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A Santa Missa: dúvidas, debates, determinações

“Se alguém disser: ‘eis aqui algo de novo’, também isso já sucedeu nos séculos que nos precederam” (cf. Ecl 1, 10)

 Redação (19/11/2020 11:09, Gaudium Press) Na Igreja, a história dos desafios pós-conciliares geralmente é marcada de figuras insignes. Na alvorada de um novo mundo, na ambição de conceder à Igreja uma nova face, o povo cristão sofre necessidades e busca no horizonte os homens que as suprem.

Por exemplo, não era pouca coisa pleitear pela missa versus populo, fomentar a interação dos fiéis na liturgia, exigir a atividade mais intensa e humana dos pastores junto aos seus rebanhos, libertando-se de preconceitos inveterados para, por fim, superar a letra que mata.

Esta empresa revolucionária e heroica, entretanto, começou muito tempo antes do século XX. Assim, convidamos o leitor a fugir um instante de nossos convulsionados dias para nos acompanhar numa viagem rumo ao início do séc. XIII.

Num espaçoso e penumbrático salão de um castelo medieval, diversas autoridades estão reunidas para um debate solene. “Com a palavra, Arnauld Othon!” – anuncia o árbitro da sessão. O tema do debate era a corrupção da Igreja Católica. “A Igreja romana – vociferou Othon – não é a Santa Igreja, nem a Esposa de Cristo, mas a Igreja do diabo, a Babilônia que João em seu Apocalipse chama mãe dos fornicadores e das abominações” (Cf. PETITOT, p. 133).

Alguns assistentes escandalizados continuaram a ouvir as imprecações de Othon: “A organização hierárquica da Igreja – dizia ele – não foi estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo, nem mesmo a ordem e a liturgia da missa foram delineadas por Ele, nem mesmo pelos apóstolos”.

Por fim, nada ficou de pé no discurso do sombrio personagem: A instituição dos sacramentos, o poder espiritual e temporal dos Papas…

Mal terminou sua argumentação, levantaram-se do outro lado da assembleia os contendores de Othon, e pediram a palavra. Eram eles São Domingos de Gusmão, D. Diego de Azevedo, bispo de Osma, companheiro de São Domingos, Pierre de Castelnau, legado do Papa, Arnauld Almaric, abade de Citeaux, e outros padres e monges cistercienses.

O debate prosseguiu caloroso. Os heróis da Fé defenderam a Santa Igreja Católica, sua origem divina, suas instituições, a legitimidade do poder papal etc.

Mas os hereges eram incansáveis e, não podendo atacar a doutrina ortodoxa, partiram novamente para a discussão litúrgica, desfechando-a na descrição de certas condutas duvidosas dos homens da Igreja.

Mais que a doutrina, interessava-lhes a questão litúrgica: “Jesus Cristo celebrou a Ceia sobre uma tábua de madeira, numa grande sala de uma casa de família, sentado no meio dos discípulos e com a face voltada para eles. O padre católico celebra a missa de pé, revestido de ornamentos luxuosos e inúteis, em uma igreja, sobre um altar de pedra…” (Cf. PETITOT, p. 134).

“Profético…” – sussurrou uma voz perdida nas sombras.

Mas Domingos, exímio conhecedor das Escrituras e da Tradição, desferiu contra o inimigo mordaz o golpe decisivo. Defendeu a doutrina da Igreja, a instituição dos sacramentos, a sucessão apostólica e outros temas levantados no debate, com a riqueza e a precisão com que poderiam ter feito os apologistas da Contrarreforma e de São Pio V.[1]


[1] Nenhuma das afirmações acima peca de anacronismo. São todas dos idos tempos medievais e podem ser encontradas na história de São Domingos com seus opositores, os partidários da perigosa heresia que ameaçou a Cristandade no séc. XIII: os Cátaros e Albigenses. Neste sentido, leia-se a interessante obra de R. P. H. PETITOT. Vie de Saint Dominique. Éditions de la Vie Spirituelle, Saint-Maximin. Ligugé: 1925.

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