A caminho de Emaús
No momento em que as dificuldades parecem somar-se umas às outras, devemos ter a certeza de que Deus está conosco.

Os discípulos de Emaús, por Jan Wildens – Museu Nacional do Hermitage, São Petersburgo (Rússia) Foto: Wikipedia
Redação (18/04/2026 19:03, Gaudium Press) Neste 3º Domingo do Tempo Pascal, a liturgia procura desvendar aos olhos dos fiéis até onde pode chegar o amor de Deus para com os seus filhos.
Assim, o caminho de Emaús, marcado pelas pegadas da falta de fé e de esperança, foi, naquele momento, iluminado pela misericórdia do Divino Peregrino por toda a História.
Angustiados…
“Dois discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús” (Lc 24,13).
Com que força as angústias, os desânimos e os desesperos podem assaltar uma alma? Nenhuma ciência responde a esta pergunta. Contudo, sabemos que Deus não permitirá que sejamos tentados além de nossas forças (cf. 1Cor 10,13).
No caso dos discípulos de Emaús, enquanto caminhavam e conversavam sobre os últimos acontecimentos, as provações dominavam seus pensamentos, um grande desmentido os deixava “como que cegos” (Lc 24,16) e aturdidos por fatos extraordinários: “Esperávamos que Jesus de Nazaré, um profeta poderoso, fosse libertar a Israel, contudo, já faz três dias que morreu” (Lc 24,21).
Porém, uma vez que Nosso Senhor prometeu: “se um ou mais estiverem reunidos em meu nome aí eu estarei no meio deles” (Mt 18,20), Jesus, como um peregrino, “se aproximou e começou a andar com eles” (Lc 24,15).
O Caminho caminha com os cegos
“Então Jesus perguntou: ‘o que ides conversando pelo caminho?’ Eles pararam com o rosto triste” (Lc 24,17).
Ele, que tudo sabe, por que pergunta?
Ele sabia tudo, sabia quem eram eles, o que discutiam, que dificuldades varavam seus pensamentos, e, principalmente, sabia o que fazer para restaurar as graças primaveris que haviam florescido no início da vocação daquelas almas; e por isso pergunta.
Por mais que estivessem como que cegos, não reconhecendo o Mestre, e tivessem seus panoramas toldados pelas nuvens do desastre, ali estava Aquele que era e é o Caminho. E o Caminho estava a caminhar com eles. O que lhes dizia, então?
“Começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (Lc 24,27).
Imaginar quão magistral foi esta aula de exegese ambulante deixaria qualquer gênio com as elucubrações esgotadas. Pois ensinar não significa somente uma função de professor, mas sobretudo, a de pai: formar, aconselhar e guiar.
Ao darem-se conta dos desígnios divinos, as dúvidas dos discípulos se esclarecem, as angústias se transformam em constância e os corações frios em tochas ardentes. Assim, reproduziu-se com os discípulos de Emaús o que se passava em seus corações. De cegos, sem fé e sem esperança, reconhecem a Jesus ao partir o pão. Esta é uma clara menção sobre como devemos reconhecer na Eucaristia o baluarte inabalável durante as provações e dificuldades que encharcam os nossos dias e minutos.
O filho pródigo perseguido pelo pai
Muitos Padres da Igreja levantam a hipótese de que um desses dois discípulos seja o próprio evangelista São Lucas, uma vez que ele explica o motivo pelo qual não deseja nomeá-los.
O que seria da Cristandade caso o Divino Peregrino não tivesse irrompido no caminho de São Lucas? Nunca brilharia no firmamento das parábolas de Nosso Senhor a figura do Filho Pródigo e da bondade do pai, cujo registro devemos apenas à pluma deste evangelista. Tal lacuna teria obnubilado a nossa ideia de Deus enquanto Pai misericordiosíssimo.
Contudo, vemos que no caso dos discípulos de Emaús não é o pai que espera o filho Pródigo voltar à casa paterna, mas é Ele próprio quem vai atrás de seus filhos tresmalhados, os persegue e os reconduz à fidelidade.
Foi provavelmente no caminho de Emaús que São Lucas compreendeu tanto a profundidade da maldade humana quanto a altura da misericórdia divina. Pôde ele, destarte, transmitir para as gerações futuras as parábolas nas quais mais transparecem o perdão e o auxílio constante de Deus.
Por Lucas Cremasco





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