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A Eucaristia, mistério razoável

Submetendo nossa razão ao mistério incompreensível da Eucaristia, não o contradizemos, pelo contrário, fazemos um ato racional, o que é mais razoável do que crer no que Deus diz e no que a Igreja estabelece?

Foto: Cathopic/Juan Pablo Arias.

Redação (15/09/2022 10:48, Gaudium Press) Existem certos mistérios que causam espanto e dão medo. Há outros que atraem e, quando bem considerados, encantam. Mistério deste tipo é, por excelência, a Sagrada Eucaristia. O Santíssimo Sacramento é o detalhe – para não dizer o acontecimento – mais delicado, mais genial, mais inimaginável do amor infinito de Deus pelos homens.

Não há palavras no vocabulário humano que possam expressar com precisão toda a transcendência desse mistério que não poderia ter sido concebido nem mesmo pela inteligência do mais deslumbrante dos serafins; só um Deus poderia imaginar semelhante maravilha.

Porque não é dizer apenas – apenas, como se fosse pouco! – que a Eucaristia é a presença real do Senhor que se consagra nos altares, se guarda nos tabernáculos e se administra aos fiéis… A Eucaristia se encaixa no mistério da Redenção como pedra angular na qual todo o edifício espiritual da Igreja repousa, pois dela vive e a ela se ordena. Se supõe, claro está, os mistérios da Encarnação e da Redenção, a tal ponto de torná-los presentes e perpetuá-los.

Foto: Cathopic/gonzalesroman.

A Santa Missa: berço onde “nasce” a Eucaristia

Ora, não se concebe a Eucaristia sem a sua celebração, isto é, sem a Missa. E a Missa, berço onde “nasce” a Eucaristia, é a renovação do Sacrifício do Calvário abarcando a prévia Paixão e a posterior Ressurreição do Senhor. Estamos na presença do acontecimento central da História da Salvação.

Digamos que Nosso Senhor Jesus Cristo quisesse ficar conosco na Sagrada Hóstia, providenciando que seus sacerdotes consagrassem o pão em qualquer circunstância, mais ou menos como quando oferecem dar uma bênção ou conceder algum outro benefício espiritual. Se assim fosse, já nos consideraríamos muito bem servidos… Entretanto, a Eucaristia realiza-se no marco de uma celebração onde se realiza misticamente a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.

Assim, em cada uma das inúmeras Missas que são celebradas de forma permanente – por exemplo, no breve tempo tomado pela leitura deste escrito, milhares e milhares de Missas estão sendo celebradas nos mais variados lugares do orbe – se faz presente no altar e diante dos fiéis, o que é comemorado nos dias do Tríduo Pascal, centro do ano litúrgico.

Mas atenção, a Missa não é uma evocação piedosa ou nostálgica. Os termos que melhor se adequam à nossa compreensão da realidade sublime do que seja a Missa são “atualização do mistério redentor” ou, melhor, “representação” do dito mistério, no sentido de torná-lo presente novamente.

Repetimos – porque este conceito é muito importante – não estamos tratando de uma figuração, como a execução cênica de um evento que aconteceu no passado. A Eucaristia, que também recorda a imolação do Calvário, torna-se sacramentalmente presente e perpetua pelos séculos dos séculos.

Foto: Cathopic/Carlos Daniel.

O que é mais razoável do que crer no que Deus diz?

Como dissemos, nossa pobre linguagem deixa a desejar quando se trata de refletir sobre o portento inconcebível que é a Eucaristia como Sacrifício, como Presença real e como alimento.

A Eucaristia tem características que se desdobram em vários benefícios para aqueles que a celebram, a adoram ou a recebem. Ao dizer Eucaristia, expressamos muitas realidades irmãs e complementares: Pão do Céu, alimento de imortalidade, remédio restaurador, bálsamo santificador, ação de graças, memorial da Paixão, oferta perfeita, sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, transubstanciação milagrosa , ápice da vida da Igreja, semente de ressurreição, penhor de vida futura… e ainda há mais a dizer.

O certo é que, para considerar o mistério eucarístico à luz da Fé, é necessário respeitar as palavras formais de Jesus Cristo e o ensinamento da Igreja. Submetendo nossa razão a este mistério incompreensível, não o contradizemos, pelo contrário, fazemos um ato racional, o que é mais razoável do que crer no que Deus diz e no que a Igreja estabelece?

Com razão instrui São Paulo aos romanos ao tratar sobre a práxis cristã: “Os conjuro, pois, meus irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecer o vosso corpo como hóstia viva, santa e agradável a Deus; esse será o culto racional que lhe deveis” (Rm 12,1). Culto racional, culto razoável.

Foto: Cathopic/emiliogb.

O mistério e a “loucura” de Deus

A razão ordenada não exclui o mistério. Não duvida metodicamente dele como fazem os racionalistas, nem é teimosamente cética como os sem Deus. E também não pretende provar isso com a lógica humana, pois sabe que é impossível.

Todas as religiões têm doses maiores ou menores de mistério; não há religião sem mistério. Inclusive, para tantos falsos cultos e seitas é preciso aproveitar o mistério para “justificar” crenças cegamente aceitas que, muitas vezes, levam a práticas que beiram o irracional.

A religião católica, por sua vez, acredita e propõe mistérios que são muito razoáveis ​​e nada arbitrários. A Revelação, a Tradição e o Magistério da Igreja constituem um corpo doutrinal substancioso e uma espiritualidade coerente que vai se enriquecendo com o tempo, sem jamais negar ou entrar em contradição; o que destoa cai por si mesmo. Pensemos nas heresias, nos cismas ou nas apostasias, são erros que, cedo ou tarde, se separam do seio claro e indefectível da Igreja.

Mas como explicar essa excessiva “loucura” de um Deus que se sacrifica desse modo, perpetuando sua presença em milhares de lugares ao mesmo tempo e dando-se em alimento à meras criaturas? Antes de instituir a Eucaristia no Cenáculo, São João diz no seu Evangelho que Jesus «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim» (Jo 13,1). Aí está a razão dessa mal chamada loucura: o amor excessivo de um Deus. Pode um amor “moderado” e sem ardor ser concebido em Deus? Em resposta, amemo-lo apaixonadamente. Afinal, o que é o amor, senão o exagero?

Mairiporã, setembro de 2022.

Por Padre Rafael Ibarguren EP – Assistente Eclesiástico das Obras Eucarísticas da Igreja.

Traduzido por Emílio Portugal Coutinho.

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