Um dilema: inveja ou restituição?
Ao longo da vida, a Providência pede de nós um ato de restituição, exigindo, possivelmente, a renúncia de certos dons que Ela mesma nos concedeu.
Redação (18/01/2026 13:10, Gaudium Press) O Evangelho deste 2º Domingo do Tempo Comum nos apresenta uma circunstância que se fará presente em algum momento de nossa vida: o convite à restituição.
Restituir consiste em devolver ao dono aquilo que lhe pertence. Ora tudo o que temos foi criado por Deus e, portanto, Lhe pertence. Assim, Ele pode, a qualquer momento, solicitar de nós a entrega desses dons. Como ter forças para realizar essa entrega, e o que nos é prometido como prêmio? Vejamos o que a liturgia nos diz.
O perfil do Precursor
No Evangelho, encontramos São João Batista, o Precursor do Messias, profetizado por Isaías e Malaquias como a “voz que clama no deserto” (Cf. Is 40,3) e que irá à frente “para preparar o caminho do Senhor” (Cf. Ml 3,1).
Santificado por Nossa Senhora e envolto no mistério desde antes de seu nascimento, São João gozava de enorme prestígio perante a opinião pública pela força de suas pregações e, sobretudo, pela integridade de sua vida. A Escritura narra que multidões de toda a Judeia e Jerusalém acorriam para ouvir suas pregações, pois contavam-no como profeta (Cf. Mc 1,5.11,32). A tal ponto chegou sua fama, que houve quem julgasse que João fosse o Cristo (Cf. Lc 3,15).
Tendo como fundo de quadro essa projeção gloriosa da pessoa do Precursor, analisemos a lição que a liturgia nos quer transmitir hoje.
A tentação
“Naquele tempo, João viu Jesus aproximar-Se dele” (Jo 1,29a)
Com o início da vida pública de Jesus, todo o renome e prestígio que São João conquistara estavam condenados a um paulatino desaparecimento. Sobre sua figura reluzente, se estenderá um eclipse, pois apareceu Alguém que lhe é superior. Encontra-se ele numa situação complexa: primeiro, recebe um carisma de pregação, de atração e, em seguida, vê-se obrigado a renunciar a esse dom. Diante dessa situação, a atitude de alguém não virtuoso seria encher-se de ressentimento e de inveja.
“E disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do mundo!’ D’Ele é que eu disse: ‘Depois de mim vem um Homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim’” (Jo 1,29b-30).
Entretanto, não foi o que se deu com o Batista, pelo contrário, com uma total humildade e despretensão, submeteu-se à Vontade Divina, renunciando àquele apanágio que a Providência lhe tinha galardoado e apontou para Nosso Senhor, afirmando: “é necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Na verdade, ele cumpria assim, a finalidade que Deus tinha ao lhe conferir o carisma: indicar às multidões o caminho até o Salvador.
Dons dados para que renunciemos
A liturgia de hoje nos transmite este ensinamento: a Providência pode nos conceder dons para que a eles renunciemos. E como prêmio dessa renúncia, Deus nos concede algo muito maior. Foi o que aconteceu com São João Batista: de que valia toda a consideração que os homens lhe tinham, se comparados com as palavras de Nosso Senhor: “Em verdade vos digo: entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista” (Mt 11,11)?
Agora, imaginemos que, por absurdo, o Precursor não tivesse sido fiel à graça; como o conheceríamos hoje? Não seria mais um daqueles que, apesar de chamados a uma elevada missão, a recusaram, como o moço rico?
Escola Marial
Uma pergunta, entretanto, surge em nossa mente: não é uma renúncia muito difícil de ser feita? Como nós, tão débeis, teremos força para dar esse passo? Olhemos mais uma vez para o exemplo de São João Batista. De onde ele hauriu forças? D’Aquela que lhe ensinou desde o seio materno: “A minha alma glorifica o Senhor; e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador porque olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,46-48). Esta foi a formação dada por Nossa Senhora ao Precursor: humildade e servidão.[1]
Peçamos, portanto, a Ela, que nos conceda graças e força, para que, quando seja exigida de nós essa atitude de renúncia, a realizemos prontamente e com verdadeira generosidade, ou seja, não pelo desejo de receber o prêmio, mas por amor.
Por Artur Morais
[1] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos: comentários aos Evangelhos dominicais. Città del Vaticano-São Paulo: LEV-Instituto Lumen Sapientiæ, 2013, v. 2, p. 21.






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