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A dor que não tem nome

Seja no majestoso Cemitério do Père-Lachaise, em Paris — um dos mais famosos do mundo, onde grandes nomes da história repousam — ou nos modernos campos santos que parecem jardins, a morte continua sendo, invariavelmente, a nossa única certeza.

Foto: Rhodi Lopez/ Unsplash

Foto: Rhodi Lopez/ Unsplash

Redação (21/07/2026 10:39, Gaudium Press) A morte é uma presença constante em nossas vidas, embora a civilização moderna tenha se esforçado, com um sucesso aparente e enganoso, para ocultá-la. Recentemente, fui profundamente tocado ao assistir a um episódio do podcast Mulheres de Meia (https://youtu.be/2PM-gu5uwN0), no qual mães partilharam a dilacerante experiência da perda de seus filhos. Ouvi relatos que atravessam a alma, como o de uma mãe que, em um trágico acidente equestre, despediu-se precocemente de sua única filha, uma menina de apenas 13 anos.

Ao escutar aquelas palavras, compreendi que existe, de fato, uma dor que não tem nome: o abismo de desespero que se abre quando a ordem natural é subvertida e os pais sobrevivem aos seus filhos. É uma angústia que transcende o conhecimento pessoal, atingindo o núcleo da nossa humanidade.

A morte através dos tempos

Desde que o mundo é mundo, a humanidade sente uma espécie de indagação sagrada diante da finitude. Mesmo nas civilizações mais remotas, antes mesmo do que costumamos chamar de “civilização” no sentido moderno, encontramos evidências de ritos fúnebres complexos.

Arqueólogos descobrem túmulos milenares onde o cuidado em depositar objetos, alimentos e adornos junto aos ossos revela que o homem nunca viu a morte como um mero fim biológico. Aqueles ritos eram a prova de que a vida possui um sentido que se estende para além da matéria.

Hoje, porém, tentamos higienizar esse momento. Construímos cemitérios verticais, verdadeiros edifícios onde a memória é armazenada em gavetas, distantes do contato com a terra; ou criamos cemitérios-jardim que imitam a tranquilidade de parques para “suavizar” a dureza da despedida.

Seja no majestoso Cemitério do Père-Lachaise, em Paris — um dos mais famosos do mundo, onde grandes nomes da história repousam — ou nestes modernos campos santos que parecem jardins, a morte continua sendo, invariavelmente, a nossa única certeza terrena. A arquitetura muda, mas o vazio deixado pela ausência permanece o mesmo.

A preparação para a eternidade segundo Santo Afonso

Como bem nos ensina Santo Afonso Maria de Ligório em sua obra Preparação para a Morte, não podemos nos permitir o erro de viver como se este mundo fosse nossa morada definitiva. O Santo Doutor, com sua pena aguçada pelo zelo das almas, nos exorta: “Não é a morte que deve nos causar medo, mas a vida mal vivida antes dela”. Santo Afonso nos lembra que a vida é apenas uma travessia, uma longa viagem para a eternidade, e que a nossa felicidade no “fim” depende estritamente de como preenchemos o tempo que nos foi concedido.

Ele escreve em Preparação para a Morte: “Considerai, cristão, que o tempo é um tesouro que Deus vos dá para adquirir o céu, mas este tempo é limitado e foge velozmente”. O Santo nos convida a meditar não para cairmos em melancolia, mas para que a consciência da finitude nos desperte para a urgência da virtude. Viver preparado para a morte, na ótica de Santo Afonso, é viver em estado de graça constante, é manter a alma livre dos pesos mortos que nos impedem de voar para Deus.

O convite ao amor presente e a convivência

Diante da incerteza da hora da morte, o que nos resta? A resposta reside no amor e na retificação das intenções. Existe uma máxima, corrente na sabedoria popular cristã, que diz: “Devemos viver preparados para morrer, mas viver como se nunca fôssemos morrer”. Esta frase não é uma contradição, mas um equilíbrio perfeito. Viver como se nunca fôssemos morrer significa investir no bem, construir, amar intensamente, ser generoso com o tempo e com o afeto, pois o amor é a única coisa que sobreviverá à travessia.

Isso significa, na prática, que nossa preparação deve começar hoje, nas pequenas coisas. Sejamos prontos a pedir perdão antes que o sol se ponha, a encerrar discussões inúteis, a relevar as ofensas que, diante da eternidade, são apenas poeira. Quando um filho sai para a escola, quando um cônjuge parte para o trabalho, que a nossa última palavra seja sempre de amor. Nunca sabemos se aquela será a nossa última oportunidade de manifestar o carinho que sentimos.

Devemos, também, preparar nossos entes queridos; ensinar os filhos a compreenderem o valor da vida e a verem a morte como a porta para o encontro definitivo com o Criador. Estarmos preparados para a nossa própria partida e para a partida daqueles que amamos é o ato mais profundo de caridade que podemos praticar.

Que o nosso olhar esteja sempre fixo no Céu, preparando o nosso coração — e ajudando o coração daqueles que nos cercam — a estar em paz. Afinal, a morte, embora dolorosa, é apenas a ponte, a transição necessária para a verdadeira vida que nunca terá fim.

Por Afonso Pessoa

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