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A Corredenção de Maria está nos matizes

Papa Francisco falou novamente sobre a corredenção de Maria, dizendo que Jesus confiava nela como mãe, não como corredentora. Mas o que significa isso?

Maria pe cruz

Redação (01/04/2021 08:40, Gaudium Press) O tema da corredenção de Maria é muito importante, pois está comprovado que, onde cresce a devoção a Nossa Senhora, tudo floresce. E principalmente quando Ela é honrada de forma adequada, por exemplo, com um título justo e muito importante.

É claro que entendemos as palavras de Francisco na Audiência Geral, em 24 de março, como um esclarecimento para que a devoção a Nossa Senhora não seja mal entendida, e que não se queira colocá-la em ‘ “concorrência” com Jesus Cristo ou sua Redenção.

Por outro lado, a tradição e muitos teólogos defenderam que o título de ‘corredenção’ cabe inteiramente a Nossa Senhora, no sentido de uma colaboração singular dEla na obra da Redenção do gênero humano, evidentemente, uma colaboração “secundária, subordinada, dependente da de Cristo”, mas também querida por Cristo, como bem assinala o renomado mariólogo de nossos dias, Mons. Arthur Burtons Calkins, no estudo acadêmico “O Mistério de Maria Corredentora no Magistério Papal”. (1)

A tradição da singular cooperação de Maria na Redenção remonta aos tempos Apostólicos

Mons. Calkins – depois de recordar que já no Adversus Haereses de São Irineu, há indícios da corredenção, e depois citando João, o Geômetra, São Bernardo e Arnoldo de Chartres no mesmo sentido –  faz um elenco do Magistério Pontifício moderno sustentando a ‘corredenção’ da Virgem, e usando esse termo ou seus relativos com tanta frequência, que foi inclusive considerado “santificado pelo seu uso”.

“O termo aparece pela primeira vez na Acta Apostolicae Sedis, em resposta a um pedido feito pelo Padre Giuseppe M. Lucchesi, Superior Geral dos Servitas (1907-1913), no qual solicitava a elevação da categoria da festa das Sete Dores de Nossa Senhora, para um duplo de segunda classe   para toda a Igreja (a festa seria   no dia 15 de setembro, um dia depois da festa da exaltação da Santa Cruz).

 Ao acessar a petição a Sagrada Congregação dos Ritos  expressou o desejo de que ‘se incremente o culto à Virgem Dolorosa e se intensifique a piedade e o agradecimento dos fiéis em relação à misericordiosa Corredentora da raça humana'”, lembra Mons. Calkins. Isso se deu no reinado de São Pio X.

Cinco anos depois, foi a então Congregação da Fé, cuja cabeça era o insuspeito Cardeal Rampolla, que de forma oficial empregou o termo:

“A Sagrada Congregação do Santo Ofício – relata Mons. Calkins, em um decreto assinado pelo Cardeal Mariano Rampolla, expressou sua satisfação com a prática de acrescentar, ao nome de Jesus, o de Maria, na saudação ‘Louvado seja Jesus e Maria’, à qual se responde ‘Agora e para sempre’: Há cristãos que têm uma devoção tão terna àquela que é a mais bendita entre as virgens, que não podem mencionar o nome de Jesus, sem que seja acompanhado pelo glorioso nome da Mãe, nossa Corredentora, a Santíssima Virgem Maria.

Seis meses depois, a mesma Congregação outorgou uma indulgência parcial de 100 dias àqueles que recitassem uma oração que em sua parte final dizia: “Bendito Vosso Santo Nome, eu Vos louvo pelo elevado privilégio de ser verdadeiramente a Mãe de Deus, sempre Virgem, concebida sem mancha de pecado, Corredentora da raça humana”.

Pio XI

A primeira vez que um Papa usou o termo foi Pio XI, em uma alocução de 30 de novembro de 1933: “Pela natureza de sua obra, o Redentor devia associar sua Mãe com sua obra. Por esta razão, nós a invocamos sob o título de Corredentora. Ela nos deu o Salvador, acompanhou-O na obra da redenção até a cruz, compartilhando com Ele os sofrimentos, agonia e morte, com os quais Jesus deu pleno cumprimento à redenção humana.” Os sofrimentos de Maria para nossa salvação são superados apenas pelos de Jesus, e estão associados aos dEle.

 Pio XI voltou a repetir o termo quando, no dia 24 de março de 1934, recebeu peregrinos espanhóis. L’Osservatore Romano descreve suas palavras, especialmente quando se dirigiu aos jovens, a quem convocou a “imitar os pensamentos e desejos de Maria Santíssima, nossa Mãe e nossa Corredentora: também eles devem fazer um grande esforço para serem corredentores e apóstolos, seguindo o espírito da ação católica, que é precisamente a cooperação dos leigos no apostolado hierárquico da Igreja”.

Pio XI voltou a se referir a Nossa Senhora como corredentora em 28 de abril de 1935, no encerramento do Ano Santo em Lourdes: “Mãe, a mais fiel e misericordiosa, Vós que, como Corredentora e sócia das dores de Vosso querido Filho, O assististes quando oferecia o sacrifício de nossa redenção no altar da cruz… conservai em nós e aumentai dia após dia, nós Vos imploramos, os preciosos frutos de nossa redenção e Vossa compaixão”.

O Concílio Vaticano II

Maria corredentoraEmbora o Concílio Vaticano II não tenha usado o termo Corredenção, em Lumen Gentium 56, afirma-se que “com razão, portanto, pensam os santos padres que Maria não foi um instrumento puramente passivo nas mãos de Deus, mas cooperou na salvação dos homens com fé e obediência livres. Como afirma Santo Irineu, “obedecendo, converteu-se em causa de salvação para si mesma e para todo o gênero humano.” Por isso que não poucos padres antigos afirmam com prazer com ele em sua pregação que “o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; que o atado pela Virgem Eva com sua incredulidade, foi desatado pela Virgem Maria mediante sua fé”; comparando-A com Eva, chamam a Maria de “Mãe dos viventes”, afirmando ainda com maior frequência que ‘a morte veio por Eva; a vida, por Maria'”: ressaltava assim o Concílio a mediação de Nossa Senhora e sua singularíssima cooperação na obra da Redenção. Esse paralelo Eva/Maria, paralelo entre a morte espiritual e a recuperação da saúde espiritual, é fundamental para compreender o papel de Nossa Senhora na obra redentora.

 “Ademais, os padres do Concílio dão outro passo, e partindo da importância geral já estabelecida que davam à colaboração de Maria na obra de redenção, passam a sublinhar a natureza pessoal da ‘união da mãe com o Filho na obra de salvação'(Matris cum Filio in opere salutari coniunctio) ao longo da vida oculta de Jesus(LG 57) e sua vida pública (LG 58). Finalmente, no número 58, enfatizam a maneira com que Ela manteve fielmente sua união com o Filho até a cruz, junto a qual, não sem desígnio divino, se manteve erguida, sofrendo profundamente com seu  Unigênito e associando-se como mãe ao seu sacrifício, amorosamente consentindo na imolação da vítima que Ela mesma havia gerado”, manifesta Mons. Calkins.

São João Paulo II

São João Paulo II também usou o termo profusamente, por exemplo, na saudação aos enfermos após a audiência geral em 8 de setembro de 1982: “Maria, embora concebida e nascida sem mancha de pecado, participou de uma forma maravilhosa nos sofrimentos de seu divino Filho, para poder  ser a Corredentora da humanidade”.

NSenhora corredentora No dia de seu padroeiro São Carlos Borromeo, em 1984, o Papa Wojtyla afirmou no Angelus: “Em direção a Nossa Senhora – A Corredentora – São Carlos volveu seu olhar com acenos singularmente reveladores. Comentando sobre a perda de Jesus aos doze anos de idade no Templo, reconstruiu o diálogo interno que poderia ter existido entre a Mãe e o Filho, e acrescentou: “Sofrerás dores ainda maiores, ó Mãe bendita, e continuarás a viver; mas a vida para ti será mil vezes mais amarga do que a morte. Verás teu filho inocente entregue nas mãos de pecadores. Vê-lo-ás brutalmente crucificado entre ladrões; Verás seu santo costado aberto por uma cruel lança; Finalmente, verás derramar o sangue que tu mesma deste. E, no entanto, não poderás morrer! ” (Da homilia pronunciada na Catedral de Milão no domingo após a Epifania, 1584).

Em 31 de janeiro de 1985, em Guayaquil, o Papa polonês declarou: “Na verdade, no calvário, Maria uniu-se ao sacrifício de seu Filho que levou à fundação da Igreja; compartilhou no mais profundo de seu coração materno a vontade de Cristo de “reunir em um os filhos de Deus que estavam dispersos” (Jo 11-52). Tendo sofrido pela Igreja, Maria merecia se tornar a Mãe de todos os discípulos de seu Filho, a Mãe que os uniria. Os Evangelhos não nos dizem se Cristo Ressuscitado apareceu para Maria. No entanto, como ela estava de uma forma especial perto da cruz de seu Filho, também ela deve ter tido a experiência privilegiada de sua Ressurreição. Na verdade, o papel de Maria como Corredentora não terminou com a glorificação de seu Filho.”

Em 31 de março de 1985, São João Paulo II assim falava em um Domingo de Ramos e Dia Mundial da Juventude: “Maria acompanhou seu divino Filho no mais discreto silêncio, ponderando tudo nas profundezas de seu coração. No calvário, permanecendo ao pé da cruz, na imensidade e profundidade de seu sacrifício maternal, tinha João ao seu lado, o Apóstolo mais jovem… Que Maria, nossa Protetora, a Corredentora, a quem oferecemos nossa oração com grande efusão, faça que nosso desejo corresponda generosamente ao desejo do Redentor.”

O Santo Papa João Paulo II também utilizou o termo “corredentora” em 1990, dirigindo-se aos participantes voluntários de uma peregrinação da Aliança Confederada do Transporte dos Doentes para Lourdes; na comemoração do sexto centenário da canonização de Santa Brígida em 1991.

Um pouco de teologia

Mons. Calkins lembra que a colaboração de Maria na obra redentora difere especificamente da colaboração que a ela também prestam os cristãos, quando, por exemplo, intercedem por outrem, ou aplicam as graças de Cristo para a salvação das almas:

“A redenção in actu primo ou ‘redenção objetiva’, ou fase ascendente da redenção, poderia ser definida como a aquisição da salvação universal, mediante o sacrifício querido a Deus, a fim de reconciliar o mundo com Ele. A redenção in actu secundo ou “redenção subjetiva”, ou a fase descendente da redenção, ou mediação da graça, poderia ser definida como a aplicação dos frutos da redenção aos indivíduos em particular, através da mediação querida por Deus. Tem sido afirmado de maneira consistente que Nossa Senhora participa em ambas as fases da obra de redenção, enquanto que os outros cristãos podem participar aplicando estas graças de redenção a pessoas e situações em particular.” Ou seja, em sentido estrito, corredentora é só Nossa Senhora. Mas, mesmo na ‘redenção subjetiva’, o papel de Maria é único, pois como a teologia já mostrou, as graças necessariamente passam por Ela, pois é como o Pescoço da Cabeça que é Cristo.

Devemos, então, continuar a aprofundar o importantíssimo papel, e por disposição de Cristo necessário na história da salvação, de Nossa Senhora. Dessa consciência surgirá a glória que devemos render-Lhe e que Ela merece, sem detrimento da de Cristo.

Por Carlos Castro


  1. Todas as citações são retiradas de: Dom Arthur Burton Calkin. O Mistério de Maria Corredentora no Magistério Papal O que a Igreja Católica diz sobre Maria Corredentora? Disponível em: https://es.catholic.net/op/articulos/15816/cat/653/el-misterio-de-maria-corredentora-en-el-magisterio-papal.html#modal em 24-03-2021

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