Você nunca vai ler este artigo
Quem gosta de ouvir que o sol brilha? É muito mais engraçado escutar alguém defendendo o contrário. E esta é a razão que dou para provar que você não deveria estar lendo este texto.

Foto: Freepik
Redação (04/02/2026 17:32, Gaudium Press) É triste, mas é a verdade: este artigo não será lido. Mas, de minha parte — a mais interessada, convenhamos —, já estou contente pelo fato de você ter chegado até esta página da imprensa católica. Não é fácil. Parabéns pelo achado!
E, já que chegou até aqui, sabe o leitor por que não era suposto que aqui chegasse?
Muito simples.
Tocas de coelho em sua casa
Há tocas de coelho em sua casa — isso mesmo! —, e mais propriamente no seu bolso. Essa invasão até que nem seria uma praga se, em vez de tais tocas guardarem coelhos, não sugassem você para dentro. Explico-me, porque estou talvez enigmático.
Houve um famoso astro do basquetebol norte-americano que, um belo dia, caiu num desses buracos caseiros. Entrou normal e de lá saiu terraplanista. Sim, esse jogador tão habituado a mexer com bolas voltou de uma toca de coelho com a certeza de que a Terra não é senão um imenso tapete voador no sistema solar… E com tanta convicção, ademais, que o proclamou para todos os tripulantes dessa nave espacial. Depois, mais bem informado, voltou a acreditar que a Terra é redonda e desculpou-se perante seus fãs dizendo que havia caído numa dessas tocas de coelho do Youtube…
Como assim? É sabido e mais que sabido que o Youtube — e, como ele, todos os grandes servidores — utiliza os dados de navegação de seus usuários para recomendar vídeos ou matérias segundo a preferência dos assistentes. Você já deve ter percebido que basta pesquisar duas vezes sobre gatos; à terceira, antes de digitar, já são oferecidos vídeos a mãos-cheias sobre todas as curiosidades felinas. Os seus dados ensinaram a plataforma sobre seus gostos.
Ora, se você por acaso entrar num círculo vicioso em que um vídeo assistido atrai um outro semelhante, e este mais um ainda, e depois um quarto, quinto, trigésimo, milésimo… você entrou numa toca de coelhos — ou de gatos, dependendo do caso. Convindo que, de fato, você gosta muito de felinos, onde está o problema? Em que nem todos esses buracos escondem animais domésticos, felpudos, desleais e simpáticos. Há alguns, pelo contrário, que reúnem teorias terraplanistas — como aquele em que coube um jogador de mais de dois metros —, e outros, piores, que exploram um antissemitismo radical, um ateísmo de profissão, banditismo, terrorismo, e uma gangue de muitos outros “ismos” unilaterais que nos dispensamos de elencar.
Percebe o perigo dessas covas? Não? E se eu lhe disser que, de tanto ouvir uma mentira, uma pessoa passa a acreditar nela? Se eu lembrar, por exemplo, que os grupos terroristas aggiornati fazem seu recrutamento por esses meios, inculcando em muitos jovens, à força de repetição, uma ideologia de assassinato e destruição? Da curiosidade a uma atenção, da atenção a uma propensão, da propensão aos fatos, a distância é mínima se percorrida passo a passo.
Visto que a verdade é chata…
Agora, o interesse das grandes redes sociais não é produzir homens-bomba em série. As notícias bombásticas só produzem um curto boom midiático… O que tais servidores desejam, além de garantir uma profusa comunicação social, é engajar seus usuários o quanto consigam, pois esta é a sua fonte de monetização. Se o produto não é pago — isto se aprende na faculdade de marketing —, o produto é você. E daí, claro, as tais tocas, que correspondem a uma densa concentração de conteúdo para preferências específicas.
Mas isso acarreta uma consequência letal para a mídia de informação: a desinformação. Se uma pessoa deseja ouvir uma só coisa, uma só coisa ouvirá. Ela se empolga por chocolate, digamos, e, portanto, só encontrará notícias apregoando os efeitos altamente benéficos do cacau misturado ao açúcar. As informações fornecidas serão unilaterais. Isto aplicado a temas deveras importantes — quase ao nível do chocolate e dos gatos — toma proporções assustadoras.
Em Washington, por exemplo, um jovem entrou armado numa pizzaria porque tinha assistido a uma vintena de notícias que acusavam aquele restaurante de sequestrar crianças. Era tudo calúnia, e o rapaz que ia salvar a pátria acabou preso… É o poder da mentira repetida.
Imagine isso em uma escala ainda maior: política internacional, epidemias, desastres, índices de criminalidade ou alfabetização, clima global, atualidade da Igreja… Se cada página de internet recomenda aos seus clientes o que eles querem ouvir, o que decorrerá daí? O que já decorreu. Há não muitos anos, em pleno Covid, conseguiram responder por alto à seguinte pergunta estatística: o que corre mais rápido, a notícia verdadeira ou a fake news? Adivinhe só… As fake news eram seis vezes mais disseminadas que as reais. Por quê? Por causa das mencionadas recomendações dos meios de comunicação social.
Visto que, estando o nosso paladar embotado pelo sensacionalismo, a verdade é chata, nada mais natural que essa preeminência da mentira. Quem acha gosto em ouvir dizer que o sol brilha? É muito mais engraçado escutar alguém defendendo o contrário.
E esta é a razão que dou para provar que você não deveria estar lendo este artigo. Não tanto porque seja verdade tudo o que aqui escrevi. Também. Esforcei-me por expor apenas o que me pareceu verdade consumada. O que aqui escrevi, entretanto, não é agradável de saber.
E se você tomou a peito contradizer o título deste artigo, pois não vejo outra razão para ter chegado até esta linha, dou-lhe do fundo do coração os meus parabéns. Você teve a coragem de enfrentar a verdade, mesmo sendo ela tão triste no caso. Se a verdade parece aborrecida aos ouvidos habituados às notícias sensacionais e fantásticas, e ainda por cima contradiz os nossos gostos e costumes, então ela tornar-se amarga.
E amarga porque obriga a uma atitude: doravante, o leitor ou se deixará enganar conscientemente, ou desconfiará das grandes mídias sociais, sopesando e avaliando as notícias que lhe chegam. É duro, mas é o nosso dever de católicos e filhos adotivos da Verdade Eterna.
Por Calisto Soares




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