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Sangue e fogo

São Policarpo tinha grande autoridade entre os cristãos por ter sido formado por São João Evangelista. Ele dirigiu-se a Roma coma finalidade de combater os hereges que lá existiam e dissipar seus erros.

São Policarpo tinha grande autoridade entre os cristãos por ter sido formado por São João Evangelista. Ele dirigiu-se a Roma coma finalidade de combater os hereges que lá existiam e dissipar seus erros.
Redação (11/09/2020, 14:10, Gaudium Press) São Policarpo recebeu a insigne graça de ser discípulo de São João Evangelista, que o ordenou Bispo de Esmirna, cidade da atual Turquia. Escreveu uma célebre epístola dirigida aos filipenses e é considerado Padre Apostólico por ter convivido com um Apóstolo de Nosso Senhor.

Designou um herege como sendo o “primogênito de satanás”

Escreve São João Bosco:
“Chegando ao conhecimento de São Policarpo […] a notícia do grande número de hereges que tinham ido a Roma, dirigiu-se ele também para essa cidade no pontificado de
Santo Aniceto, sucessor de São Pio I, com o fim de dissipar seus erros.

“Sua ida a Roma foi muito oportuna porque, tendo sido ele um dos que conversaram com os Apóstolos, gozava sobre todos de uma grande autoridade e, como disse Santo Irineu, muitos dos que se tinham deixado seduzir pelos erros de Valentim e de Marcião – hereges gnósticos – voltaram para a Igreja de Jesus Cristo, mediante a eficácia de sua palavra.”

Certo dia Marcião apresentou-se diante de São Policarpo e perguntou-lhe: “Conheces-me, sabes quem eu sou?” “Sim, respondeu-lhe o santo bispo, conheço-te muito bem, és Marcião, primogênito de satanás.’”

São Policarpo tinha grande autoridade entre os cristãos por ter sido formado por São João Evangelista. Ele dirigiu-se a Roma coma finalidade de combater os hereges que lá existiam e dissipar seus erros.

As chamas se estendiam ao seu redor, mas não o queimavam

São Policarpo regressou a Esmirna e, tendo se reiniciado a perseguição contra os cristãos, foi preso estando já com 86 anos de idade. Levado diante do procônsul, o Santo o invectivou firmemente. Então, a multidão formada no local repetiu aos gritos que ele deveria ser queimado vivo. Em seguida, conduziram-no para o anfiteatro, onde “acorreu todo o povo em busca de lenha. Os judeus, segundo o costume, eram os mais apressados”.

Amarrado num poste colocado no meio da pilha de lenha, São Policarpo fez uma bela oração em voz alta. Atearam fogo e houve um milagre: as chamas não o queimavam, mas se estendiam em torno dele formando uma auréola, exalando um agradável perfume. Então, um soldado enfiou uma espada no peito do Santo. Da enorme chaga jorrou tanto sangue que apagou o fogo, e sua alma foi acolhida nos esplendores do Padre Eterno.

Por fim, o corpo do Santo foi queimado, mas os cristãos conseguiram retirar alguns ossos para venerá-los como relíquias. Era o ano de 155.

Um venerável ancião aborda São Justino

Outro santo que reluziu nessa época foi São Justino, nascido de uma família grega pagã numa cidade próxima a Jerusalém.

Desde a juventude dedicou-se com afinco e amor ao estudo da Filosofia e, tomando conhecimento da coragem dos mártires diante da morte, começou a ter por eles grande admiração.

Estando numa localidade desértica próxima ao mar, onde desejava viver no silêncio para meditar sobre a sabedoria, certo dia aproximou-se dele um ancião venerável que entabulou com São Justino uma atraente conversa, na qual lhe explicou que a verdadeira sabedoria está contida na Doutrina Cristã. O diálogo durou bastante tempo, e por fim o ancião desapareceu inexplicavelmente.

Ele converteu-se, foi batizado e posteriormente dirigiu-se a Roma onde tomou contato com os cristãos ali residentes e abriu um estabelecimento de ensino, o qual foi a primeira escola católica que formava seus alunos com base na Fé.

Ameaça dirigida ao Imperador

Passado algum tempo, São Justino dirigiu-se a algumas regiões da Ásia para fazer apostolado. Encontrando-se numa praça pública da cidade de Éfeso, foi abordado por um grupo de judeus, dirigidos por Trifão, “um dos mais famosos hebreus de então”. Tal era sua sabedoria que Trifão ficou muito impressionado, e o diálogo entre ambos se prolongou por vários dias.

Sintetizando essas conversas, São Justino escreveu Diálogo com Trifão, onde faz luminosas explicações, entre outros temas, sobre a lei mosaica, os profetas, Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santíssima Trindade.

A fim de defender a Santa Igreja, ele redigiu uma Apologia dirigida ao Imperador Antonino Pio, a seu filho, bem como ao Senado e ao povo romano. Convém saber que o termo “pio” – piedoso – foi acrescentado ao nome de Antonino porque ele deificou seu pai adotivo, Adriano…

Em determinado trecho, São Justino faz esta tremenda ameaça ao Imperador:
“Vós podereis nos condenar à morte, mas a sentença que pronunciardes contra nós recairá sobre vossa cabeça nos suplícios eternos.”
Após ler essa magnífica obra, Antonino Pio assinou um decreto pondo fim à terceira perseguição geral contra a Igreja, que fora iniciada por Trajano.

Marco Aurélio: um pagão empedernido e de má fé

Com a morte de Antonino Pio, o Império foi assumido por seu filho adotivo Marco Aurélio, a respeito do qual escreveu Daniel-Rops:
“A nobreza da sua alma, a elevação do seu caráter e a sua constante preocupação humanitária e moral faziam dele, já aos olhos dos seus contemporâneos, um dos mais belos tipos que o mundo conhecera.”

Tendo sua filha, com 16 anos de idade, ficado possessa do demônio, Marco Aurélio mandou chamar para exorcizá-la Santo Abércio, Bispo de Hierápolis, cidade da atual Turquia, o qual profligara o paganismo e realizara grandes milagres.

O Santo recebeu uma revelação divina recomendando-lhe que fosse a Roma para o bem da Igreja. Após demorada viagem, ele chegou ao Palácio Imperial e expulsou o demônio da jovem.

Comentando esse fato, afirma Dr. Plinio Corrêa de Oliveira:
“Temos, então, a confrontação deste grande Santo não mais com a população, mas com Marco Aurélio, considerado um pináculo da sabedoria romana e o receptáculo de todos os ensinamentos morais dos grandes mestres
do paganismo.

“Acontece que Marco Aurélio, dentro dessa manifestação da veracidade da Religião Católica, não se converte e mostra bem o que ele é: um pagão empedernido no paganismo e de má-fé.”
Tendo Marco Aurélio iniciado nova perseguição aos cristãos, São Justino escreveu outra Apologia, mas o Imperador não se comoveu. No ano 165, ele foi preso e, juntamente com seis discípulos, condenado à morte.

Caminhando em direção ao local do suplício, eles cantavam hinos em louvor de Deus. Por fim foram flagelados e decapitados a machadadas.

 

Por Paulo Francisco Martos
(in Noções de História da Igreja – 26)

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1- SÃO JOÃO BOSCO. História Eclesiástica. 6 ed. São Paulo: Salesiana, 1960, p. 48-49.
2- ROHRBACHER, René-François. Vida dos Santos. São Paulo: Editora das Américas. 1959, v. II, p.186.
3- SÃO JUSTINO. I e II Apologias. Diálogo com Trifão. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1995, p. 11.
4- Cf. DARRAS, Joseph Epiphane. Histoire Génerale de l’Église. Paris : Louis Vivès. 1889, v. VII, p. 149.
5- Cf. Idem, ibidem, p. 160.
6- DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo: Quadrante. 1988, p. 177.
7- CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Abércio, o fulminante. In Dr. Plinio, São Paulo. Ano XVI. N. 187 (outubro 2013), p. 31.

 

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