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Escravos da Liberdade x Escravos da Fé

 A escravidão nos torna prisioneiros do pecado em nome de uma liberdade ilusória. A verdadeira liberdade, paradoxalmente, é aquela que encontramos ao nos prendermos inteiramente a Deus.

Foto: nsfatimaartigosreligiosos

Foto: nsfatimaartigosreligiosos

Redação (25/04/2026 10:51, Gaudium Press) Estes dias, enquanto revia antigos arquivos e memórias, percebi, com um sobressalto de gratidão, que o tempo é um mestre silencioso. Já caminha para cinco anos o meu encontro semanal com vocês aqui na Gaudium Press. O tempo passa e a gente não vê! Meu primeiro artigo foi publicado em 2021 e, ao relê-lo, fui transportado para a imagem que abriu essa nossa jornada:

“Escravos caminham de cabeça baixa, acorrentados. Semblantes taciturnos. Expressão fechada. Costas encurvadas, parecem carregar sobre os ombros o peso da ignomínia e da opressão. Introspectivos, sequer ousam olhar para o companheiro de infortúnio que caminha ao seu lado, algemado à mesma corrente.”

Naquela época, eu falava da escravidão que estirpa a vontade própria. Hoje, cinco anos depois, sinto-me impelido a voltar ao tema, mas sob uma luz radicalmente diferente. Se, em 2021, eu descrevia as correntes da opressão, hoje quero falar das correntes da devoção – aquelas que, paradoxalmente, são as únicas capazes de nos tornar verdadeiramente livres.

Um hino à liberdade

Recentemente, uma amiga compartilhou comigo uma experiência inusitada. Movida pelo desejo de mostrar solidariedade a um grupo religioso que tem enfrentado perseguições ferrenhas por sua fidelidade, ela decidiu compor uma canção para homenageá-los. Sem ser do mundo da música, recorreu à tecnologia para dar ritmo aos seus versos. O resultado, por um desses mistérios do destino (ou da falta de “coordenadas” na inteligência artificial), não foi o hino solene que ela esperava, mas um sertanejo vibrante. Rimos da ironia, mas a letra tocou meu coração e me fez pensar sobre o peso das palavras.

No mundo moderno, a palavra “escravidão” causa arrepios e repulsa imediata. No entanto, vivemos em uma era de escravos disfarçados de homens livres. Vejo pessoas que se dizem autorizadas a tudo, mas que são prisioneiras de vícios, do excessivo amor-próprio e de ídolos de barro: políticos, jogadores, cantores e, mais tragicamente, o próprio ego narcísico. Matam e morrem por esses ídolos, sem perceberem as correntes invisíveis que lhes prendem a alma.

A escravidão que liberta

Em contrapartida, existe uma multidão silenciosa que, com alegria e convicção, por meio de uma consagração, escolhe o título de “Escravo de Jesus pelas mãos de Maria”. São os odiados “escravos da fé”. No entanto, essa consagração a Jesus e pelas mãos de Maria não é uma escolha de fanáticos e ignorantes, mas de mentes brilhantes e corações maduros que compreenderam que, por si sós, não conseguem gerir a própria vida. Eles seguem a doutrina de São Luís Maria Grignion de Montfort, o santo que escreveu o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem no século XVIII – um livro que ele mesmo previu que ficaria oculto e que só foi redescoberto 117 anos após sua morte.

Esses “escravos da fé” entregam sua vontade, seus bens e suas escolhas nas mãos d’Aquela que soube ser a “Escrava do Senhor” por excelência. E o que o mundo não entende é que essa entrega não anula a personalidade; ela a aperfeiçoa. Quando deixamos que o Céu ajude em nossas escolhas, acertamos muito mais. São João Paulo II sabia disso tão bem que fez do seu Lema Pontifício (a frase que norteia a vida de um Papa) o famoso “Totus Tuus” – Todo Teu, Maria.

A liberdade que aprisiona

Essas pessoas incomodam. Incomodam porque são felizes em meio às dificuldades. Incomodam porque usam, às vezes, uma pequena corrente no pulso, no tornozelo ou na cintura, como no caso de alguns religiosos, como símbolo de uma entrega total, enquanto os “livres” do mundo carregam correntes muito mais pesadas de ansiedade e vazio.

A escravidão nos torna prisioneiros do pecado em nome de uma liberdade ilusória. A verdadeira liberdade, paradoxalmente, é aquela que encontramos ao nos prendermos inteiramente a Deus, como na música que minha amiga compôs.

Estamos vivendo um tempo de necessidade de silêncio, quando a perseguição tenta calar a fé. Mas as correntes da devoção continuam sendo a ponte segura para a eternidade. Que sejamos, então, escravos do Amor, para nunca sermos prisioneiros do mundo. E que possamos cantar:

“Seja escravo da fé, deixe esse mundo pra lá! Consagre-se a Maria para Jesus encontrar. Dê a Ela os seus bens e também o seu coração. Leve a Mãe pra sua casa como na Cruz fez João.”

Por Afonso Pessoa

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