“Amo ser católico”: gratidão e missão dos Ordinariatos de ex-anglicanos
O Dicastério para a Doutrina da Fé publicou um documento que celebra o carisma próprio dos Ordinariatos instituídos por Bento XVI, estruturas eclesiais que continuam a florescer sob o pontificado do Papa Leão.

Foto: Ordinariato de Nossa Senhora de Walsingham
Redação (16/04/2026 08:49, Gaudium Press) No dia 24 de março passado, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou um documento oficial intitulado “Características da herança anglicana tal como é vivida nos Ordinariatos instituídos pela Constituição Apostólica Anglicanorum Coetibus”. Trata-se de um dos poucos pronunciamentos do Vaticano sobre o significado e o valor dos Ordinariatos desde que foram criados por Bento XVI, em 2009.
O texto reconhece e valoriza o ethos eclesial próprio que esses grupos de ex-anglicanos trouxeram para a Igreja Católica, destacando traços que enriquecem toda a comunidade católica.
Um ethos eclesial característico
Segundo o documento, os Ordinariatos se distinguem por características marcantes:
– Participação ativa dos leigos na governança da Igreja, atuando como verdadeiros cooperadores da hierarquia;
– Amor pela beleza litúrgica e pela preservação do rico patrimônio litúrgico inglês;
– Compromisso com os pobres e com a justiça social;
– Ênfase na família como “igreja doméstica”;
– Centralidade da Sagrada Escritura, da boa pregação e do Sacramento da Penitência.
Esses elementos não são apenas teóricos. Eles ganham vida concreta em comunidades como a Paróquia de Santo Tomás Moro, no Ordinariato da Cátedra de São Pedro (América do Norte), localizada em Scranton, na Pensilvânia (EUA).
Uma paróquia que inspira
O teólogo Larry Chapp, professor universitário aposentado que frequenta regularmente essa paróquia, descreve com entusiasmo como como essas características se tornam visíveis em sua comunidade. A Missa é celebrada ad orientem, com canto gregoriano, incenso e comunhão de joelhos. As homilias são profundas, enraizadas na exegese das Escrituras.
O pároco, Pe. Eric Bergman, é um sacerdote casado e pai de dez filhos. Sob sua liderança, a comunidade é formada por muitas famílias numerosas que vivem intensamente o ideal da igreja doméstica.
Mas o que mais impressiona não é apenas a liturgia bela. A paróquia está profundamente inserida no bairro de Providence, um dos mais pobres de Scranton. Entre suas iniciativas estão:
– O Centro de Gravidez Providence, uma clínica médica de baixo custo para a comunidade, liderada pelo Dr. Philip Huffman;
– A Fazenda da Divina Misericórdia, que distribui alimentos gratuitos;
– Um ativo ministério penitenciário;
– E uma futura abertura de um banco de alimentos.
Um detalhe tocante: o fiel Marcus Daly constrói caixões simples e acessíveis de madeira, inspirado no funeral do Papa São João Paulo II. A simplicidade e a dignidade desses caixões refletem a espiritualidade de toda a comunidade.
O bispo do Ordinariato, Dom Steven Lopes, reconheceu o valor dessa experiência e pediu ao Pe. Bergman que dedique um tempo sabático para escrever um livro sobre o que está sendo construído ali, com o objetivo de servir de modelo para outras comunidades.
O carisma da gratidão
Para Larry Chapp, porém, o mais impressionante não são a liturgia ou os projetos sociais — presentes em muitas outras paróquias —, mas algo mais sutil e profundo: o ethos de gratidão que marca os membros dos Ordinariatos.
Em um tempo em que a Igreja parece muitas vezes dominada pelo descontentamento – queixas sobre a liturgia, escândalos e tensões entre setores conservadores e progressistas, ou grupos que justificam desafiar Roma em nome de um “catolicismo ortodoxo” alternativo, os Ordinariatos oferecem um testemunho diferente. A maioria de seus membros são conversos que percorreram um longo caminho para entrar na plena comunhão com a Igreja Católica. Eles não nasceram católicos; escolheram ser, de forma consciente e intencional.
Por isso, como observa Chapp, não há espaço para reclamações constantes, somente missão. Não há cinismo, apenas vocação. As perguntas que dominam são simples e diretas: “O que o Senhor nos pede hoje?” e “O que precisamos fazer nesta vinha?”.
“Amo ser católico”
Durante a Vigília Pascal de 2026, a Paróquia de Santo Tomás Moro recebeu 15 novos católicos pelo Batismo e Crisma. Ao final da celebração, que durou cerca de três horas, um dos neobatizados, sem que ninguém perguntasse, exclamou emocionado: “Obrigado. Finalmente estou em casa. Amo ser católico.”
Essa simples frase resume a maior contribuição dos Ordinariatos para a Igreja universal: eles não apenas preservam um patrimônio litúrgico de beleza singular, mas também testemunham que a fé católica pode ser vivida com alegria transbordante, com um senso de missão renovado e com uma gratidão que, nas palavras do autor, é genuinamente contagiante.
Mais do que preservar um belo patrimônio litúrgico inglês, esses grupos mostram que a conversão autêntica gera entusiasmo, paz interior e compromisso concreto com o Evangelho.
Em meio a tantos desafios que a Igreja enfrenta no mundo atual, o documento do Dicasterio para a Doutrina da Fé e o exemplo vivo de comunidades como a de Santo Tomás Moro lembram que a unidade na diversidade pode ser fonte de renovação e esperança.
Com informações Catholic World Report





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