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Espírito de Cruzada dos heróis da reconquista pernambucana

A fim de impedir a conquista do Cabo de Santo Agostinho e, sobretudo, expulsar do Brasil os calvinistas holandeses, 2.200 homens católicos concentraram-se no Monte Guararapes. Todos levavam rosários no pescoço e imploravam a proteção da Santíssima Virgem.   

Foto: Wikipedia

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Redação (29/04/2026 15:49, Gaudium Press) No Norte e Nordeste do Brasil, durante o século XVII, calvinistas holandeses fizeram terríveis perseguições contra os católicos, os quais resistiram heroicamente e receberam tais auxílios de Deus que o conflito passou a ser chamado Guerra da Luz Divina.

Índios sacrílegos ficaram com as mãos secas

Na Capela de Nossa Senhora das Candeias, situada no engenho de Cunhaú, atual município de Canguaretama, Rio Grande do Norte, o Padre André de Soveral, com 90 anos de idade, iniciava a Santa Missa da qual participavam cerca de 70 fieis. Era domingo, dia 16 de julho de 1645, festa de Nossa Senhora do Carmo.

De repente, o templo foi invadido por holandeses protestantes e índios canibais, chefiados por Jacob Rabbi, um judeu que atuava na região a mando dos hereges.

Padre André, falando em língua indígena, alertou a todos: quem tocasse nele, nas imagens ou paramentos sagrados ficaria com uma parte do corpo inutilizada. Ouvindo isto, os tapuias recuaram amedrontados. Os potiguares, porém, tomados de furor satânico despedaçaram o venerável ministro de Deus!

E, arremessando contra os fiéis, arrancaram suas línguas para não proferirem orações católicas, deceparam seus braços e pernas, degolaram muitos deles.

Pouco depois dessa hedionda matança, os índios assassinos do sacerdote viram que suas mãos sacrílegas estavam secas. E berrando enlouquecidos morreram em seguida.

Trinta mártires foram canonizados

Após essa chacina, atacaram conventos de franciscanos, carmelitas e beneditinos cujos frades foram colocados em embarcações, desnudados e lançados em praias desertas, onde faleceram.[1]

Em Curuaçu – atual município São Gonçalo do Amarante, próximo da cidade Natal – havia a Igreja Nossa Senhora da Apresentação. Os calvinistas lá chegaram em 3 de outubro de 1645 e fizeram terrível carnificina.

Torturaram o pároco Padre Ambrósio Francisco Ferro e depois o mataram. E arrancaram o coração do sacristão Mateus Moreira por ter manifestado sua Fé exclamando: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento!”

Cerca de cem pessoas sofreram o martírio nos dois episódios, mas apenas trinta foram canonizados – dois sacerdotes e 28 leigos – porque, devido à violência dos golpes, muitos corpos não puderam ser identificados. Sua memória é celebrada em 3 de outubro.

1280px Batalha dos Guararapes ex voto

Os católicos levavam rosários no pescoço

Em abril de 1648, os holandeses reuniram um exército de 10.000 homens bem armados e planejavam conquistar o Cabo de Santo Agostinho, na atual região metropolitana de Recife.

A fim de impedir essa ação nefanda e, sobretudo, expulsar do Brasil os hereges, 2.200 homens católicos concentraram-se no Monte Guararapes situado nas cercanias, sob o comando de João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros. Havia também um grupo de negros chefiados por  Henrique Dias, e outro de índios dirigidos por Filipe Camarão. Todos levavam rosários no pescoço e imploravam a proteção da Santíssima Virgem.

O choque foi tremendo e os fiéis à Igreja, movidos pela graça divina, investiram com tal ímpeto que os neerlandeses se puseram em fuga. Muitos deles foram tragados nas regiões pantanosas dos arredores. O campo ficou nosso, mas os inimigos permaneceram nas partes mais altas do Monte.

Dos hereges 1.200 morreram, enquanto dos católicos apenas 84 entregaram suas almas a Deus.  Era o dia 19 de abril de 1648, em que se comemorava a festa de Nossa Senhora dos Prazeres, invocação relativa às Sete Alegrias da Virgem Maria.

Batalha final: Mortos 2.000 calvinistas e 27 católicos

Em 18 de fevereiro de 1649, houve a segunda e decisiva batalha do Monte Guararapes. À frente de 5.000 homens, um coronel holandês se dirigiu para o local e 2.600 católicos luso-brasileiros foram ao seu encontro. Na planície travaram renhida batalha e os católicos procuraram tomar o monte, defendido a unhas e dentes pelos batavos.

Depois de algum tempo, João Fernandes Vieira, considerando a desproporção numérica e que a luta se tornaria cada vez mais dura, longa e sangrenta, ordenou aos católicos que dessem uma última carga de cavalaria e investissem logo em seguida à espada. Assim o fizeram com tanto ardor que desbarataram as fileiras inimigas e conquistaram toda a baixada.

Enquanto isso, do alto do monte, Vidal de Negreiros comandava a luta com admirável bravura, e o capitão Antônio Dias Cardoso, que o auxiliava, mandou disparar uma forte carga de artilharia contra o inimigo já em retirada. Na debandada, incontáveis batavos perderam a vida nos precipícios. Dois mil holandeses pereceram nesse combate. E dos católicos 27 passaram desta vida temporânea para a eterna.

Era a primeira sexta-feira da quaresma. Nas igrejas, o Santíssimo Sacramento foi exposto para agradecer a Nosso Senhor a vitória alcançada.

Pouco tempo depois, o inimigo assinava a capitulação. João Fernandes Vieira, em nome do Rei João IV, tomou posse da cidade de Recife em 26 de janeiro de 1654.

Esse valoroso comandante em diversas situações foi protegido milagrosamente por Deus. Numa batalha, por exemplo, os inimigos de Cristo lançaram contra ele uma carga de arcabuz, e os projéteis ao baterem-lhe no peito caíram ao chão, deixando apenas marcas de queimaduras em suas vestes.

No alto do Monte Guararapes, foi construída em estilo barroco a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, na qual se encontram os restos mortais de João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros.[2]

Um povo que Deus criou para grandes feitos

Por ocasião do encerramento do IV Congresso Eucarístico Nacional, em 7 de setembro de 1942, no Vale do Anhangabaú, São Paulo, na presença de 500 mil pessoas, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira fez um discurso do qual extraímos estas palavras:

A expulsão do herege holandês do Nordeste foi um grande episódio da História do Brasil na qual, “bem estudada e despida das versões oficiais de um liberalismo anacrônico, podemos ver claramente, (…) no espírito de Cruzada dos heróis da reconquista pernambucana, (…), as expressões rútilas de um grande povo que, ainda nos primeiros passos de sua História, já dava mostras de ser um povo que Deus criou para grandes feitos”.[3]

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja


[1] Cf. SOARES CORRÊA, Carlos Alberto. Gloriosa Insurreição Pernambucana, in Catolicismo. Campos dos Goitacazes. n. 176 (agosto 1965).

[2] Cf. SANTIAGO, Diogo Lopes de. História da guerra de Pernambuco. Recife: Companhia Editora de Pernambuco. 2004. CALADO, Manoel. O valeroso lucideno e triunfo da liberdade. Recife. Companhia Editora de Pernambuco. 2004.

[3] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Nação bem-aventurada. In Arautos do Evangelho. São Paulo. Ano XXIII, n.  274 (outubro 2024), p. 22.

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