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O tigre, o abade e o ditador

E o Presidente pediu ao abade: “Dom Chautard, coloque-me na lista de seus amigos.” O tigre encontrava um domador.

Mao clemenceau chautard

Redação (16/02/2026 11:47, Gaudium Press) “A política é uma guerra sem derramamento de sangue; e a guerra é uma política com derramamento de sangue”.

Esta frase pertence ao ditador chinês Mao Tsé-Tung, extraída de seu ensaio Sobre a Guerra Prolongada (1938), escrito no contexto da resistência chinesa à invasão japonesa. Ironia trágica reside no fato de que o próprio autor desta máxima liderou uma política acentuadamente marcada pelo derramamento de sangue, pois, sem estar em período de guerra, seu governo comunista matou cerca de 65 milhões de pessoas, — número que supera a soma das vítimas dos dois grandes conflitos mundiais. É de se admirar ter ele formulado com arte uma verdade que contrariou na prática de seu próprio governo.

Entretanto, esta sentença confunde ao ser aplicada ao ditador chinês, mas se torna clara se aplicada ao democrata da segunda foto: trata-se de Georges Clemenceau, homem que de fato incarnou o princípio de Mao Tsé-Tung, pois foi diplomata durante a guerra, e soldado em tempos de paz.

Diplomata na guerra e soldado em tempo de paz

Clemenceau nasceu na França, em 1841. Decidiu ingressar em medicina a exemplo de seu pai, mas depois seguiu a carreira política. Por diversos meios, muitos deles ilícitos e corruptos, ele chegou a galgar altos cargos. Naquele tempo a política exigia manobras desonestas – bem ao contrário de nossos tempos, como se sabe –, mas não dispensava inteligência, característica que abundava neste personagem. Sua atuação mais marcante neste campo ocorreu quando assumiu o cargo de Presidente do Conselho (primeiro-ministro) na primavera de 1917. Vale lembrar que o mundo estava em plena guerra…

A foto nos revela um homem de um ímpeto enérgico, a bem dizer quase animalesco – não é à toa que o apelidavam tigre. Não gostaríamos de comprar sua inimizade, mas pagaríamos para não sermos seus amigos. Esta característica arrojada do Presidente fez com que levasse o combate até suas últimas consequências, crendo numa vitória contrariada pelas derrotas e greves. Como dizíamos, ele foi um ótimo diplomata durante este período, pois a diplomacia não consiste em simplesmente evitar a guerra, mas também em saber fazê-la na hora certa e sustentá-la nos momentos incertos. A guerra é coisa demasiadamente séria para deixá-la somente nas mãos dos generais…

No entanto, o tigre foi também soldado. Sua grande batalha não foi em tempo de guerra, mas em plena paz civil — contra a Igreja. Com um anticlericalismo mais acentuado que as linhas de seu bigode, ele perseguiu inúmeras congregações religiosas, dispersando sacerdotes e fechando seminários em grande quantidade. Neste caso, revelou-se um péssimo diplomata: entrou em guerra com Deus, o Senhor dos exércitos.

 A fim de ilustrar sua irreligiosidade, conto um fato ocorrido em 1919, quando Clemenceau estava convalescente após sofrer uma tentativa de assassinato. Bento XV, informado do ocorrido, enviou-lhe a benção apostólica como gesto de compaixão por suas dores, recebendo esta resposta desabusada: “avise-lhe que eu envio também a minha”. Dispenso-me de narrar outras blasfêmias semelhantes. Em suma, era um homem cuja impiedade Sodoma reprovaria, mas que Paris aclamava.

De abade a domador

Na terceira foto, contemplamos não um ditador sanguinário nem mesmo um democrata ímpio, mas um religioso santo.

Olhar de uma profundidade oceânica envolto em mistérios luminosos, de uma clareza e transparência exclusiva dos homens que penetraram os segredos divinos. Sua grandeza incute certo temor, que não repudia, pelo contrário, inspira reverência. Dele sim pagaríamos para possuir a amizade.

A foto retrata Dom Jean-Baptiste Chautard, abade da trapa francesa de Sept-fonts, justo no período em que Clemenceau impulsionava a feroz a perseguição religiosa.

Aos 19 anos, ingressou na vida religiosa, passando por diversos mosteiros até chegar a Sept-Fons onde padeceu a paixão da Igreja, promovida pelo Estado por meio de ímpias leis. Todavia, quando as novas legislações atingiram um ápice, ordenando o fechamento de congregações religiosas, inclusive a sua, Dom Chautard foi incumbido de redigir um documento em defesa da liberdade dos monges. Após enviá-lo ao governo, dirigiu-se pessoalmente ao Presidente do Conselho em fevereiro de 1903.

No encontro, Clemenceau mostrou-se agressivo diante do abade, como um homem de Estado que impõe sua presença pela força. Dom Chautard, consciente de seu sagrado estado religioso e munido da força de presença própria aos santos, permaneceu impávido diante do tigre. Como resultado desta conversa, a abadia de Sept-fonts foi uma das poucas que continuou de pé ante a intempérie, e o Presidente pediu ao abade: “Dom Chautard, coloque-me na lista de seus amigos.” O tigre encontrara um domador.

Um homem dobrado

A questão é: quem realmente governava? O ditador, o democrata ou o abade?

Primeiramente, é preciso dizer, Mao Tsé-Tung não era presidente dos chineses e sim das armas chinesas. Seus principais partidários eram os fuzis e as metralhadoras. Basta lhe tirar o poder bélico e poderemos contar nos dedos de uma mão seus verdadeiros seguidores. Em suma, isto não se chama governo e sim tirania. Primeiro candidato eliminado…

Em segundo lugar, vejamos Clemenceau, um político hábil que agiu tanto nos planos de guerra como nos tratados de paz. Sem ele, a França teria sido esmagada pelas armas dos alemães, ou trapaceada pelos acordos italianos. Pode-se afirmar com certeza que ele mudou o rumo de uma nação. Entretanto, o homem que venceu a sanha destruidora de uns e a astúcia sub-reptícia de outros, cedeu diante do monge.

Por fim, o abade; homem que renunciou ao mundo e se refugiou no claustro. Reconheceu-se fraco e dobrou os joelhos diante de Deus. Em recompensa, Deus o engrandeceu perante os homens, e estes foram dobrados em seu orgulho. Quando chegou a perseguição, o humilde santo redobrou as forças, e sem temer, avançou de cabeça erguida entre os narizes empinados.

A verdadeira força reside naquele que se reconhece fraco. O verdadeiro diplomata faz um acordo eterno com Aquele que nunca trapaceia e desampara. Aí está o santo…

Por Diego Pistoresi

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