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A solução para a Igreja é a Verdade

Onde estiver a virtude, ali estará a Verdade. São Cipriano deu este exemplo aos fiéis de seu tempo e dá a nós hoje.

Redação (22/10/2020 00:57, Gaudium Press) Todos esses temas estão na boca do povo. Não há cristão que – digno desse nome – não se preocupe pela triste sorte da barca de Pedro. Escândalos se sucedem aos escândalos na Igreja de Cristo. Os pastores, ora omissos, ora coniventes, deixam as ovelhas inquietas. A pergunta é frequente: “idolatria ou não?”. Aqui e acolá destroem um templo católico. A angústia é geral: “Quando aparecerá o Papa que colocará fim a tudo isso?”. E o tema dos bens eclesiásticos não fica de fora.

Para os que não sabem, estamos em Cartago, no ano 250.

Jesus Cristo ou Júpiter? Maria ou Ceres?

A perseguição do imperador Décio foi uma das piores que a Igreja teve de enfrentar nos primeiros séculos. Isso não se deve à violência que os romanos empregaram para matar os cristãos, mas sim ao número assustador de fiéis tomados de pânico que abandonou o rebanho de Cristo neste período.

Décio não exigia muito dos católicos: bastava que estes queimassem um pouco de incenso diante das divindades pagãs. A autoridade romana nem sequer exigia que os cristãos deixassem o culto a Jesus Cristo. Por que não colocar num mesmo altar Jesus Cristo e Júpiter? Ou Maria e Ceres[1]?

Aquele que, diante da autoridade, honrasse os deuses recebia uma espécie de certificado, um libelo.

Infelizmente, os cristãos desse tempo haviam se acostumado à paz, pois os imperadores anteriores tinham deixado de persegui-los nos últimos decênios. 30 anos de paz foram suficientes para produzir uma geração de católicos sem raízes na Fé. As defecções foram incontáveis.

Incontáveis porque os bispos abriram caminho para tal. Há casos de clérigos que acorreram aos templos para queimar incenso diante das divindades pagãs sem sequer terem sido convocados pelos magistrados. Foi nesse período que destruíram as primeiras igrejas católicas, construídas nas províncias da Síria e da Palestina.

Graças a Deus, governava o timão de Pedro um homem santo: São Fabiano, Papa e mártir. Preso, interrogado, Fabiano foi executado. E seu exemplo valeu mais aos católicos do que discursos.

Hoje em dia, esse gênero de atitudes parece estar “fora de moda”. A gente chega a se perguntar se sua morte não foi inútil… Coitado! Um acordo com o ditador desumano não resolveria tudo? A Igreja certamente entregaria alguma coisa, mas quantas vidas não seriam salvas…? Se São Fabiano fosse julgado hoje pelos contemporâneos, perderia o título de mártir e santo, para receber a alcunha de imprudente, temerário, radical e intransigente.

A Igreja permaneceu decapitada por muito tempo, dado que a perseguição impedia a ascensão de um novo pontífice.

O homem de Deus não era o Papa

Deus permite esses reveses para que sua mão fique mais evidente. Morto Fabiano, os olhos da Cristandade nascente voltou-se para um homem de Deus. Ele não morava em Roma, mas detinha a autoridade moral da Igreja: São Cipriano de Cartago. Nessas horas de crise, a Igreja nunca está sem timoneiro e nunca falta um homem de Deus.

Sobre São Cipriano, conta-se uma anedota interessante. Cipriano nascera de família pagã e rica. Uma vez convertido, deixou o paganismo mas conservou suas posses até o dia de sua sagração episcopal. Entretanto, sabia bem ele que a pobreza pessoal é necessária ao estado de ministro de Deus. Vendeu, então, seus bens para distribuir todo o arrecado aos fiéis. Nada de fortunas em bancos!

Qual não foi sua surpresa, porém, quando descobriu que seus sufragâneos haviam comprado todas as suas terras e seus bens para restituí-los a ele, Cipriano. Os fiéis de Cartago sabiam que seu pastor empregaria estas riquezas para as necessidades de sua diocese. De fato, aqueles bens eram necessários, pois empregou-os para auxiliar as famílias dos mártires, a educação das crianças órfãs, o sustento do seu clero e assistência aos exilados. Homem de Deus, Cipriano sabia que fim destinar aos bens eclesiásticos.

Assim sendo, São Cipriano conduziu nestes momentos difíceis a barca de Pedro, pois, como já dissemos, tardou até que houvesse condições de escolher um novo Papa. A situação era urgente.

A Igreja estava dividida entre os partidos dos “radicais” que pretendiam ser donos da verdade e dos “relaxados”, prontos a se inclinar diante de Ceres e Júpiter. São Cipriano tudo analisou, tudo legislou, tudo ordenou.

Solução para os tempos difíceis: a Verdade

Não há pior situação para a Igreja do que a confusão. Os momentos mais difíceis da Igreja não foram as perseguições, nem as guerras, nem as catástrofes naturais, nem sequer as heresias ou os cismas. A Igreja sofreu mais quando nuvens pesadas ou fumaças escuras impediram-na de irradiar a luz de sua verdade sobre o mundo.

Onde não há verdade clara, reina a confusão.

Nestas horas, o coração dos fiéis deve deixar sua bússola interior apontar para o norte da santidade. Deve-se procurar aqueles que provam com atos as palavras de Nosso Senhor. São Cipriano deu este exemplo aos fiéis de seu tempo e dá a nós hoje: onde estiver a virtude, ali estará a Verdade.

Por Paulo da Cruz


[1] Na mitologia romana, Ceres era a deusa da terra e dos cereais.

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