Dois sacerdotes e dois leigos interrogados em Cuba por falarem sobre repressão e colapso econômico
Foram dois sacerdotes da Arquidiocese de Camagüey e, no mesmo dia, detiveram em Pinar del Río dois leigos ligados a um centro de estudos.

Foto: Wikipedia
Redação (03/02/2026 08:57, Gaudium Press) O governo cubano intimou dois sacerdotes católicos e dois leigos, submetendo-os a interrogatórios sobre suas declarações públicas e atividades relacionadas à defesa da liberdade, da democracia e à denúncia da situação econômica na ilha. Os interrogatórios ocorreram em 23 de janeiro e se estenderam por várias horas.
Os padres Castor Álvarez Devesa e Alberto Reyes, ambos da Arquidiocese de Camagüey, foram convocados sem motivo aparente e em um momento particularmente sensível: os dois estavam participando de um retiro espiritual junto com o restante do clero. Mesmo assim, foram chamados pela Segurança do Estado.
No mesmo dia, em Pinar del Río, foram detidos Dagoberto Valdés Hernández e Yoandy Izquierdo Toledo, leigos católicos ligados ao Centro de Estudos Convivência. Esse centro é descrito como um espaço de reflexão apartidário e sem fins lucrativos, que busca melhorar a situação do país. Tanto os sacerdotes quanto os leigos são conhecidos por expressarem abertamente suas opiniões sobre a falta de liberdade em Cuba e sobre a grave crise econômica que afeta a nação insular.
Atos de intimidação política
Osvaldo Gallardo, escritor cubano e ativista pela liberdade religiosa, relacionou esses fatos a uma data significativa: o 28º aniversário da Missa celebrada em Camagüey por São João Paulo II, na qual o pontífice incentivou os cubanos a “não adiarem para amanhã a construção de uma nova sociedade” e a “serem protagonistas de sua própria história”. Nesse contexto, Gallardo alertou, em uma publicação, que não se tratava de simples trâmites ou episódios isolados. Ele afirmou que “não são incidentes isolados nem administrativos”, mas sim “atos de intimidação política dirigidos contra sacerdotes e leigos que, a partir de sua fé, sua consciência e seu civismo, têm defendido a dignidade humana, a liberdade e o direito a uma sociedade melhor”.
Padres Devesa e Reyes
Quanto ao Pe. Álvarez Devesa, informou-se que ele foi interrogado por cerca de três horas. O sacerdote havia estado em Miami poucos dias antes e, em 24 de janeiro, foram divulgadas algumas de suas declarações nas quais reiterou o sofrimento do povo cubano, e afirmou que, com a captura de Nicolás Maduro, os Estados Unidos haviam “retirado do governo cubano o controle da Venezuela”. Nesse mesmo depoimento, recordou o ocorrido durante os protestos de 11 de julho de 2021, quando foi agredido e detido, e evocou uma percepção comum na época: “as pessoas diziam que os Estados Unidos não haviam apoiado o povo cubano”. Em seguida, explicou que agora “a percepção é diferente” e acrescentou: “Mesmo assim, é uma esperança cautelosa; um povo que sofreu tanto que tem dificuldade em acreditar na mudança. Muitos pensam que nada vai acontecer, mas, apesar de tudo, eu acredito que há esperança”.
Por sua vez, o Pe. Alberto Reyes costuma publicar reflexões semanais sobre a situação cubana. Em 16 de janeiro, escreveu que “não é segredo” que, após os acontecimentos na Venezuela, “as esperanças dispararam por uma mudança radical em Cuba que poria fim à ditadura e inauguraria uma era de democracia e prosperidade”. Além disso, na manhã de 23 de janeiro, criticou a condenação imposta ao jornalista José Gabriel Barrenechea, sentenciado por gritar slogans durante um protesto contra os apagões constantes que afetam o país.
Foram à casa de um leigo para prendê-lo
Em relação aos leigos do Centro de Estudos Convivência, informou-se que também foram submetidos a interrogatório. A organização explicou que, na manhã de sexta-feira, 23 de janeiro, uma patrulha da Polícia Nacional Revolucionária chegou à residência de Dagoberto Valdés para prendê-lo e levá-lo à sede da Segurança do Estado em Pinar del Río. Yoandy Izquierdo foi detido quando, junto com outros membros do centro, foi ao centro de segurança para perguntar pela situação de Valdés.
A razão alegada para a detenção, segundo o comunicado, foi uma visita recente de Valdés a Mike Hammer, encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos em Cuba. Também foi indicado que as autoridades citaram Izquierdo por ter participado dessa visita, embora tenha sido destacado que ele “não compareceu” ao encontro.
Durante o interrogatório, afirmou-se que Valdés foi acusado de “terrorismo” e de “colaborar com uma potência estrangeira que ameaçou Cuba com intervenção militar”. Além disso, foram lidos trechos de uma coluna intitulada “O futuro está aqui”, datada de 19 de janeiro, na qual defendia uma transição pacífica para a democracia.
Embora os dois leigos tenham voltado para casa no mesmo dia, o episódio foi interpretado como uma advertência direta. Gallardo denunciou que a mensagem implícita de que “compartilhar ideias pode constituir crime” contradiz frontalmente princípios democráticos universais que protegem o pluralismo e a liberdade de pensamento.
O ativista também denunciou um mecanismo de assédio do regime comunista: “forçar a aceitação de ‘atas de advertência’ sem base legal”. Ele destacou que isso “constitui uma forma de assédio estatal sistemático, incompatível com os compromissos internacionais assumidos pelo regime cubano em matéria de direitos humanos”. No conjunto, os fatos foram descritos como uma maneira de “pressionar e punir” aqueles que defendem o direito de viver em um país livre.





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