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A infalibilidade do sucessor de Pedro e a falibilidade do filho de Adão

Embora o Papa goze da infalibilidade, em assuntos específicos, sua condição de filho de Adão, por outro lado, longe de ser uma carência que empana a santidade da Igreja, confirma sua origem divina.

Redação (08/05/2022 08:28, Gaudium Press) “Eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. (Mt 16,18-19) Assim respondeu o Divino Mestre ao Apóstolo Pedro quando este exprimiu sua fé no “Cristo, o Filho do Deus Vivo”. (Mt 16,16)

E, posteriormente, durante a última ceia, diria Jesus ao filho de Jonas: “Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; quando estiveres convertido, confirma os teus irmãos”. (Mt 22,32)

À luz destas afirmações, e em uníssono com a Tradição, no ano de 1870, em sua encíclica Pastor Aeternus, Pio IX proclamou o dogma da Infalibilidade Pontifícia. Sem dúvida, um duro golpe na cabeça daqueles que desejavam uma Igreja acéfala e, por outro lado, uma Igreja colegial.

Tal definição, contudo, é muitas vezes objeto de confusão por parte daqueles que a desconhecem em seu cerne, não obstante sejam católicos respeitosos e obedientes.

Quando o Papa é infalível?

Assim afirma o texto deste documento:

“O Romano Pontífice, quando fala ex cathedra – isto é, quando, no desempenho do múnus de pastor e doutor de todos os cristãos, define com sua suprema autoridade apostólica que determinada doutrina referente à fé e à moral deve ser sustentada por toda a Igreja –, em virtude da assistência divina prometida a ele na pessoa do bem-aventurado Pedro, goza daquela infalibilidade com a qual o Redentor quis estivesse munida a sua Igreja quando deve definir alguma doutrina referente à fé e aos costumes; e que, portanto, tais declarações do Romano Pontífice são, por si mesmas, e não apenas em virtude do consenso da Igreja, irreformáveis”.[1]

Portanto, esta infalibilidade apenas existe em tais casos. Nos demais, embora os fiéis devam respeito e submissão à sã doutrina ensinada pelo Romano Pontífice, devem estar cientes de que o homem que ocupa esta ínclita posição pode ser falho – como o são todos os filhos de Adão – e que tais erros não atentam em nada contra a infalibilidade papal, mas apenas confirmam a assistência Divina nas definições solenes.

Neste sentido, assim se exprimiram os bispos suíços, numa pastoral coletiva aprovada por Pio IX, apenas um ano após a definição dogmática: “O Papa não é infalível nem como homem, nem como sábio, nem como sacerdote, nem como bispo, nem como príncipe temporal, nem como juiz, nem como legislador. Não é infalível nem impecável na sua vida e procedimento, nas suas vistas políticas, nas suas relações com os príncipes, nem mesmo no governo da Igreja. É única e exclusivamente infalível quando, como Doutor supremo da Igreja, pronuncia em matéria de fé ou de costumes uma decisão que deve ser aceita e tida como obrigatória por todos os fiéis”.[2]

Claro está que conhecer isso não deve ser, de modo algum, um incentivo para insubordinação à autoridade eclesiástica; mas muito pelo contrário, promoção da clareza de conceitos que deve nortear a vida do cristão, para que não sejam confundidas as mentes.

E um bispo?

Quanto ao bispo, a questão é ainda mais matizada.

Com efeito, muitos há que julgam ser privilégio de um bispo gozar da infalibilidade tal como o papa. Mas isso é um engano.

Sendo o guardião da fé, é, de fato, dever do bispo ensinar a doutrina ortodoxa, e fazê-la crer e praticar por suas ovelhas. Contudo, enquanto pastor privado, o bispo não goza de infalibilidade e, como tal, não pode definir questões ainda abertas na teologia, nem contrariar as decisões já definidas.[3]

Quando reunidos em um concílio ecumênico, então sim, tendo o consentimento do Papa, os bispos podem definir questões teológicas em aberto. Isso é assim, pois cada bispo não é o sucessor direto de um Apóstolo – como o papa é de São Pedro – mas são os sucessores do Colégio Apostólico.[4] Portanto, o privilégio apostólico de interpretar fielmente a revelação só lhes é concedido no momento da reunião deste mesmo Colégio.

Tendo claros os conceitos, é dever de todo fiel ser submisso aos seus pastores. A revolta não está em conformidade com o catolicismo.

Mas também é bom lembrar que Judas, Apolinário, Nestório e muitas outras figuras controversas também gozaram da unção episcopal.

Por Thiago Resende


[1] DH 3074.

[2] FRANCA, Leonel. A Igreja, a Reforma e a Civilização. Rio de Janeiro: Agir Editora, 1958, p. 154.

[3] Cf. DThC. Évèques, p. 1712.

[4] Cf. BOULENGER, A. Manual de Apologética. Porto: Apóstolo da Imprensa, 1950, 2 ed., p. 407.

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