Gaudium news > A grande fome 1932-33 na Ucrânia: uma realidade sombria que a U.R.S.S. causou e tentou ocultar

A grande fome 1932-33 na Ucrânia: uma realidade sombria que a U.R.S.S. causou e tentou ocultar

Expressões como “ucraniofobia de Stalin” e “genocídio do povo ucraniano” foram cunhadas para se referir ao episódio que causou a morte de seis milhões de pessoas na Ucrânia, no Cazaquistão e no Cáucaso do Norte; capítulo pouco comentado da história soviética.

Redação (21/04/2022 14:57, Gaudium Press) Há três anos, a 21 de abril de 2019, Volodymyr Zelensky tomava posse como sexto presidente da Ucrânia.

Ao tomar contato com essa informação, veio-me imediatamente à mente a sugestiva epigrama que circulava pelas ruas da Cidade Eterna durante os conturbados pontificados de Alexandre e Pio VI: “Sextus Tarquinius, sextus Nero, sextus et iste. Semper sub sextis perdita Roma fuit” – “Sexto era Tarquínio, sexto era Nero, e este também é sexto! Sempre foi sob um sexto que Roma se perdeu”… Enfim, ainda é muito cedo para dizer se a Ucrânia seguirá Roma nesta peculiar coincidência.

Mas, sem dúvida, é sob Zelensky que esta nação tem presenciado um dos capítulos mais sombrios de sua história.

Digo um dos mais sombrios, e não o mais sombrio, propositadamente.

Temos acompanhado, há quase dois meses, as cenas de horror que se desenrolam em território ucraniano, em meio às inclemências de uma guerra atroz. Engana-se, porém, quem pensa que esta é a primeira vez que a Ucrânia sofre uma calamidade de tão grande extensão: há 90 anos, o regime comunista na União Soviética foi responsável pela morte de milhões de pessoas sobre este mesmo solo.

A meta comunista, irreal e desumana leva ao conflito

“Atravessei a Ucrânia, afirmo-lhes que a vi tal qual um jardim em plena floração.”[1] – Escreveu Édouard Herriot, deputado francês e líder do Partido Radical, no verão de 1933, em sua viagem à União Soviética. Afirmava ter visto jardins em plena floração e colheitas admiráveis. Testemunho, entretanto, falso, solicitado pela U.R.S.S. para esconder uma enorme farsa em torno da real e dramática situação dos camponeses.

No então Estado soviético, os campos tinham sido, à força e contragosto dos camponeses, coletivizados. Conjuntos formados de camponeses sob a direção de chefes comunistas – os kolkhozes –tinham obrigação de fornecer uma quantidade determinada, e cada vez maior, de produtos agrícolas ao Estado: em 1930, por exemplo, 30% de toda a produção dos campos da Ucrânia foram encaminhados ao governo; e, no ano seguinte, – para uma colheita inferior – a quantidade atingiu os 41,5%. Ora, os camponeses somente podiam comercializar 15% a 20% de sua colheita, pois reservariam 12% a 15% para o plantio, 20% a 30% para o gado e o restante para seu próprio consumo. E, para piorar, em 1932, o plano da coleta deveria ser 32% superior ao do último ano… Meta irreal, que não podia ter outro resultado senão o conflito.

“De 78 condenados, 48 tinham menos de dez anos”

A coleta estatal de 1932 na Ucrânia e no Cáucaso do Norte começou mais lenta que a habitual; é que os camponeses passaram a esconder, ou até “roubar” partes da colheita durante a noite.

Instalou-se, então, um verdadeiro clima de guerra. O governo central teve de enviar tropas, recrutadas entre comunistas e komsomols – membros de uma organização soviética encarregada de formar os jovens segundo as máximas do comunismo, que contava, em sua totalidade, com 35 milhões de jovens entre 14 e 28 anos – para tomar os cereais “roubados” à força.

Seguiu-se a repressão: muitos camponeses foram deportados, multados e enviados às prisões. Eis o que escreveu um instrutor do Comitê Executivo Central:

“A prisão de Balachevo contém cinco vezes mais pessoas do que o previsto e, em Elan, há 610 pessoas na pequena prisão do distrito. Durante o mês passado, a prisão de Balachevo ‘devolveu’ a Elan 78 condenados, sendo que 48 tinham menos de dez anos”.[2]

Nem essas atitudes surtiram, entretanto, os resultados esperados; por isso, em 7 de agosto de 1932, foi promulgada uma lei que previa condenação de dez anos em campo de concentração ou pena capital a “todo roubo ou dilapidação da propriedade socialista”. Esta ficou conhecida como “lei das espigas”, pois os condenados eram mais frequentemente aqueles que tinham “roubado” apenas algumas espigas de trigo ou centeio.

Mas, ainda assim, o trigo esperado pelo Estado não apareceu. Então o governo decidiu aumentar as exigências e punições contra os “sabotadores”, numa tentativa visivelmente infrutífera, ironicamente semelhante à daquele Faraó dos tempos de Moisés, que ordenou ao povo Hebreu que fornecesse, sem subsídios para o trabalho, a mesma quantidade de tijolos que fornecia quando os possuíam. (Cf. Ex 5,10-18).

As exigências do Estado conduzem ao morticínio em massa

Nos Kolkhoses, onde a produção havia sido mais deficiente, foram retirados todos os produtos das lojas, reembolsados todos os créditos correntes, presos todos os “sabotadores” e “contrarrevolucionários”; caso continuasse a “sabotagem”, a população estava ameaçada a uma deportação em massa.

Ora, nesse ínterim, chegavam a Moscou relatórios que indicavam o grave risco de fome para o inverno de 1932-33, mesmo em regiões onde a coleta fora razoável e até excelente. Até os stalinistas mais enragés pediam a Stalin que a coleta estatal fosse diminuída: “devemos considerar – escreveu Khataievitch a Molotov – as necessidades mínimas dos kolkhozianos, na ausência dos quais não haverá ninguém para semear”.[3]

Mas, para os chefes comunistas, as necessidades do Estado não podiam ser postas em segundo lugar. Assim, até as pequenas reservas dos camponeses tiveram de ser entregues para que a meta fosse completada, e isso mediante ameaças ou mesmo torturas.

Seguiu-se, irremediavelmente, a fome, até mesmo nas regiões agrícolas mais ricas da União Soviética; e, para evitar o previsível êxodo rural, foi impedida a passagem de qualquer camponês para as zonas urbanas. Assim afirmava uma circular:

O Comitê Geral e o governo têm provas de que esse êxodo em massa de camponeses é organizado pelos inimigos do poder soviético, os contrarrevolucionários e os agentes poloneses, com o objetivo de propaganda contra o sistema kolkhoziano em particular, e o poder soviético em geral.”[4]

Nas regiões atingidas pela fome, as passagens de trem foram suspensas e a polícia soviética passou a impedir, por barreiras, que os camponeses deixassem seus distritos.

O relato do então cônsul italiano de Kharkov deixa transparecer a situação de miséria em que o povo se encontrou:

Há uma semana, foi organizado um serviço para recolher as crianças abandonadas. Com efeito, além dos camponeses que se dirigem para as cidades por não terem mais nenhuma esperança de sobreviverem no campo, há crianças que foram trazidas aqui e depois abandonadas por seus pais, os quais retornam aos povoados para lá morrerem. Estes últimos esperam que na cidade alguém tomará conta de sua primogenitura. […] Há uma semana, foram mobilizados os dvorniki (zeladores de prédios) que com suas camisas brancas patrulham a cidade e levam as crianças aos postos de polícia mais próximos. […] Por volta da meia-noite, começa-se a transportá-los em caminhões para a estação ferroviária de cargas de Severo Donetz. É onde também são reunidas as crianças encontradas nas estações e nos trens, as famílias de camponeses, as pessoas idosas e sozinhas, recolhidas na cidade durante o dia. Há a presença de médicos […] que fazem a “seleção”. Os que ainda não estão inchados e têm alguma chance de sobrevivência são conduzidos aos acampamentos de Holodnaia Gora, onde, em celeiros e sobre a palha, agoniza uma população de cerca de 8.000 almas, composta principalmente por crianças. […] As pessoas inchadas são transportadas em trens de carga e abandonadas a 50-60 quilômetros da cidade para que elas morram sem que ninguém as veja. […] Na chegada aos locais de descarga, cavam-se grandes fossas e os mortos são retirados dos vagões.”[5]

O número de mortos atinge uma cifra inimaginável

Na primavera de 1933, o índice de mortalidade atingiu seu auge. Só em Kharkov, uma média de 250 cadáveres eram recolhidos todos os dias, sendo que muitos não possuíam mais o fígado, pois os casos de canibalismo passaram a ser frequentes.

A região atingida – chamada “zona de fome” – compreendia a totalidade da Ucrânia, onde foram registradas pelo menos quatro milhões de mortos; as planícies do Kuban e do Cáucaso do Norte, com um milhão de mortos; e uma parte grande do Cazaquistão, com a mesma cifra assustadora de mortalidade, um milhão de mortos.

Em abril de 1933, chegaram duas cartas do escritor Mikhail Cholokhov a Stalin, explicando com detalhes as formas pelas quais as autoridades haviam extorquido o alimento dos camponeses, e pedindo um urgente envio de víveres. Qual foi a resposta?

Stalin afirmou, sem mais, que a população estava sendo devidamente punida por ter feito “greve e sabotagem” contra o governo, e por ter praticado “uma guerra de trincheiras contra o poder soviético”.

No ano de 1933, enquanto camponeses morriam de fome, 18 milhões de quintais de trigo foram exportados pelo governo soviético para “atender as necessidades de industrialização”.

“Ucraniofobia”?

Alguns historiadores chegaram a falar de um “genocídio do povo ucraniano”[6] e até em uma “ucraniofobia de Stalin”, na expressão de Andrei Sakharov. Certo é que as zonas mais atingidas – terras ucranianas – foram as mesmas que ofereceram maior resistência à política de coletivização de 1929-30.

Os autores do “Livro Negro do Comunismo”, do qual extraímos as informações do presente artigo, estabelecem, de forma peculiar, uma ligação entre dois personagens históricos muito semelhantes em sua intolerância face aos “inimigos políticos”: “Robespierre colocou incontestavelmente a primeira pedra no caminho que mais tarde havia de conduzir Lenin ao terror. Pois foi ele próprio que afirmou, na Convenção, durante as votações das leis do Prairial: ‘Para punir os inimigos da Pátria, é suficiente saber a sua identidade. Não se trata de castigá-los, mas de destruí-los’”.[7]

Parece que os atuais inimigos da Ucrânia têm adotado, ao menos na prática, uma ideologia análoga.

Será que, desta vez, as semelhanças são apenas meras coincidências?

Por João Paulo de Oliveira


 

Informações e referências extraídas de: WERTH, Nicolas. Um estado contra o povo. Violência, repressão e terror na União Soviética. In: COURTOIS, Stéphane et al. Trad. Caio Meira. O Livro Negro do Comunismo. Crimes, terror e repressão. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 14 ed., 2018, p. 193-204.

[1] F. KUPFERMAN. Au pays des Soviets. Le voyage français en Union Soviétique, 1917-1939. Paris: Gallimard, 1979, p. 88.

[2] N. WERTH, G. MOULLEC. Rapports secrets soviétiques, 1921-1991. La société russe dans les documents confidentiels. Paris: Gallimard, 1995, p.152-155.

[3] N. IVNITSKI. Kollektivizatsia i raskoulacivanie. Moscou, 1994, p. 198-199.

[4] Ibid., p. 204.

[5] A. GRAZIOSI. Lettres de Kharkov. La famine en Ukraine et dans le Caucase du Nord à travers les rapports des diplomates italiens, 1932-1934. In: Cahiers du Monde Russe et soviétique. XXX (1-2), janvier-juin 1989, p. 59-60.

[6] S. MERL. Golod 1932-1933 – genotsid Ukraintsev dlia osuscestvlenia politiki russifikatsii? (A fome de 1932-1933 – um genocídio visando à russificação da Ucrânia?). Otecestvennaia Istoria, 1995, n. 1, p. 49-61.

[7] BAYNAC, Jacques. La terreur sous Lénine. Paris: Le Sagittaire, 1975, p. 75.

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