A lição da fumaça
Quantas vezes avistamos a fumaça dos problemas, dos conflitos ou das falsas urgências e, tomados por uma teimosa ousadia, caminhamos diretamente em sua direção?

Foto: Sandie Peters/ Unsplash
Redação (22/08/2026 09:01, Gaudium Press) De tempos em tempos, a vida nos convida a redefinir o compasso dos nossos dias. Há alguns meses, tomei a decisão de deixar para trás a agitação da cidade grande, o barulho constante que me incomodava e a poluição que sufocava o pensamento. Vim morar no interior, integrando uma pequena comunidade de amigos que, como eu, avançam na idade cultivando a leitura, a oração, as hortaliças, as flores e os frutos. É um lugar onde, finalmente, podemos pisar no chão e sentir a força da terra, erguendo os olhos para um céu azul que nos devolve a paz de espírito.
Confesso que, no início, a agitação urbana demorou a sair de dentro de mim. O silêncio do campo parecia denso demais. Mas, aos poucos, fui me habituando. Hoje, o que rompe a calmaria é apenas o canto do galo ao amanhecer, o eco distante de algum cão ou o pesado bater de asas dos dois tucanos que escolheram uma árvore do nosso quintal como morada.
Tomei por lema, desde a juventude, a célebre máxima de São Bento: Ora et labora (reza e trabalha). Trabalhei os anos necessários, nutri afetos e construí uma boa família. Mas, no ocaso da vida, percebi que a correria já não fazia sentido. Por isso, parti para esta última e bela aventura no campo, onde aprendi a silenciar o mundo para escutar o essencial.
O Rosário na estrada e o desvio imprevisto
Entre os hábitos que cultivamos na comunidade, destaca-se a nossa caminhada matinal. Caminhamos conversando pouco, pois o silêncio da paisagem nos convida à introspecção. Quase sem combinar, tornei por hábito sair com meu terço no bolso; logo percebi que outros colegas faziam o mesmo. Assim, em nossas manhãs, quase não falamos uns com os outros, mas caminhamos juntos falando com Deus e com Nossa Senhora, recitando o Rosário.
Seguimos sempre por uma velha estrada de terra batida, ladeada por vegetação rica e montanhas distantes onde o sol nasce majestoso. Temos o cuidado de retornar antes que a estrada comece a descer de forma muito íngreme, pois a sabedoria da idade nos ensina que descer é fácil, mas a subida de volta exige um fôlego que já não temos.
Numa dessas manhãs, contudo, o destino traçou uma curva diferente. Avistamos uma grande fumaça logo adiante e começamos a sentir o cheiro acre que impregnava o ar, provocando tosses e espirros. Compreendemos que insistir seria imprudente: não sabíamos a extensão do foco de incêndio, e atravessar paredes de fumaça asfixiante é um risco desnecessário que maltrata os olhos e os pulmões.
Decidimos voltar, mas ainda tínhamos um bom tempo de caminhada habitual. Alguém sugeriu, então, mudarmos totalmente a rota.
O mata-burro e a clareira secreta
Como a estrada principal estava movimentada com o trânsito de carros, tratores e ônibus, dobramos à esquerda por uma vereda secundária até darmos de frente com um “mata-burro” — estrutura rústica feita de vigas de madeira espaçadas sobre uma vala, muito comum nas zonas rurais para impedir que o gado e os cavalos passem de uma cerca para outra, permitindo apenas a travessia de pedestres e veículos.
Atravessamos o mata-burro e nos deparamos com uma entrada sem porteira que se abria para um gramado amplo e verdejante, circundado por árvores nativas como uma verdadeira clareira secreta. Ali no meio, uma cena inusitada: um poste com fiação elétrica, embora sem lâmpada ainda, um poço artesiano, uma caixa d’água e alguns esteios de eucalipto tratado, empilhados no chão, prenunciando a futura construção de uma casa.
Porém o detalhe mais comovente estava instalado estrategicamente ali: um grande banco feito de uma pedra rosada, colocado exatamente no centro daquele ermo providencial. Como se tivesse sido posto à nossa espera, o banco acomodou a todos nós. Sentamo-nos em silêncio para contemplar as colinas suaves, as árvores e as montanhas azuladas no horizonte, cujos segredos ficam escondidos logo atrás de seus cumes.
A lição da fumaça e a graça do caminho
Olhando para aquela paisagem indescritível que se descortinou diante de nós de forma tão inesperada, fiz uma reflexão profunda sobre a própria vida. Quantas vezes avistamos a “fumaça” dos problemas, dos conflitos ou das falsas urgências e, tomados por uma teimosa ousadia, caminhamos diretamente em sua direção? Queremos enfrentar o fogo a todo custo, acabando por nos queimar, nos chamuscar e nos sufocar com a fumaça da vaidade e da ansiedade, quando a sabedoria exigiria prudência e recuo.
Ao contrário disso, o fogo evitado — ou a fumaça que nos força a mudar a rota — pode nos conduzir a um verdadeiro paraíso de paz, exatamente como aquele recanto que descobrimos naquela manhã piedosa.
A vida é frequentemente assim. Desdobramo-nos em mil esforços, lutas e batalhas estéreis que não nos levam a lugar nenhum, enquanto as verdadeiras respostas, os encantos genuínos e a paz de espírito estão muito mais perto do que imaginamos, esperando apenas que tenhamos a humildade de dar meia-volta e seguir o caminho da serenidade.
Hoje, aquela vereda descoberta por causa da fumaça transformou-se em nossa rota predileta. E percebo que, mesmo no ocaso da existência, Deus ainda nos reserva paisagens capazes de renovar a nossa esperança na Terra, dando-nos uma pequena amostra da beleza que um dia encontraremos no Paraíso Celestial.
Por Afonso Pessoa




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