Perseguição à Igreja na Nicarágua: reengenharia social em uma nação católica
Mais de 1.000 ataques documentados desde 2018 demonstram um plano para aniquilar a fé católica no país centro-americano.

Catedral de Matagalpa
Redação (30/01/2026 12:26, Gaudium Press) Parece uma eternidade desde que uma parcela nada desprezível do clero da Nicarágua acreditou nas promessas do sandinismo, quando este retornou ao poder em 2007. Mal se passaram 10 anos e, com Ortega já firmemente entrincheirado no poder, começou uma perseguição anticatólica sem precedentes no país centro-americano.
O sétimo relatório “Nicarágua: uma Igreja perseguida”, elaborado pela advogada Martha Patricia Molina e publicado em setembro do ano passado, documenta 1.010 ataques diretos contra a Igreja Católica desde abril de 2018, quando o regime de Daniel Ortega e Rosario Murillo iniciou uma campanha sistemática de hostilidade após o apoio da Igreja aos protestos pacíficos contra a reforma da previdência social.
A estratégia repressiva do regime sandinista se refinou ao longo do tempo, passando da violência aberta para métodos mais sutis, porém igualmente devastadores. Em 2025, embora o número de agressões registradas tenha caído para 32 casos—em comparação com o pico de 321 em 2023—, a realidade não reflete uma melhora, mas sim a submissão total da Igreja. Os clérigos são silenciados sob ameaça: “quem fala vai preso e desterrado”, conforme depoimentos.
Igreja amordaçada e vigiada
Mais de 95% dos cerca de 500 sacerdotes que ainda permanecem na Nicarágua são alvo de monitoramento diário por agentes do Estado. A Polícia Nacional revisa sistematicamente os celulares dos religiosos para fiscalizar suas comunicações, enquanto as prefeituras exigem dos párocos relatórios semanais detalhados de todas as suas atividades. As homilias dominicais devem ser “totalmente teológicas”, sendo proibida qualquer referência à realidade social do país.
Essa vigilância meticulosa se traduz, segundo a pesquisadora Molina, em aproximadamente 425 agressões diárias que não podem ser denunciadas e, portanto, são invisíveis nas estatísticas oficiais. A ditadura também instituiu uma rede de paramilitares juramentados, cuja função específica é intimidar, denunciar e aterrorizar fiéis e clérigos.
Confiscações, exílios: desmantelamento sistemático
Entre os fatos mais recentes dessa perseguição destaca-se a invasão, em 29 de janeiro de 2025, da Clínica Nazareth, em San Rafael del Norte, Jinotega, pertencente à ordem franciscana. Essa instituição, parte do legado do servo de Deus Frei Odorico D’Andrea — cuja causa de beatificação tramita no Vaticano—, oferecia serviços médicos especializados em odontologia, ginecologia, medicina interna, psicologia e outras áreas para comunidades carentes, organizando até dez brigadas médicas internacionais por ano.
Dias antes, em 24 de janeiro, a polícia sandinista já havia confiscado as instalações da Fundação Odorico D’Andrea, dedicada a projetos sociais e de desenvolvimento, além de veículos e equipamentos. Também foi tomado o Templete Divina Providencia, local de peregrinação onde multidões homenageavam o frade franciscano.
No mesmo mês de janeiro, mais de 30 religiosas clarissas foram obrigadas a abandonar seus mosteiros em Manágua, Matagalpa e Chinandega, em uma operação descrita como uma “noite de terror”: as religiosas enclausuradas em oração incomodavam Ortega e sua peculiar consorte. Antes disso, em 2024, o regime já havia confiscado o Seminário Maior de Filosofia São Luís Gonzaga e o Centro Diocesano de Pastoral La Cartuja, em Matagalpa —diocese do Bispo Rolando Álvarez, exilado desde janeiro de 2024 e alvo das piores perseguições do regime.
O balanço da perseguição
De acordo com o relatório de Molina, 266 religiosos foram expulsos, desterrados ou exilados desde 2018, com os anos de 2023 e 2024 registrando os maiores números: 63 e 64, respectivamente. Entre os casos mais emblemáticos estão os bispos Rolando Álvarez, Silvio Báez e Carlos Enrique Herrera.
A repressão contra manifestações públicas de fé foi igualmente brutal. Desde 2019, o regime proibiu ou reprimiu 16.564 procissões religiosas, incluindo 11.763 procissões tradicionais e 4.800 apenas em 2024. As procissões da Semana Santa, as peregrinações e as Vias-sacras a céu aberto estão completamente vetados, tornando a Nicarágua o único país de tradição católica no mundo onde essas expressões de fé são proibidas.
Para a Semana Santa de 2025, o governo anunciou o deslocamento de 14.000 policiais e mais de 2.000 viaturas “para garantir as festas turísticas”.
Um projeto de aniquilamento espiritual
O que está acontecendo na Nicarágua vai muito além da mera repressão política. O regime Ortega-Murillo empreendeu um projeto de engenharia social que busca, nas palavras de Martha Patricia Molina, “aniquilar por completo a fé do povo católico” e destruir “a comunhão que existe entre a Igreja Católica e o Vaticano”.
Essa perseguição sistemática lembra os métodos usados por regimes totalitários do século XX contra comunidades de fé. A diferença está no fato de que a Nicarágua é um país de maioria católica (cerca de 50%) e evangélica (33%), onde, paradoxalmente, o próprio Ortega afirma professar a fé católica. Essa contradição revela a natureza profundamente ideológica da perseguição: a Igreja é vista como obstáculo ao controle absoluto que o casal presidencial pretende exercer sobre todos os setores da sociedade.
A proibição de procissões —mais de 16 mil em sete anos — não é apenas um ataque à liberdade religiosa, mas uma tentativa deliberada de impedir a expressão visível da fé católica no espaço público.
A estratégia atual do regime é particularmente perversa: manter as estruturas eclesiais formais enquanto as esvazia de conteúdo profético e as transforma em instrumentos de controle. Os colégios católicos que ainda funcionam estão “extorquidos pela ditadura sandinista” e obrigados a “participar e executar atividades próprias das instituições do Estado”, conforme documenta Molina.
Essa Igreja amordaçada, vigiada e dizimada, no entanto, não foi vencida. O fato de que 95% dos sacerdotes permaneçam no país apesar do terror, que as paróquias busquem “outras soluções” celebrando procissões no interior das igrejas e que os fiéis continuem se reunindo apesar da intimidação demonstra a resiliência de uma fé que o regime não conseguiu extinguir.
Como afirmou María, uma cristã nicaraguense cujo testemunho foi recolhido por fontes como Open Doors: “Este ano, negaram novamente o status legal da minha igreja, mas, aprovado ou não, continuamos pregando a palavra de Deus”. É esse testemunho silencioso, porém persistente, que constitui a verdadeira resistência da Igreja na Nicarágua.
E a comunidade internacional? Apesar das condenações que não faltam, parece que o próprio fórum internacional se resignou à situação do país. É evidente que a recente intervenção dos Estados Unidos na Venezuela renovou as esperanças de que, nem que seja por temor, haja algum alívio na cruel perseguição na Nicarágua.





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