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A igreja em ruínas: Deus manda, Francisco reforma

As palavras e as atitudes do Poverello foram objeto de escândalo para toda a sociedade ocidental, dando o que falar nos círculos católicos. É um louco ou um modelo de espiritualidade?

Redação (29/03/2021 12:28, Gaudium Press) A figura Franciscana surge aos olhos da sociedade moderna como modelo de amor aos pobres e desvelo pelos mais necessitados. Como a lembrança venerável de Francisco de Assis atravessou os séculos como digna de veneração?

Francisco se põe a reformar

Contam os anais de sua memória que certo dia estava Francisco rezando no  interior da igreja de São Damião, localizada em Assis, quando repentinamente ouviu a voz de Deus que lhe mandava restaurar aquele templo. O mencionado local de oração estava em ruínas, pois havia muito que sua penumbra – motivo de atração para o jovem missionário de Assis – afastava e repelia os fiéis, justamente por não trazer ao lugar a pompa estimada naqueles tempos, mas a sobriedade.

 Logo que ouviu estas palavras o Poverello transformou seu “sonho” em realidade. Vendeu tudo que possuía e inclusive os bens que não lhe pertenciam, dentre os quais os de seu pai Pedro Bernardone, a fim de alcançar os meios necessários para a obra à qual se dedicara: cavalos, tecidos, ferramentas e outros pertences.

Mas há aí uma pequena lacuna no espírito arrojado e incipiente do jovem Francisco. Na perspectiva do “pequeno reformador de igrejas” tudo quanto estava realizando não era nada senão o cumprimento mais estrito de seu dever enquanto servo de Deus. Uma certeza que, a seus olhos, dava-lhe o poder de fazer tudo quanto fosse necessário para cumprir seu fim.

Mas o pai não compreendeu a atitude de seu filho. Aquilo que Francisco realizara feriu profundamente o que mais significava a seu progenitor: o bolso. Tomado de ira, logo trancafiou seu filho num calabouço por um período indeterminado. Passavam-se os dias e Francisco não tendo esperanças neste mundo, colocava-as todas em Deus.

Após certo período de cativeiro, Pedro levou seu filho diante de um prelado a fim de que suas atitudes fossem julgadas pelo único poder ao qual Francisco estava disposto a se submeter.

E eis que uma surpresa abalou o espírito mundano e ambicioso do Sr. Bernardone: após exortar o jovem contra o erro que havia cometido, o ministro de Deus concedeu-lhe a bênção e todo o aval à sua atitude de obediência a Deus e desapego dos bens terrenos. Ao ouvir estas palavras, o santo despojou-se de suas vestes em sinal de desvinculação de suas riquezas e dotes familiares, e disse: “Já não sou mais filho de Pedro Bernardone, mas servo de Deus”. E saiu a reformar com suas próprias mãos a igreja de São Damião.

Para alguns poderia parecer estranho que Deus mandasse rebocar fissuras de paredes a alguém tomado pelo desejo de grandes contemplações, no entanto, esse não era um problema para aquele que não tinha em sua alma as fissuras da ganância. Seu espírito contemplativo sabia remeter e aplicar seus amores transcendentais às obras materiais. O desejo de cumprir a vontade de Deus o levou a bater de casa em casa, não à procura de quem lhe desse pão, mas de quem lhe desse pedras.

Loucura ou sensatez?

O que as pessoas de seu tempo devem ter pensado ao ver um jovem abastado deixar tudo quanto possuía, todo o luxo da casa paterna, unicamente por ter ouvido uma voz que o exortava a deixar sua vida burguesa para trabalhar como pedreiro numa igreja maltratada?

Ele foi tido verdadeiramente como louco, por viver em contradição com as máximas de seu tempo, e foi unicamente por isso que arrastou atrás de si multidões que o seguiram apaixonadamente em seus costumes.

Apesar de as pessoas de seu tempo o terem tachado de louco, São Francisco sempre guardou em seu espírito a frase do Apóstolo: “o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens” (Cor 1,25).

Por Gustavo Balieiro

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