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Água benta ou álcool em gel?

Remédio eficaz para o corpo e para a alma, a água benta devotamente usada pode ser um meio de curar muitas doenças, além de afugentar os demônios e obter o perdão dos pecados veniais.

Redação (16/06/2020 16:00, Gaudium Press) Certo número de pessoas estava reunido junto do átrio da igreja: umas entravam pela esquerda; outras, em menor quantidade, preferiam fazê-lo pelo lado direito. Pensei à primeira vista tratar-se de uma escolha irrefletida, para conseguir algum lugar mais seguro dentro do templo –bem longe daquele que deveria ser o “meu próximo”–, a fim de evitar qualquer contágio…

Porém, ao me deter mais minuciosamente na cena, tive uma surpresa: somente as que entravam pelo pórtico da direita tinham a piedosa atenção de fazer o sinal-da-cruz. O fato me deixou intrigado. Quase fui levado a crer naquelas cenas dantescas do juízo final: “Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda…”. (Cf. Mt 25, 33)

Dois recipientes

Parei. Olhei mais alto, por cima dos ombros que ainda se encontravam na minha frente e, pude, mais ou menos, perceber que o “modelo dos recipientes era diferente”. Pensei: “Ah, claro, um deles –o da esquerda– é moderno, inovador, com formas mais simples, facilita o uso; enquanto o da direita, mais sólido, duradouro e inclusive artisticamente superior, talvez prejudicasse o “utilitarismo” contemporâneo. Devem tê-lo trocado recentemente”.

Mas de fato, isso tudo não respondia totalmente minha inquietação: “Está bem, ainda que uns optem pela modernidade e facilidade do recipiente, mas por que ninguém daquele lado esquerdo faz o sinal-da-cruz?” Coincidências existem, mas tanta unanimidade de gestos, pensamentos e de falta de piedade… . Até que ponto?!

Tentei deixar aquelas impressões para trás; entrei, felizmente pelo lado direito do átrio, parando, todavia, pelo belo recipiente que continha benfazeja água-benta; persignei-me. Fiz de tudo para esquecer-me daquela soma de impressões, pois queria rezar e assistir devotamente à Santa Missa, desde muito “abandonada em quarentena”.

Santa Missa celebrada com luvas

Durante a Missa, aliás celebrada com luvas – o que em mim provocou estupefação, pois sempre ouvira dizer, desde criança, que no passado os Bispos, por serem muito dignos, certamente costumam rezar Missa com as mãos cobertas; quase conclui tratar-se de um piedoso gesto, até perceber serem elas de látex. Enfim, não me abalei; cri tratar-se provavelmente de eclesiásticos bem asseados e bem compostos.

No momento da ação de graças, assaz interrompida por frequentes avisos a respeito dos cuidados para com “o meu próximo”, deixei-os quanto mais longe de mim possível, com uma ponta de peso na consciência.

Mudanças trazidas pela Covid-19

Ao tentar cuidadosamente retirar-me do templo, muito curioso com a inexplicável cena que antecedeu a minha entrada na igreja, segui outro percurso: fui em direção daquele recipiente diante do qual todos os “fiéis” não se preocupavam em fazer o sinal-da-cruz –afinal de contas, se estivéssemos dentro de algum estabelecimento comercial, se compreenderia; mas era dentro da igreja. Cheguei, olhei e, a pergunta foi instantânea: para que serve? Apagará os pecados veniais? Afugentará os demônios? Causará benefícios para alma, ou pelo menos para o corpo? Curará doenças?

Coloquei meus óculos e pude enxergar bem: consegui até ler aquelas pequeninas letras, pois a iluminação neon era excessiva. Estava escrito: “45º. Seu efeito mais importante é afastar as bactérias, além de limpar o corpo e inibir os micróbios”. Num relance compreendi tudo quanto tinha se passado no início da Missa: as mudanças trazidas pela Covid-19 foram muitas, pois não tinham afetado só os corpos; mas especialmente as almas!

Rezei pedindo a Deus que interviesse nesse contágio universal, sobretudo para que se apresentasse aos homens uma solução contra esse vírus.

Água benta ou álcool em gel?

Mas a constatação era inevitável: aquela pia de água benta tinha sido “suplantada” por uma pia de “álcool em gel”. Não quis acreditar nas minhas vistas, nem mesmo poder supor que alguma normativa litúrgica pretendesse estabelecer “novos sacramentais”, os quais sequer situam o “sinal da cruz” nas rubricas.

De repente, quase que por uma iluminação, lembrei-me das aulas de liturgia que eu tivera ainda no tempo de São João Paulo II, quando da explicação sobre o “Ritual de Bênçãos” e o “Missal Romano” e, recordei-me daquelas belas e altamente significativas palavras que o sacerdote rezava ao abençoar a água: “Senhor Deus todo-poderoso, fonte e origem de toda a vida, abençoai esta água que vamos usar confiantes para implorar o perdão dos nossos pecados e alcançar a proteção da vossa graça contra toda doença e cilada do inimigo”; e “Concedei, ó Deus, que, por vossa misericórdia, jorrem sempre para nós as águas da salvação para que possamos nos aproximar de Vós com o coração puro evitar todo perigo do corpo e da alma”.

Fiquei imóvel! A pergunta assomou-se à minha alma: “água benta ou álcool em gel?”

Novos “sacramentais”?

Confesso que demorei alguns instantes para entabular um debate interior e, pensei com os meus botões: Quem instituiu os sacramentais? A Igreja, a qual pode aumentar o seu número o quanto julgar conveniente para o bem das almas. E quem institui os…? – não sei como chamar esses costumes aggiornati.

Então, forçando muito minhas boas disposições cristãs, tentei acreditar que as certas ondas de ecologia talvez quisessem postular novos “sacramentais”, ainda que somente através da higiene do corpo, forjando, quiçá, a prática da pureza das mãos.

Benefícios dos sacramentais

Em seguida, recordei que os sacramentais promovem uma graça auxiliar, pelo poder das preces da Igreja e da boa disposição de quem os recebe, além de preparar a alma para receber a graça divina e ajudá-la na cooperação com o sobrenatural. Por outro lado, via naquele álcool em gel uma cooperação simplesmente natural. Ele não satisfez meus anseios pelo sagrado.

Não resisti. Fui correndo à pia de água benta, benzi-me outra vez e, senti-me muito limpo e aliviado, já que um de seus efeitos mais importantes é afastar o demônio “que ronda em torno de nós como o leão que ruge” (Cf. 1 Pd 5, 8). Por fim, sem mais querer prosseguir com aquelas fortes impressões, tão divergentes entre si, pedi que Deus me perdoasse qualquer falta venial que eu pudesse ter cometido, ficando em paz por saber que a água benta traz consigo também este bem.

Inúmeros católicos não sabem para que serve a água benta

Aliviado, conclui: já que os sacramentais são sinais sagrados instituídos pela Igreja para proporcionar aos fiéis benefícios principalmente espirituais, mas também temporais, obtidos pela impetração da própria Igreja, não hesitarei, continuarei a entrar pelo pórtico da direita, pois afinal de contas, o álcool em gel as farmácias podem fornecer; ao passo que água benta é um remédio que somente a Igreja pode providenciar.

É pena! – pensei –, inúmeros católicos, mesmo dos mais instruídos, não sabem para que serve a água benta. Por isso, não se beneficiam desse precioso medicamento instituído pela Igreja para ajudá-los em praticamente todas as circunstâncias e dificuldades da vida!

Por Bonifácio Silvestre

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