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A mulher perdoada, Jonas ou o dilúvio?

Uma guerra e outras tantas catástrofes pelas quais podemos passar são, às vezes, não só um ato de justiça, mas também de misericórdia da parte de Deus.

 

Redação (03/04/2022 10:06, Gaudium Press) Quem lê com piedade os Evangelhos, tem uma pálida ideia de quanto infinita é a misericórdia Divina. Durante toda a vida de Nosso Senhor, não vemos um ato que não seja feito pela salvação dos homens e por amor a eles. Ainda na semana passada, contemplávamos a belíssima e comovente parábola do filho pródigo, capaz de infundir confiança nos pecadores mais empedernidos. Mas, esta mesma bondade posta em parábola, neste Domingo, se nos manifesta na pessoa de Jesus.

 Ódio pela bondade

Se é verdade que “é belo durante a noite acreditar na luz”,[1] com mais razão ainda a bondade infinita de Nosso Senhor torna-se mais resplandecente quando colocada em contraste com o ódio e a malícia dos maus. É o que vemos no Evangelho de hoje.

Os fariseus, querendo armar uma cilada a Nosso Senhor, levam-lhe uma mulher que foi surprreendida em flagrante adultério. Eles conheciam a bondade de Jesus, sabiam que Ele se mostraria indulgente para com a culpada; mas eles tinham ódio a esta bondade, e queriam poder acusá-lo de violar Lei Divina.[2]

Aliás, é de se perguntar se este caso não foi montado pelos fariseus somente para condenar a Nosso Senhor. Onde estava, por exemplo, o adúltero – o infrator? Não teria sido ele um cúmplice dos fariseus para armar uma cilada contra Nosso Senhor? A própria expressão “apanhada em adultério”, utilizada pelos fariseus, confere ainda mais substância à hipótese de um crime planejado por várias pessoas.

De um modo ou de outro, a bondade infinita de Nosso Senhor reluz no final do Evangelho: “Eu também não te condeno. Podes ir e, de agora em diante, não peques mais” (Jo 8, 1). Muito mais do que uma cena armada pelos fariseus, este fato foi conhecido por Deus desde toda a eternidade, e permitido por Ele a fim de que servisse de lição para toda a humanidade.

Justiça ou misericórdia?

A primeira leitura de hoje nos diz: “Este povo, Eu o criei para mim e Ele cantará os meus louvores” (Is 43,21). Nós fomos criados para amar, servir e glorificar a Deus. Mas, quantas vezes os homens não têm se afastado de Deus para escolher o caminho do pecado, ignorando a finalidade para a qual foram criados!

E Deus, o que faz? Fica de braços cruzados? Seria blasfemo pensar assim…

Ele não vê a hora de poder ter novamente a humanidade em seu coração e, para isso, muias vezes nos manda a dor e o sofrimento.

Uma guerra e outras tantas catástrofes pelas quais passamos são, às vezes, não um ato de justiça, mas de misericórdia. Deus não quereria a guerra, mas a permite para que muitas almas, antes desviadas pelos pecados, se voltem a Ele inteiramente convertidas.

Na Ucrânia, por exemplo, grande quantidade de pessoas estão se convertendo, pedindo o batismo, a primeira Comunhão, procurando regularizar a vida matrimonial, apesar da triste situação de que temos notícia. Isso nos faz lembrar a narrativa do dilúvio, quando a incalculável enchente acabou sendo a causa da salvação de muitíssimas almas…

Mas, como Deus é “bom compassivo e clemente” (Jl 2,13), nunca envia castigos à humanidade sem adverti-la. Deus assim procede esperando uma conversão sem necessidade de um castigo, como aconteceu com os ninivitas ao ouvirem a pregação do profeta Jonas.

Antigamente, Deus fazia estas advertências por meio dos profetas; mas é tão infinito o seu empenho em nos salvar que, em nossos dias, Ele nos fala por meio de sua Mãe Santíssima: La Salette e Fátima são exemplos característicos.

Conversão: agora ou depois?

E qual a relação com a mulher adúltera?

“Eu também não te condeno. Podes ir e, de agora em diante, não peques mais. (Jo 8,11).

Ela estava a ponto de ser lapidada e, neste último momento, Jesus desejava perdoá-la, contanto ela não mais tornasse a pecar.

E a humanidade de nossos dias? Não se encontra a ponto de ser castigada pelas mãos de Deus? Contudo, o Deus das misericórdias está nos estendendo a mão para nos perdoar, desde que estejamos dispostos a uma mudança de vida.

A situação atual ainda não nos atingiu em grande escala. Mas talvez não tarde muito… Acaso esperaremos que o castigo toque na nossa pele para nos arrependermos e nos convertermos, ou vamos aproveitar a oportunidade que Nosso Senhor nos dá para não sermos pegos de surpresa? Se procedermos assim, poderemos cantar com o salmista de hoje:

“Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria” (Sl 125,3)

Estaremos, pois, em condições de aguardar jubilosos o triunfo do Imaculado Coração de Maria, se assim procedermos.

A escolha é nossa. Em todo caso, é preferível mudar de vida pela pregação de Jonas do que pelas águas do dilúvio.

Por Lucas Resende


[1] ROSTAND, Edmond. Chanteclair. Paris: L’avant-Scène, 1994, p.45.

[2] Cf. FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública. Madrid:Rialp, 2000, v.II, p.347.

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