Ucrânia: Catedral de São Nicolau é devolvida aos católicos por 50 anos
O Ministério da Cultura da Ucrânia decidiu transferir a Igreja de São Nicolau, localizada em Kiev, Ucrânia, para a Comunidade Religiosa da Paróquia de São Nicolau da Igreja Católica, que passará a utilizá-la pelo período de 50 anos.

Catedral de São Nicolau. Destruição em Kyiv após ataque de mísseis russos na manhã de 20 de dezembro de 2024. Fotos: Wikipedia
Redação (18/01/2026 20:42, Gaudium Press) A Catedral de São Nicolau (em ucraniano: Костел Святого Миколая), um dos mais icônicos templos católicos de Kyiv, voltou às mãos da comunidade católica após décadas de disputas. Em 6 de janeiro de 2026, no dia da Festa da Epifania, o Ministério da Cultura da Ucrânia assinou um acordo que transfere o uso gratuito do templo à Paróquia de São Nicolau da Igreja Católica por um período de 50 anos.
História da Igreja e o longo caminho de luta
Construída entre 1899 e 1909 em estilo neogótico pelo renomado arquiteto polonês-kievita Vladyslav Horodetskyi (Władysław Horodecki), a igreja foi erguida com recursos da comunidade católica local, na época em que fazia parte do Império Russo. Com suas torres pontiagudas de 62 metros e vitrais impressionantes, ela se tornou um dos símbolos arquitetônicos da capital ucraniana.
No período soviético, em 1938, o regime comunista fechou o templo, confiscando-o e transformando-o inicialmente em armazém, depois em sede técnica da KGB e, a partir de 1978-1980, na Casa Nacional de Órgão e Música de Câmara. Durante a Segunda Guerra Mundial, o edifício sofreu graves danos, mas foi parcialmente restaurado. A comunidade católica ficou excluída por quase 50 anos.
Após a independência da Ucrânia em 1991, a Igreja Católica começou a lutar pela devolução. Desde 1992, missas e concertos foram permitidos esporadicamente, mas o controle total permaneceu com o Estado. Houve memorandos, decisões judiciais (incluindo do Supremo Tribunal em 2025), petições e apelos internacionais. A luta durou mais de 30 anos, agravada pela burocracia, incêndio em 2021 (que destruiu o órgão histórico) e danos causados por um ataque de mísseis russos em 20 de dezembro de 2024, que quebrou vitrais e afetou as torres.
O acordo de 2026: vitória parcial, mas significativa
O acordo assinado em 2026 permite que a paróquia realize missas regularmente, invista em restauração (por conta própria, respeitando as normas de patrimônio cultural) e devolva a vida religiosa plena ao templo. O edifício continua sendo propriedade do Estado (como monumento nacional), mas agora funciona primordialmente como igreja paroquial.
O pároco, Padre Pavlo Vyshkovsky (oblato de Maria Imaculada), comemorou o momento mesmo em meio à guerra: em 9 de janeiro de 2026, sob bombardeios russos que deixaram Kyiv sem eletricidade, água ou aquecimento, ele destacou que o acordo representa o futuro da paróquia pelos próximos 50 anos. “Não é a justiça plena que buscávamos, mas é o passo certo”, disse.
No dia 6 de janeiro, foi celebrada uma missa em comemoração à Epifania na Igreja de São Nicolau, que contou com a presença da Primeira-Ministra da Ucrânia, Yulia Svyrydenko, da Vice-Primeira-Ministra para Assuntos Humanitários e Ministra da Cultura da Ucrânia, Tetiana Berezhna, a qual destacou:
“Encontramos uma solução pela qual a comunidade receberá o direito legal e de longo prazo de usar a igreja, enquanto o Estado manterá a propriedade dela, garantindo a proteção de seu patrimônio histórico e arquitetônico. A decisão de hoje não é o fim, mas um ponto de partida para seguirmos em frente. À frente está a restauração da Catedral, o retorno dos fiéis e as orações dentro dessas paredes.”
O bispo Vitalii Kryvytskyi, da Diocese de Kyiv-Zhytomyr, viu o acordo como um avanço legal, mas também um sinal das limitações nas relações Igreja-Estado no pós-soviético. “Não consideramos a questão resolvida”, acrescentou. “Os próximos 50 anos são necessários não apenas para reparos essenciais, mas também para encontrar um caminho rumo a uma solução definitiva que permita à igreja servir a Deus e aos fiéis, como foi construída para fazer há mais de cem anos”.
O Núncio Apostólico na Ucrânia, Arcebispo Visvaldas Kulbokas, observou que a transferência da Catedral de São Nicolau é um exemplo de unidade entre os fiéis, o Estado e a Igreja: “Este dia mostra como é importante que o povo, a Igreja e o Estado estejam juntos. O caminho não foi fácil, mas esta é a Ucrânia de hoje: com muitos desafios que só podemos superar com a ajuda de Deus. A Igreja de São Nicolau sempre teve como objetivo ser uma casa de oração e, hoje, vemos essa aspiração se concretizar”.
Esse acordo representa um marco importante para os católicos ucranianos em meio a uma guerra que já ceifou a vida de milhares de pessoas. Que São Nicolau proteja a Ucrânia!






Deixe seu comentário