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A grande surpresa de nossa vida

Devemos ter sempre diante dos olhos o fim último para o qual fomos criados e a estarmos preparados para o encontro com o Supremo Juiz. Para tal é indispensável a prática de uma virtude muitas vezes esquecida ou menosprezada: a vigilância.

Redação (28/08/2020 11:02, Gaudium Press) Ao contemplar a natureza, seja no campo aberto, ou no interior de uma floresta, chamam-nos a atenção certos aspectos, dos quais podemos haurir uma lição para nossa vida espiritual. Vemos, por exemplo, o voo de um pássaro levando no bico um graveto a fim de construir o ninho para colocar os ovos e perpetuar sua espécie. Aquilo é feito com a precisão de um marceneiro ― apenas por instinto e não por ter inteligência ―, uma verdadeira obra de arte.

Imaginemos, então, que essa ave recebesse uma alma, não como o principium vitæ que vegetais e animais têm, mas uma alma imortal como a do homem, que subsiste mesmo quando separada do corpo pela morte. Em tal caso, caberia ao pássaro considerar mais valioso o ninho que ele está armando ou a existência eterna de sua nova alma? A segunda opção é evidente. Sem deixar de fazer o ninho, ele deveria concentrar a primeira preocupação no seu destino sempiterno.

Ora, Deus dotou o homem desta alma imortal. A morte atinge apenas a parte animal da natureza humana, o corpo, o qual ainda ressuscitará. Por conseguinte, o homem tem obrigação de dar mais importância à alma que ao corpo, tudo fazendo com vistas à eternidade, sem, no entanto, descuidar do que é transitório, sem deixar de trabalhar, de ordenar o lar, de educar os filhos, caso siga a via matrimonial, ou de cumprir outras obrigações se abraçou a via religiosa.

Não obstante, muitas vezes ocorre uma tragédia: o homem volta-se exageradamente para as coisas concretas e se esquece do que advirá após sua morte e no Juízo Universal.

A necessidade de estarmos vigilantes

É no desejo ardente do Céu e fixando nossos olhos no fim do mundo e na eternidade que teremos forças para praticar a virtude e realizar boas obras.

Em tempo de guerra, se uma sentinela dorme no posto a corte marcial a sujeitará a penas severas por ter abandonado sua obrigação; todos nós somos sentinelas numa guerra muito mais grave do que a defesa da pátria terrena. São Pedro diz que o demônio ronda em torno de nós como um leão, querendo nos devorar (cf. I Pd 5, 8). Constantemente nos vemos cercados de perigos e, se queremos salvar nossa alma, é preciso estar sempre em estado de alerta, sermos vigilantes.

O inesperado da morte e do juízo particular

Há pessoas amantes da estabilidade e da segurança que se afligem e têm verdadeiro pânico de imprevistos. São aqueles que gostam de calcular tudo, não só para o dia seguinte, como para a semana e o mês subsequente. Em certos casos até marcam as viagens na agenda com três anos de antecedência, planejando e delineando os menores detalhes.

Haverá uma viagem, entretanto, face à qual temos a tendência de não nos preocuparmos em fazer nenhum programa. De fato, para empreendê-la não precisamos verificar a validade do passaporte, nem arrumar as malas ou providenciar algum material, pois ela é sui generis e dá-se de surpresa: a morte.

Nossa propensão natural é acreditar que estamos nesta Terra seguros e para sempre, e, em consequência, ignorar que aqui vivemos em estado de prova, para sermos analisados por Deus e recebermos o prêmio ou o castigo segundo nossas obras, conceitos estes que também nos são alheios.

Por que Deus age assim com o homem?

Alguém poderia perguntar se da parte Deus não seria mais afetuoso e mais bondoso que, logo ao nascer, o bebê já trouxesse no braço uma tatuagem divina gravada pelo Anjo da Guarda com a data do seu falecimento. Desta forma, os pais e parentes saberiam quantos anos a criança iria viver. E esta, ao adquirir o uso da razão, questionaria a mãe sobre o significado daquela marca, obtendo decerto esta resposta: “Meu filhinho, ela indica o quanto você vai durar”…

Tal notícia não ajudaria a melhor nos prepararmos para a hora da morte? Não! Dada a miséria humana, fruto do pecado original, se alguém soubesse o instante exato de sua morte, julgaria ter tempo de sobra para gozar e se entregaria a uma vida péssima, completamente relaxada e negligente. No último dia, à última hora, procuraria um sacerdote que lhe administrasse os Sacramentos, expondo-se ao grave risco de não recebê-los…

E ato contínuo, depois do drama da morte, viria a surpresa do juízo particular e da sentença inapelável de Deus!

Será castigado aquele que, esquecendo seu destino eterno, dirige todos os seus atos como se Deus não existisse. Pelo contrário, será “levado” para o Céu quem tem noção clara de que a vida é passageira e sua finalidade não se cumpre nesta Terra, mas na eternidade.

Assim sendo, Deus, que em tudo age de maneira perfeitíssima, não nos avisa a hora da morte para nos impelir a praticar com maior mérito e eficácia a virtude da vigilância.

Vigilância: a morte chega como um ladrão

Quanta gente há, todavia, que se ilude considerando ser eterna esta vida! Quantos há, de mentalidade relativista, que pensam: “Agora eu vou pecar, depois me confesso”… É uma verdadeira loucura, pois Deus pode dizer: “Basta!”. E a morte pode nos surpreender no instante exato em que O estamos ofendendo.

Por esta razão devemos estar sempre preparados para a hora do supremo encontro com o Senhor. Tal vigilância consiste, antes de tudo, em evitar o pecado, a respeito do qual tão pouco se fala hoje e que, infelizmente, com tanta frequência se comete.

O mundo vive afundado no vício: são modas sem modéstia, costumes decadentes e imorais, conversas indecentes, programas de televisão licenciosos, certos cartazes e revistas…

Sabemos, pela moral católica, que quem se aproxima de uma ocasião próxima de pecado, consciente e voluntariamente, já de si perdeu a graça de Deus, porque está se pondo em risco com temeridade. Assim o explica o padre Royo Marín: “Aquele que permanece, com conhecimento e sem motivo suficiente, em ocasião próxima e voluntária de pecado grave mostra bem claro que não tem vontade séria de evitar o pecado, no qual cairá de fato facilmente. E isto constitui, de si, uma grave ofensa a Deus, contínua e permanente, da qual o pecador não se libertará até que decida com eficácia romper com aquela ocasião”.

A verdadeira vigilância, pois, é indispensável para a salvação e antecede até a própria oração, levando-nos a fechar o coração ao pecado e a dele nos afastar, de maneira a não nos entregarmos sequer à menor ofensa a Deus.

A morte dos bem-aventurados

Com o passar do tempo, o homem tende a perder suas forças e energias. Basta cruzar os umbrais dos quarenta, cinquenta ou sessenta anos, e experimentar os achaques que não encontram cura em remédio algum, ou sentir que a vista está se enfraquecendo, para que ele se lembre de que é preciso preparar-se para deixar este mundo.

Quando lemos na vida dos bem-aventurados a narração dos seus últimos haustos, nos surpreende a paz e a alegria que eles mostraram diante da morte. Por quê? Porque foram vigilantes e souberam perceber que estava chegando o dia da sua partida.

Santa Teresa de Ávila, por exemplo, no seu leito de dor, dava “muitas graças a Deus por ter sido filha da Igreja e nela morrer. […] Voltou a pedir ainda o perdão de seus pecados, suplicou às Irmãs que rezassem por ela e cumprissem a Regra. […] Às nove da noite exalou o último suspiro, tão suavemente que foi difícil dizer o momento exato. O rosto mantinha-se gloriosamente jovem e belo”.

São João Bosco, pouco antes de morrer, pôde “enviar sua derradeira mensagem a seus jovens: ‘Dizei aos meus biricchini que os espero a todos no Céu. E que com a devoção a Maria Auxiliadora e a comunhão frequente, todos lá chegarão’. […] À uma e quarenta e cinco [da madrugada] do dia 31 de janeiro [de 1888], começa a agonia. […] Dom Cagliero, de joelhos, aproxima os lábios do ouvido do moribundo: ‘Dom Bosco, seus filhos estamos aqui, abençoe-nos. Eu lhe levantarei a mão’. Ergue-lhe, com efeito, a mão direita paralisada e o ajuda a traçar a Cruz no ar; a última bênção, acompanhada pelo último inefável sorriso de Dom Bosco”, que pouco depois entregou sua alma a Deus.

Devemos estar preparados para as intervenções de Deus

É muito importante ressaltar que, em relação ao governo de Deus sobre os acontecimentos humanos, a vigilância nos deve conduzir a esperar com alegria e avidez o triunfo espetacular do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria, a chegada desse período extraordinário da História anunciado por Nossa Senhora em Fátima, “esse tempo feliz e esse século de Maria, no qual inúmeras almas escolhidas e obtidas do Altíssimo por meio d’Ela, perdendo-se a si mesmas no abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo”.

Portanto, preparemos nossas almas para um panorama grandioso: aquele em que Deus intervirá a fim de conceder a Nossa Senhora, nesta Terra, a glória que o Pai, o Filho e o Espírito Santo Lhe dão no Céu.

O triunfo do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria

Na expectativa dessa vitória da Santa Igreja, permaneçamos vigilantes! Vigiar significa nunca ceder a nada que o demônio possa nos propor. Vigiar significa estar atento, com os olhos abertos, analisando bem de onde vêm os perigos. Vigiar significa arrancar energicamente, sem contemporizações, qualquer raiz de pecado que haja em nós.

Tudo o que implica risco para a salvação eterna e para a nossa santificação deve ser cortado, fazendo todo o esforço para perseverar no caminho da perfeição, com vistas a não atrasar o dia magnífico em que Maria Santíssima dirá: “O meu Imaculado Coração triunfou!”.

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

Texto extraído, com adaptações, do livro O inédito sobre os Evangelhos,  volume I.

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