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Tempo de plantar, tempo de colher e tempo de se recolher

Recentemente, em uma conversa de fim de tarde com um desses apreciadores de palavras, falando de um tempo que, realmente, não será nosso, mas dos que nos sucederem, tocamos no inevitável: a Inteligência Artificial. Falamos sobre como ela ocupará todos os espaços e como o velho mundo parece fugir pelos vãos dos nossos dedos.

Redação (10/02/2026 14:59, Gaudium Press) Já não sou um homem jovem e cada dia que passa traz um peso mais significativo aos meus ombros, que lentamente se encarquilham sob a força da gravidade e dos anos. No entanto, não sou um desses pessimistas profissionais. Digo isso com a tranquilidade de quem viveu o “antigamente”. Os tempos eram mais rudes. Cresci em casas onde o toilette ficava do lado de fora e o chuveiro elétrico era um luxo de ficção científica. O banho era um evento cerimonioso, tomado com o auxílio de um canecão e uma bacia, e a água só conhecia o calor do fogo quando estávamos doentes ou quando o inverno castigava demais a pele.

A multidão e o indivíduo

Éramos tantos irmãos que minha mãe, coitada, frequentemente se perdia na chamada e batizava um pelo nome do outro. Ela conhecia perfeitamente a têmpera de cada um, mas o contingente de meninos era maior que a memória imediata. Em uma família numerosa, as disputas eram acirradas e a realidade era a do aproveitamento: os sapatos e as roupas iam descendo a escada da idade, de modo que raramente um de nós possuía algo que fosse realmente seu, com aquele cheiro de coisa nova.

Claro, tínhamos valores mais definidos e o respeito à hierarquia era um dogma implícito, começando dentro de casa. Cada um sabia o seu lugar e, se porventura o esquecesse, a autoridade do pai e da mãe logo o trazia de volta à geografia doméstica, às vezes com repreensões severas. Isso fazia as coisas mais corretas, talvez, mas não exatamente melhores.

A tirania do “meu tempo”

Irrito-me solenemente com idosos que destilam críticas amargas sobre o presente, tentando usufruir de juventudes que já não possuem. Para mim, só tem um tempo “próprio e extinto” quem já morreu. Para quem ainda respira, o tempo é sempre o agora. Pode ser um presente mal embrulhado, de um tamanho que não nos sirva perfeitamente, mas é o que temos. Enquanto se está vivo, nosso tempo é o hoje.

Falo tudo isso para explicar o meu sumiço de quase três meses. Tive meu tempo de sair e meu tempo de voltar. Um tempo de cansar por dentro e um tempo de acreditar de novo. Sem perceber, fui atropelado pela necessidade de me recolher. Estive, assim, em um hiato necessário, pensando na vida sem a interferência do celular, sem o inventário diário de guerras, ciclones e temporais. Foi um tempo de chuva mansa e de cansaço da minha própria voz.

O fantasma da Inteligência Artificial

O bonito do ser humano é o poder de ir e vir, deixando portas abertas para o retorno. As coisas não mudaram muito lá fora enquanto eu estava no meu recolhimento, mas devo ter deixado algum rastro de saudade. Vez ou outra, um leitor me abordava: “O que houve, seu Afonso? Quando o senhor volta?”.

Recentemente, em uma conversa de fim de tarde com um desses apreciadores de palavras, falando de um tempo que, realmente, não será nosso, mas dos que nos sucederem, tocamos no inevitável: a Inteligência Artificial. Falamos sobre como ela ocupará todos os espaços e como o velho mundo parece fugir pelos vãos dos nossos dedos. Pela minha idade, pelos desarranjos da pressão e pelo encarquilhamento da minha coluna, certamente não estarei aqui para ver o desfecho dessa revolução digital. Mas, enquanto estou, não posso minimizar a força da minha caneta.

O recomeço necessário

Por isso, de alma leve, resolvi voltar. Até quando, não sei; isso pertence ao tempo de Deus. Peço apenas que Ele me permita usar bem o dom que me deu. Eu só precisava de um descanso. Este tempo presente — que é o meu, o dos meus velhos pares, o da juventude de vocês e o da alegria da criança que desabrocha — é a casa onde morarei até que meus dias se esgotem.

Só então, em algum lugar que desconheço, mas pelo qual anseio, poderei finalmente dizer: “No meu tempo as coisas eram assim”, porque estarei na eternidade, no infinito sem-tempo do Criador. Por enquanto, sigo aqui, o velho Afonso de sempre, com minhas rabugices e minhas palavras, esperando merecer um pouco do seu tempo.

Como bem ensina o Eclesiastes: “Há tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las” (Ec 3,5). Tive o meu tempo de espalhar reflexões; que eu tenha agora o tempo de ajuntar vocês novamente em torno destas linhas. Até breve!

Por Afonso Pessoa

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