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A parábola da iniquidade humana

A admirável parábola do filho pródigo nos transmite um belo ensinamento neste período quaresmal.

Redação (27/03/2022 08:29, Gaudium Press) O IV Domingo da Quaresma, conhecido como Domingo Laetare, enche-nos de santa alegria em meio a um período todo ele feito de penitência e de conversão, pois manifesta-se o júbilo pascal pela Ressurreição que sucede a morte de Nosso Senhor. Os paramentos roxos dão lugar ao róseo, como manifestação desta esperança que nos traz o bom Deus, rico em misericórdia, certos de que nos trará a salvação.

Por este motivo, a liturgia colherá em seu Evangelho a divina e poética parábola do filho pródigo, a fim de nos transmitir um maravilhoso ensinamento.

Revestir-nos-á com as vestes da salvação

Esta parábola bem poderia ser intitulada como a “parábola da iniquidade humana”. Vejamos a narração do Evangelho (Lc 15, 11-24):

“Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles”.

Este pedido do filho mais novo parece não ter fundamento na realidade, pois normalmente a herança se recebe com a morte do pai.

Portanto, pode-se afirmar que, por assim dizer, ele quis “matar o pai”. Ato este que simboliza o pecado original. Adão e Eva desobedeceram a Deus comendo do fruto proibido, pois quiseram fazer-se deuses, tendo o conhecimento do bem e do mal (Cf. Gn 3,3), destronando a Deus de seus corações e matando a vida divina em suas almas.

“Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada”.

Por consequência da nódoa original, toda a humanidade ficou sujeita às mazelas próprias a esta falta. A morte passou a reinar entre os homens; o orgulho e a sensualidade jugularam as paixões humanas, como também toda espécie de vícios e maldades que dão mostras no decorrer da História.

“Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar necessidade. Então, foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou cuidar dos porcos”.

A seca numa determinada região, produz a carência de frutos, e, por consequência, a fome. Esta falta de chuva bem pode representar certo rompimento da aliança entre o Céu e a Terra. As transbordantes graças descidas outrora sobre o paraíso já não mais se faziam se sentir; e o mais lastimoso: o homem perdeu a sua filiação divina, como paga de sua falha, e passou a ser seduzido pelo “patrão maligno”.

“O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isso lhe davam. Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome’”.

A posteridade da descendência de Adão deu manifestações de uma terrível decadência em que caíra a natureza humana, e necessitava urgentemente de uma restauração. Ora, quem seria capaz de restaurar e redimir tamanha iniquidade presente nesta natureza tão corrompida? Apenas um Deus.

“Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’”.

São as saudades do convívio com Deus. Quão impregnada de bênçãos e de unção deveriam ser as longas conversas de Adão com Deus no entardecer do paraíso! Cada vez mais, a humanidade, submersa no lodo do pecado, sentia a falta deste relacionamento com o Pai do Céu, enquanto filhos amados por Ele.

“Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos”.

É Deus, a infinita Misericórdia e Bondade, que, na plenitude dos tempos, nasce de uma Virgem Santíssima, encarnando-Se e vivendo entre os homens, realizando toda espécie de milagres e grandes sinais entre o povo, a fim de fazê-los retornar à morada de Seu divino Coração.

“[Disse o pai aos empregados]: ‘Trazei-me depressa a melhor túnica para vestir o meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’”.

O que mereceu este filho para receber tamanha predileção e benquerença por parte de seu pai, a ponto de recompensá-lo com tantos bens? Nada! Foi o imenso amor e compaixão dele que passou por cima de todos os erros e pecados que o jovem rapaz tivera a desgraça de cometer, aceitando-o novamente em seu lar como um filho que sempre tivesse permanecido fiel.

Uma lição para nós

Esta é apenas uma pálida imagem de como Deus Nosso Senhor agiu e age conosco. Redimiu-nos, imolando-Se por nós no alto de uma Cruz, após padecer os mais atrozes sofrimentos, evidenciando assim um amor que nenhum pai terreno seria capaz de demonstrá-lo.

Abriu-nos as portas do Paraíso Celeste e derramou sobre nós uma chuva de abundantíssimas e copiosas graças de conversão e de santificação; libertou-nos do sedutor do poder das trevas; devolveu-nos a dignidade de filhos com o santo Batismo; e restaura constantemente nossa natureza com o alimento da Eucaristia, na qual Ele se digna vir até a morada de nossa alma, habitando sacramentalmente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Porém, qual a única exigência de Deus para conosco? O seu único pedido é este: despojarmo-nos da condição de velho homem, manchado pela lama do pecado, declinando nossas misérias no confessionário, onde Ele aguarda ansiosamente à nossa espera, de braços abertos, almejando com divina avidez o nosso retorno para junto de Si.

Sem dúvida alguma, se nos humilharmos diante d’Ele, passando a trilhar uma vida santa e conforme os seus mandamentos, realmente Ele nos abraçará e nos receberá na morada de Seu Coração, absolvendo-nos de nossos pecados. Revestir-nos-á com os preciosos tecidos da reconciliação, as sandálias das virtudes e o anel de filhos de Deus.

Por Guilherme Motta

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