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A serpente de bronze: prefigura da Cruz como “Spes Unica” de salvação

Animal pouco sociável e ao mesmo tempo simbólico, a serpente é figura evocada pela Liturgia na Festa da Exaltação da Santa Cruz.

Animal pouco sociável e ao mesmo tempo simbólico, a serpente é figura evocada pela Liturgia na Festa da Exaltação da Santa Cruz.

 

Redação (14/09/2020, 16:02, Gaudium Press) Na lista dos inúmeros perigos que nossas matas tropicais abrigam, os ofídios ocupam, sem dúvida, os primeiros lugares. Certas serpentes possuem veneno próprio a levar um homem à morte em poucas horas; outras cobras, mais corpulentas, preferem sufocar impiedosamente suas presas. Umas e outras nos convidam, naturalmente, a manter distância.

Apesar de nos causar certo choque, a imagem da serpente – evocada pela liturgia na Festa da Exaltação da Santa Cruz – é rica em simbolismo. Com efeito, trata-se de um animal perigoso e que, curiosamente, sempre esteve relacionado à medicina, sendo emblemático do poder curativo. Seu veneno é letal, mas também possui propriedades terapêuticas que, uma vez trabalhadas, são utilizadas como remédio. Eis a vida e a morte sintetizadas num mesmo animal, qual pedra de escândalo: quem sabe aproveitá-lo, obtém elementos para a restauração da saúde; quem se descuida, é picado e morre.

Animal pouco sociável e ao mesmo tempo simbólico, a serpente é figura evocada pela Liturgia na Festa da Exaltação da Santa Cruz.

Para os israelitas castigados, único meio de sobrevivência

A primeira leitura da liturgia própria à Festa da Exaltação da Santa Cruz, extraída do Livro dos Números (21, 4-9), aborda um episódio da travessia do deserto rumo à Terra Prometida:
“Os filhos de Israel partiram do Monte Hor, pelo caminho que leva ao Mar Vermelho, para contornarem o país de Edom” (Nm 21, 4).

Era uma marcha penosa, por ser um terreno árido, inóspito e sem água.4 Além disso, o povo se enfastiara com o maná, o “pão vindo do céu” (Sl 104, 40) que Deus lhes concedia para sustento, fazendo-o chover junto com o orvalho (cf. Nm 11, 9).

E o texto relata que o povo não manifestou apenas inconformidade com a precariedade material, mas “se pôs a falar contra Deus e contra Moisés” (Nm 21, 5a). Dirigindo-se ao profeta, cobravam-lhe aquilo que exigiriam do próprio Deus, caso O encontrassem:
“Por que nos fizestes sair do Egito para morrermos no deserto? Não há pão, falta água e já estamos com nojo desse alimento miserável” (Nm 21, 5b).

Deus, porém, não tolera que haja revolta contra seus mediadores, a ponto de tomar as murmurações do povo como reclamações feitas a Si próprio. Para castigar os filhos de Israel, o Senhor mandou terríveis serpentes que infestaram o acampamento. Sua venenosa picada causava febre altíssima que matava em pouco tempo, tendo sido grande o número de vítimas.

Depois de ter morrido “muita gente em Israel” (Nm 21, 6), o povo reconheceu nessa calamidade um castigo divino e, afinal, o medo, que nem sempre propicia a conversão, os levou ao arrependimento. E era este o objetivo de Deus. Foram eles pedir a intercessão de Moisés, admitindo que o pecado cometido tinha duplo alcance, pois ofendera o Altíssimo e seu representante:
“Pecamos, falando contra o Senhor e contra ti” (Nm 21, 7).

Deus respondeu aos rogos de Moisés com a seguinte recomendação:
“Faze uma serpente de bronze e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela, viverá” (Nm 21, 8). E não eliminou as serpentes, permitindo que elas continuassem suas investidas contra os hebreus.

Moisés cumpriu a determinação divina, estabelecendo-se a partir de então uma situação de milagre permanente e incontestável diante de quantos haviam assistido a inúmeras mortes produzidas pelas abrasadoras serpentes. Quem era picado sabia que não existia remédio para o seu mal, e a única chance de sobrevivência estava junto a Moisés, pois o profeta sempre levava consigo o cajado em cuja extremidade fixara a serpente de bronze. Assim, Deus manifestava empenho em manter o princípio de mediação e fazia os israelitas comprovarem não só sua onipotência e bondade, como também os benefícios de ter um profeta que os guiasse e interviesse em favor deles.

Animal pouco sociável e ao mesmo tempo simbólico, a serpente é figura evocada pela Liturgia na Festa da Exaltação da Santa Cruz.

O Divino Mestre utiliza a mesma figura

À luz do Evangelho de São João proposto pela Liturgia desta festa, a imagem da serpente de bronze se reveste de novo colorido, apresentando-se como prefigura da ação redentora de Jesus Cristo na Cruz:

“Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: ‘Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que desceu do Céu, o Filho do Homem. Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o filho do Homem seja levantado, para que todos os que n’Ele crerem tenham a vida eterna.” (Jo 3, 13-15)
Deus quis que este mesmo animal, por cuja sugestão o pecado e a morte se introduziram no mundo, se transformasse em sinal de cura para os filhos de Israel, representando o Divino Redentor, que nos traria a verdadeira vida, como se lê no Livro da Sabedoria: “Quem se voltava para ele era salvo, não em vista do objeto que olhava, mas por Vós, Senhor, que sois o Salvador de todos” (16, 7).

Animal pouco sociável e ao mesmo tempo simbólico, a serpente é figura evocada pela Liturgia na Festa da Exaltação da Santa Cruz.

Ao contrastarmos a figura com a realidade, veremos que Deus também poderia ter operado a Redenção eliminando para sempre o pecado e seus efeitos, por uma simples deliberação, sem o concurso de nenhum intercessor. Todavia, permitiu que os homens continuassem pecáveis, deixando à disposição de todos a possibilidade de encontrar o perdão junto ao “mediador da Nova Aliança” (Hb 12, 24), Nosso Senhor Jesus Cristo. Por aí se entende porque Simeão, quando recebeu nos braços o Menino Jesus, proclamou que Ele seria pedra de escândalo, pois serviria para a salvação ou condenação de muitos (cf. Lc 2, 34). Ele é, de fato, divisor. Quem é tocado pelo pecado e O olha, encontra o remédio para seus males. Mas, ai de quem procura a solução fora d’Ele!

Animal pouco sociável e ao mesmo tempo simbólico, a serpente é figura evocada pela Liturgia na Festa da Exaltação da Santa Cruz.

Cada um escolhe a serpente que quer

Procurar a solução fora d’Ele… um problema que se agrava entre os homens de hoje. A bem dizer, é mais comum que se procure a solução tão somente no dinheiro, na fama, nas vãs alegrias mundanas, na paz falsa e ateia – tão pregada e defendida –, na tecnologia – entre outros ídolos de nosso tempo –, do que na Cruz do Redentor.

Esta Cruz, verdadeira serpente de bronze, exposta ao olhar de todos há tantos séculos está para curar almas e corpos, hoje é trocada por tantas outras “serpentes” que não podem trazer senão curas falsas ou temporárias.

Entretanto, “Stat crux dum volvitur orbis” – Enquanto o mundo gira, a Cruz permanece de pé. Permanece e permanecerá sempre ostentando a Salvação do mundo, Cristo Crucificado.
Como foi outrora a serpente de bronze para os judeus, A Cruz é e será sempre Spes Unica de salvação.

Por: João Paulo Bueno

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