São Francisco de Sales, suave e combativo
Dotado de admirável suavidade para com os bons, São Francisco de Sales batalhou contra os inimigos da Igreja e converteu cerca de 72.000 hereges.
Redação (23/01/2026 11:43, Gaudium Press) Descendente de nobre família, nasceu São Francisco em 1567, no Castelo de Sales, próximo à cidade de Annecy – Norte da França. Ainda criança, reunia os meninos que moravam nas cercanias e lhes ensinava o Catecismo. Aos onze anos, seu pai o enviou a Paris para aprimorar seus estudos.
Cursou Retórica e Filosofia no colégio dos jesuítas, obtendo brilhante êxito. Aprendeu hebraico, grego e estudou Teologia. E, como todo jovem nobre, esmerou-se na arte da equitação bem como no manejo de armas. Passados seis anos, fez voto de castidade perpétua porque desejava ser sacerdote e voltou ao seu castelo.
Partiu em seguida para Pádua – Itália – a fim de estudar Direito na célebre Universidade ali existente. Usava traje de cavaleiro, cingido com espada. Certo dia, alguns rapazes abjetos o insultaram e ameaçaram golpeá-lo. Ele desembainhou seu gládio e os agressores puseram-se a correr de medo; o Santo os perseguiu, os encurralou e os facínoras lhe pediram perdão.
Pessoas ímpias prepararam-lhe armadilhas a fim de que ele perdesse sua castidade, mas nosso herói sempre reagiu com indignação, mantendo ilibada sua pureza.
Tendo concluído os cursos de Direito canônico e Direito civil, aos 24 anos, realizou-se uma solenidade para outorgar-lhe o título de Doutor. Depois o levaram em triunfo à sua casa sendo aplaudido pelo povo. Era de alta estatura, cabelos castanhos, testa larga, olhos azuis, sobrancelhas elevadas e bem arqueadas.
Companhia de infantaria ou cavalaria contra hereges
Regressou ao seu castelo, foi ordenado sacerdote e nomeado presidente do cabido de Genebra. A capital da Suíça e regiões da França circunvizinhas estavam dominadas ou infestadas pelos calvinistas, que destruíam igrejas e faziam todo tipo de atrocidades.
Afirma o Padre Rohrbacher: “Genebra se tornou calvinista devido, sobretudo, à ‘canalha bastarda dos padres e monges apóstatas, a pior espécie entre a pior gente’”.[1]
Nosso Santo escreveu carta ao Duque de Saboia – território francês junto à Suíça –, recomendando-lhe que “criasse uma companhia de infantaria ou cavalaria com a juventude, que se perdia na ociosidade, para sujeitá-la à ordem e obediência por meio da disciplina militar, a fim de se opor, em caso de necessidade, às invasões promovidas pelos hereges”.[2] E pedia que os calvinistas fossem excluídos de todos os cargos públicos.
Fazendo apostolado numa região da Saboia que ficara calvinista, visitava as casas acompanhado de seu criado, caminhando a pé. Certo dia de inverno, perdeu-se e encontrou uma aldeia. Bateu nas portas das casas pedindo ajuda, pois estavam a ponto de morrer de frio. Ninguém o atendeu porque eram calvinistas.
Deus, que jamais abandona os seus filhos, ajudou-o a encontrar um forno ainda quente. Ali se alojaram como puderam, e assim salvaram suas vidas.
Tendo realizado muitas conversões, alguns calvinistas procuraram matá-lo. Numa noite, estando ele numa casa em orações, ouviu ruídos estranhos e se escondeu num compartimento; os criminosos arrombaram a porta, vasculharam a residência, não o viram e se retiraram.
Calvinistas recusam debate público
Os calvinistas realizaram uma assembleia durante a qual afirmaram ser necessário estudar o meio de deter as conversões. O Santo, então, convidou-os para um debate público. Os hereges não aceitaram, mas um de seus líderes pediu uma conversa particular com o varão de Deus, que o atendeu e obteve sua conversão. Cheios de ódio, os chefes calvinistas assassinaram o recém-convertido…
Horrorizados com esse crime hediondo, muitos hereges rejeitaram seus erros e se tornaram católicos.
Teodoro de Beza, sucessor de João Calvino e chefe supremo da heresia por este fundada, residia em Genebra. Por recomendação do Papa Clemente VIII, o varão de Deus convidou-o para vir à sua casa. São Francisco tinha 30 anos e Beza 77. Após a terceira conversa, o chefe calvinista quis se converter e procurou fugir de Genebra, mas seus asseclas o impediram. Alguns anos depois, estando à beira da morte, ele acusou os calvinistas de serem a causa de sua condenação eterna.
Apostolado em Paris
Em 1599, Clemente VIII o nomeou bispo coadjutor de Genebra e o convocou para viajar a Roma a fim de examinar seus conhecimentos. Num amplo salão do Vaticano, o Papa estava sentado no trono, ladeado por oito cardeais, vinte arcebispos, diversos bispos e superiores de Ordens religiosas. Entre os examinadores, encontrava-se São Roberto Belarmino, inquisidor e cardeal. Ele respondeu às questões com tal sabedoria que o Pontífice desceu do trono, o abraçou e sagrou bispo.
O Bispo de Genebra, em 1602, o enviou a Paris para falar com o Rei Henrique IV e lhe mostrasse a necessidade de fazer cessar as invasões de igrejas promovidas pelos calvinistas. O monarca o recebeu, mas nenhuma providência foi tomada…
A pedido de uma duquesa, fez homilias na Corte durante a quaresma, estando presentes dignitários eclesiásticos, príncipes, nobres, doutores da Sorbonne e senhoras de alta linhagem.
Madame Acarie, de insigne família e mãe de seis filhos, confessou-se com o Santo e almejou ser religiosa. Quando enviuvou, tornou-se carmelita descalça com o nome de Maria da Encarnação. Foi beatificada e sua memória é celebrada em 18 de abril.
Recusou ser nomeado Cardeal
Tendo falecido o Bispo de Genebra, o varão de Deus viajou para uma cidade da Saboia, a fim de tomar posse da diocese. No início da Missa, ajoelhou-se, seu rosto ficou radiante e ele permaneceu imóvel durante 30 minutos. Perguntado, afirmou que viu a Santíssima Trindade, Nossa Senhora, São Pedro e São Paulo.
O Parlamento da Borgonha pediu-lhe que fosse pregar durante a quaresma, em Dijon – Nordeste da França. Antes de iniciar a viagem, fez um retiro no Castelo de Sales, que se transformara numa espécie de mosteiro. Teve um êxtase no qual viu uma senhora de grande estatura e duas moças ao seu lado. Entendeu significarem as religiosas da Ordem que ele iria fundar.
Na cidade de Dijon, conheceu a filha do presidente do Parlamento da Borgonha e esposa do Barão de Chantal: Joana de Chantal. Quando ela o viu, reconheceu ser o guia que contemplara numa visão, e o Santo compreendeu que era a senhora vista no êxtase do Castelo de Sales.
Leão XI, sucessor de Clemente VIII, desejou outorgar-lhe a dignidade de cardeal, mas ele implorou que não o fizesse.
A respeito desse grande Santo, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira comentou:
O calvinismo, com seus rigores horrorosos, “fez um grande mal à Europa. Doutor da doçura e da suavidade, São Francisco de Sales tinha um verdadeiro carisma para fazer sentir os aspectos doces da Religião Católica e levar as almas, através da doçura, a realizar verdadeiros sacrifícios, maiores e mais numerosas penitências do que os hereges impunham aos seus sequazes”.[3]
Por Paulo Francisco Martos
Noções de História da Igreja
[1] ROHRBACHER, René-François. Vida dos Santos. São Paulo: Editora das Américas. 1959, v. II, p. 254.
[2] HAMON, Andrés. Vida de San Francisco de Sales. Buenos Aires: Editorial Difusion. 1948, v. I, p. 176.
[3] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Doutor da doçura e da suavidade. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XXII, n. 250 (janeiro 2019), p. 2.






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