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Vaticano teme a formação de uma mini-ONU paralela?

O Cardeal Parolin expressou a suave, mas clara, recusa em participar da Junta de Paz para reconstruir Gaza, liderada por Trump.

Cardeal Pietro Parolin e presidente Sergio Mattarella Foto: Vatican Media

Cardeal Pietro Parolin e presidente Sergio Mattarella Foto: Vatican Media

Redação (18/02/2026 14:27, Gaudium Press) No contexto das comemorações dos Pactos de Latrão — acordos assinados em fevereiro de 1929 que reconheceram a soberania do Estado da Cidade do Vaticano após décadas de conflito com a Itália —, o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado da Santa Sé, anunciou que o Vaticano não participará da chamada Board of Peace (Junta de Paz) para Gaza, iniciativa lançada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro de 2026.

A decisão não foi precipitada. O cardeal enfatizou que o tema foi analisado com muito cuidado e profundidade pela diplomacia vaticana. Entre as principais razões está a preocupação com a relação entre esse novo mecanismo e o sistema multilateral já existente. “Uma preocupação é que, no âmbito internacional, a ONU seja a principal responsável pela gestão dessas situações de crise”, declarou Parolin, destacando o papel central das Nações Unidas em conflitos internacionais.

Essa posição levanta a questão: haveria receio no Vaticano de que a Board of Peace pudesse funcionar como uma espécie de ONU paralela, sob o comando de Trump? Embora o cardeal, fiel ao seu estilo diplomático equilibrado, tenha reconhecido o valor da intenção, ressaltando que “o importante é que está sendo feita uma tentativa de dar uma resposta”, mas que “há algumas questões críticas que deveriam ser resolvidas”.

Uma delas provavelmente diz respeito à participação do povo palestino nas decisões sobre seu próprio futuro. Apesar de Trump ter anunciado a inclusão de alguns representantes palestinos, o Vaticano parece considerar que isso ainda é insuficiente e não garante uma representação genuína e soberana.

A recusa já era esperada. Além da demora em responder oficialmente, pesaram as declarações fortes do Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, feitas em 7 de fevereiro de 2026. Ele classificou o quadro da Board of Peace como algo semelhante a uma operação colonialista, em que “outros decidem pelos palestinos”. Seria incoerente uma divergência total entre o principal representante da Igreja Católica na região e a linha oficial da Santa Sé.

Parolin também lembrou o status especial da Santa Sé, que “claramente não é o de outros Estados”. Trump havia solicitado aos participantes um aporte de US$ 1 bilhão para a reconstrução de Gaza — valor inviável para o Vaticano, que não dispõe de recursos financeiros dessa magnitude e prioriza sua atuação moral e diplomática em vez de contribuições econômicas diretas.

No fundo, permanece uma preocupação sutil, mas perceptível nas palavras do Secretário de Estado: o risco de que um grupo seleto de países passe a decidir assuntos de alcance global, tecendo acordos em todo o mundo. Para o Vaticano, um tema tão sensível e inflamável como o conflito no Oriente Médio deveria ser debatido preferencialmente em um cenário que já possui uma longa história de participação mundial.

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