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Quarta-feira de Cinzas: por que receber cinzas?

As cinzas são um sacramental, um convite universal à conversão, à penitência e à reflexão sobre nossa fragilidade e nossa dependência de Deus. Todos devem recebê-las.

Foto: divulgação

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Redação (17/02/2026 09:31, Gaudium Press) Por meio do Ciclo Litúrgico, com sabedoria e didática, rememora a Igreja, ao longo do ano, os mais importantes episódios da existência terrena de Nosso Senhor Jesus Cristo. As solenidades da Anunciação e do Natal, as comemorações do Tríduo Pascal e da Ascensão de Nosso Senhor aos Céus, entre outras, compõem um variado caleidoscópio, apresentando à piedade dos fiéis diferentes aspectos da infinita perfeição de nosso Redentor. As graças dispensadas pela Providência em cada um desses momentos históricos revivem, de certo modo, e se derramam sobre aqueles que devotamente participam dessas festividades.

Precedendo as solenidades mais importantes — o Nascimento do Salvador e sua Paixão, Morte e Ressurreição — a Igreja destina dois períodos de preparação: o Advento e a Quaresma, pois convém que, para celebrar tão elevados e sublimes mistérios, os fiéis purifiquem suas almas das misérias e apegos, tornando-as mais aptas a receber as dádivas celestes.

Quarta-feira de cinzas

Na Quarta-Feira de Cinzas têm início a Quaresma. Ao longo de suas seis semanas, a graça nos convida a uma sincera mudança de coração. O jejum, a oração e a esmola são sinais sensíveis da penitência com que nos preparamos para comemorar o acontecimento central da História da Salvação: a Ressurreição do Senhor, celebrada no Domingo de Páscoa.

Um tipo de penitência que agrada especialmente a Deus e que é essencial para nossa vida espiritual: evitar os exageros do amor próprio, procurando não atrair as atenções dos outros sobre si mesmo, de maneira que a alma, limpa e ornada da virtude da humildade, ofereça ao Senhor um sacrifício de agradável perfume.

Cinzas: sinal de penitência

Eloquente imagem da fragilidade humana e da futilidade dos bens deste mundo, as cinzas foram desde os mais antigos tempos sinal de luto e de dor, inclusive fora do âmbito do povo de Israel. Para este, elas simbolizavam a humilhação ou a penitência do homem diante de Deus. As páginas da História Sagrada estão cheias de episódios em que os israelitas se servem das cinzas para reconhecer o nada da natureza humana diante dos desígnios do Altíssimo, antes de pedir o auxílio da onipotência divina.

Desde os primeiros tempos da Era da Graça, os cristãos adotaram essa forma de manifestar a contrição e a dor, segundo é atestado por inúmeros documentos. E com o tempo, o uso da cinza foi incorporado ao rito penitencial público mediante o qual era administrado, no início da Quaresma, o Sacramento da Reconciliação.

Em Roma, por exemplo, consta que esse rito era celebrado, já no século VII, na Quarta-Feira anterior ao primeiro domingo da Quaresma. Nos casos de faltas graves e públicas, o confessor envolvia o penitente com uma veste ordinária de saco, que cobria de cinza, para depois expulsá-lo do templo com estas palavras: “Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris: age pænitentiam ut habeas vitam æternam – Lembra-te homem, que és pó e ao pó hás de voltar; faz penitência a fim de teres a vida eterna”.

Logo após, o pecador partia para lugares afastados, mosteiros fora da cidade ou, em certos casos, a própria casa, onde deveria fazer penitência ao longo de toda a Quaresma, para ser readmitido na comunidade só na Quinta-Feira Santa.

Com o passar do tempo foi crescendo o número de fiéis que se associava de forma espontânea a esses ritos de penitência, desejando, movidos pela devoção, receber as mesmas cinzas com que eram cobertos os pecadores arrependidos. E quando a progressiva suavização das formas de penitência pública e a evolução do Sacramento da Reconciliação rumo à sua forma atual fez desaparecer esta severa cerimônia disciplinar, o rito das cinzas, somado ao jejum mais rigoroso desse dia, mantiveram-se como manifestação penitencial do início da Quaresma.

Assim, já no século XI a imposição das cinzas, antigamente reservada para os pecadores públicos, tornar-se-á obrigatória para leigos e clérigos.

A imposição das cinzas

A reforma litúrgica conciliar inseriu a cerimônia de imposição das cinzas no seio da Celebração Eucarística desse dia, embora, em caso de necessidade, possam ser administradas fora da Missa, durante uma Liturgia da Palavra.

Segundo um costume iniciado no século XII, a cinza imposta aos fiéis nesse dia é obtida pela combustão dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano precedente. Isto ressalta ainda mais a futilidade das glórias deste mundo, voláteis como a cinza que o vento leva e efêmeras como os louvores dados ao Salvador ao entrar em Jerusalém, logo mudados em gritos de condenação.

Quando nos aproximamos do sacerdote para receber as cinzas ele traça sobre nossa testa de forma bem visível o sinal da Redenção, pois não devemos ocultar diante o mundo a nossa Fé cristã, nem devemos sentir vergonha em reconhecer nossa necessidade de conversão. E, enquanto o ministro de Deus as impõe, proclama uma destas duas frases bíblicas: “Lembra-te, homem, que és pó e ao pó hás de voltar” (cf. Gn 3, 19) ou “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).

A cerimônia de bênção e imposição das cinzas é um sacramental por cujo intermédio a Santa Igreja intercede ante seu Divino Esposo pelos fiéis que se acolhem a esta cerimônia e implora para eles graças de penitência e conversão.

Assim, quando ao abençoar as cinzas o sacerdote pede que Deus derrame sua bênção sobre os que vão recebê-las de forma que, “prosseguindo na observância da Quaresma, possam celebrar de coração purificado o mistério pascal” ou possamos “pela observância da Quaresma, obter o perdão dos pecados e viver uma vida nova”, devemos ter certeza de que, ao receber sobre nossa fronte as cinzas tornadas sagradas, Deus fortalecerá com sua graça os nossos bons propósitos para esse período de penitência.

Após a cerimônia, a fronte dos fiéis fica marcada por um traço escuro cujo aspecto trágico e carente de beleza parece proclamar: “De uma hora para outra, podemos ser levados pela morte, retornando ao pó!”.

A consideração da árdua passagem desta vida para a eternidade muitas vezes nos inquieta. Entretanto, tal pensamento é altamente benfazejo para compenetrar-nos da necessidade de evitar o pecado que, sem o arrependimento e o imerecido perdão, poderá fechar-nos, para sempre, as portas do Céu: “Lembra-te de teu fim, e jamais pecarás” (Eclo 7, 40).

Com as cinzas, símbolo da morte, ao longo da caminhada quaresmal, morreremos ao pecado com Cristo, e, limpos de nossas faltas, ressuscitaremos com Ele, fortalecidos para a vida nova da graça. Aproveitemos mais este poderoso auxílio que Deus coloca ao nosso alcance e não tenhamos medo de fazer propósitos ousados que nos levem a uma efetiva mudança de vida.

Fonte: Arautos do Evangelho

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