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“A verdade é filha do tempo”

Um dos mais curtos pontificados da História não deixa de ser lição para a atualidade.

Redação (28/03/2021 09:10, Gaudium Press) Uma das figuras mais curiosas do séc. XVI, embora pouco conhecida, foi Marcelo Cervini, que em 1555 subiu ao trono de S. Pedro sob o nome de Marcelo II.

Nasceu na Itália em 1501. Seu pai, Ricardo Cervini, renomado matemático e arqueólogo, gozava então de muito prestígio em Roma, onde ajudara o Papa Leão X (1513-1521) em sua famosa reforma do calendário. Marcelo, ainda muito novo, ia adentrando aos poucos nos círculos de estudiosos e eclesiásticos do Vaticano, onde cresceu e foi educado.

Defensor da Igreja            

Dadas as brilhantes qualidades do jovem, o Papa Paulo III (1524-1549) nomeou-o seu secretário pessoal; função que exerceu sempre com esmero e destreza. Por fim, em 1539, foi elevado ao cardinalato.

A partir daí, exerceu a função de legado papal em relevantes missões diplomáticas, onde demonstrou muita habilidade em assuntos políticos, conservando sempre sua fidelidade à Santa Igreja. Como era de se esperar, angariou não poucos inimigos, dentre os quais o próprio imperador Carlos V.

Morto Júlio III, o conclave de abril de 1555 elegeu Cervini para Sumo Pontífice com unanimidade de votos, apesar dos esforços de outros para desprestigiá-lo.

De têmpera firme e muito convicto em suas ideias, Marcelo II logo promoveu a reforma dos costumes do clero, tão desmoralizados naquela época; era-lhe detestável o nepotismo de seus antecessores, o que remediou com a proibição da entrada de parentes seus em Roma sem sua expressa autorização. Mandou para além do rio Tibre os criminosos e pessoas de má vida, e repreendeu com veemência os prelados que residiam fora de suas dioceses.

Entretanto, Marcelo não pôde levar adiante seus planos.

Nas mãos da Providência

Quando ainda recebia felicitações por sua recente eleição, alguém o ouviu dizer: “Se minha vida há de ser útil à Igreja de Deus, que Ele a guarde; se não, antes a desejo breve, para não aumentar meus pecados.[1]

Após oficiar as cerimônias de Semana Santa, caiu gravemente enfermo, vindo a falecer em poucos dias, para o espanto de toda a Cristandade. Foram tão só 22 dias de pontificado, dos quais 10 esteve totalmente inválido. A instâncias de São Roberto Belarmino – seu sobrinho –, Palestrina[2] compôs uma de suas mais célebres obras em memória do defunto pontífice: a “Missa Papae Marcelli”.[3] Seus restos ocuparam então um simples túmulo na basílica Vaticana, conforme era seu desejo. “Não é o sepulcro que honra tuas cinzas, mas são as cinzas que honram teu sepulcro”,[4] escreveriam ali mais tarde.

Um exemplo atual

Surpreende-nos às vezes, ao ouvir fatos como este, o modo como Deus age nos acontecimentos da História. Independentemente de qual teria sido o porvir terreno de Marcelo II, o certo é que soube ser flexível ao desígnio de Deus, não querendo nada que não servisse exclusivamente a causa da Santa Igreja, nem mesmo a própria vida.

Como bem reza certo adagio latino, “A verdade é filha do tempo”, e revelará as intenções dos corações.

Por André Luiz Kleina


[1] PASTOR, Ludovico. Historia de los Papas. Barcelona: Gustavo Gili, 1927, v.14, p. 37.

[2] Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594). Compositor italiano; foi cantor, organista e mestre de coro de importantes igrejas de Roma por mais de 40 anos. Entre suas composições contam-se mais de 100 missas e 375 motetos. Em sua música, assimilou e refinou todas as técnicas polifônicas de seus antecessores, deitando as bases para a polifonia clássica e barroca; é considerado o mais importante compositor sacro da Renascença.

[3] WALSH, William Thomas. Philip II. New York: Sheed & Ward, 1937, p. 173.

[4] PASTOR, Ludovico. op. cit., p. 52.

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