra a Escritura — Jônatas filho de Saul amava profundamente Davi” e, temendo que seu pai lhe fizesse algum mal “preveniu-o a respeito disso”.[6] Mesmo quando corria o perigo de cair na desgraça do rei, não hesitou em ser fiel a seu amigo, custasse o que custasse.

Nesta terrível perspectiva passavam-se os anos. Sempre temendo algum perigo por parte do rei, David e Jônatas viveram um longo período de angústia, no qual nada era seguro senão o estreito laço que os unia: perseguições, fugas, reconciliações… Jônatas renunciou a seus privilégios e interesses em favor de um homem fugitivo e sem bens, incapaz de proporcionar-lhe recompensas por seus favores; seus esforços, na perspectiva moderna, seriam considerados realmente vãos.

Extremamente volúvel, Saul mudava constantemente seu parecer sobre o vencedor de Golias, embora dele recebesse repetidas provas da fidelidade. David teve inúmeras vezes a vida de seu inimigo nas mãos; maior era, entretanto, seu amor e fidelidade à realeza instituída por Deus, a qual respeitava e temia.

…recebeu o prêmio dos amigos fiéis

O último capítulo do livro de Samuel[7] traz o desfecho desta terrível e bela história: tendo os filisteus mais uma vez investido contra os israelitas, Saul e suas tropas não foram capazes de refreá-los, e fugiram assim montes adentro. Chegados a Gelboé, os judeus não puderam mais resistir; a fúria dos infiéis descarregou-se sobre o rei e seus filhos, que não sobreviveram ao ataque. Jônatas sucumbiu lutando valorosamente até o fim, enquanto Saul, temeroso, suicidou-se diante do inimigo…

Logo ao saber do ocorrido, David, que havia perdido aquele que lhe assegurara a vida, proclamou: “Teu adorno, Israel, jaz ferido sobre os teus montes. Ai, tombaram os valentes! Como tombaram os valentes em plena batalha! Jônatas foi morto sobre as tuas alturas. Choro por ti, meu irmão Jônatas. Tu me eras tão querido”.[8] Era o clamor da alma dilacerada, obrigada pelas circunstâncias a separar-se de um grande bem.

Diante da fama e da glória, sói acontecer do afortunado esquecer-se dos que mais bem lhe fizeram para fechar-se em si; o célebre rei de Israel, porém, era amigo realmente. Sabendo que Jônatas deixara um filho que era coxo, mandou chamar-lhe e disse-lhe: “Não temas, pois serei misericordioso para contigo por causa de Jônatas, teu pai. Vou restituir-te todos os campos de Saul, e tu sempre comerás o pão da minha mesa”.[9]

E como se não bastasse este nobre gesto — embora póstumo — de amor, mandou recolher e sepultar solenemente os restos de Jônatas, pelo que, como sinal de benção, “Deus voltou a ser propício ao país”.[10]

Decerto, poucas vezes encontra-se uma amizade com este teor; anacrônica, não apenas pelo tempo em que se deu, mas pela constatação de que não há mais amigos com esta disposição. A amizade é para sempre ou não é amizade; é uma aliança, um compromisso que transborda os limites do sepulcro e do tempo.

A segredo da amizade é, sem dúvida, ser antes “amigo de Deus”, amar exclusivamente pelo desígnio que o Altíssimo tem sobre cada um; os que assim vivem, recebem o prêmio dos amigos fiéis: estar na memória dos homens e no coração de Deus.

Por André Luiz Kleina


[1] Cf. 1 Samuel 13, 1-7.

[2] 1 Samuel 14, 6.

[3] Povo idólatra oriundo das terras da atual Gaza.

[4] 1 Samuel 18, 4.

[5] Cf. 1 Samuel 19, 1.

[6] 1 Samuel 19, 1-2.

[7] 1 Samuel 31.

[8] Cf. 2 Samuel 1, 19-26.

[9] Cf. 2 Samuel 9, 7.

[10] 2 Samuel 21, 14.

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