O perigoso direito de escolha
Naquele Domingo de Ramos, a multidão que estendia mantos e ramos não buscava, em sua maioria, o Salvador das almas ou o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Eles queriam um Messias político. Almejavam um líder que expulsasse os romanos e lhes garantisse um reino temporal próspero.

Entrada de Cristo em Jerusalém – Catedral de Cristo Rei, Hamilton (Canadá) Foto: Gustavo Kralj
Redação (14/02/2026 11:27, Gaudium Press) O demônio, em sua inteligência fria e perversa, logrou êxito em uma estratégia realmente diabólica: convenceu o homem moderno de que ele, o maligno, não passa de um folclore ou de uma metáfora para os desvios psicológicos. Ao fomentar a criação de religiões que negam a sua existência e filosofias que o classificam como superstição, ele fez com que a humanidade desacreditasse em Deus e, por consequência lógica, baixasse a guarda contra o inimigo. Afinal, se o lobo convence as ovelhas de que é apenas um cão de pasto mal compreendido, o curral está aberto para o abate.
A sedução do “mal bonzinho”
Agora que o terreno está limpo de “preconceitos religiosos”, ele mudou de tática. Já não aparece com o aspecto horrendo que causava repulsa aos santos; agora, ele se apresenta como um “ajudador”, um facilitador da liberdade individual. Ele se insufla lentamente através das doutrinas da Nova Era, de seitas de conveniência, de livros de autoajuda vazios e de uma cultura que doutrina crianças desde o berço.
Festas como o Halloween, que muitos pais católicos permitem sob o pretexto de ser “apenas uma brincadeira inconsequente de criança”, são, na verdade, a porta de entrada para a normalização do que deveria nos causar horror.
De brincadeira em brincadeira, o que era sagrado é profanado e o que era profano ganha status de entretenimento. O mal vai se colocando de mansinho, sentando-se à mesa, participando do jantar, até que sua presença não incomode mais ninguém.
O altar da autodeterminação
O perigo real reside no momento em que essa “normalidade” se torna a base da decisão humana. Estamos chegando ao ponto em que o homem se coloca na posição divina de decidir o absoluto. Assim como hoje ele clama o direito de decidir com que trajes se apresentar ou qual identidade subjetiva prefere ostentar, ele em breve dirá: “Eu tenho o direito de decidir a que senhor me dedicar. Eu sou o dono do meu culto”. O livre-arbítrio, dado por Deus para a busca do bem, foi sequestrado para servir à tirania do “eu”, facilmente seduzido e escravizado pelo mal.
A entrada triunfal e o Messias político
Essa busca por uma religião que sirva aos caprichos humanos não é nova. Lembro-me das considerações de Mons. João Clá Dias sobre as aclamações a Jesus em sua entrada triunfal em Jerusalém. Naquele Domingo de Ramos, a multidão que estendia mantos e ramos não buscava, em sua maioria, o Salvador das almas ou o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Eles queriam um Messias político; almejavam um líder que expulsasse os romanos e lhes garantisse um reino temporal próspero.
Como bem notou Monsenhor, ao comentar o Evangelho de um Domingo de Ramos, aquelas pessoas, “no fundo, buscavam uma felicidade meramente terrena e com tal ardor a procuravam que, se fosse possível, quereriam passar a eternidade neste mundo”, sem a necessidade de um Céu que exigisse santidade ou renúncia.
A miopia espiritual do nosso tempo
Infelizmente, ainda hoje agimos com a mesma miopia. Muitos de nós nos dizemos tementes a Deus e fingimos ansiedade pelo Reino dos Céus, mas vivemos como se as raízes dos nossos pés estivessem cimentadas na terra. Engolfamo-nos nas disputas mundanas, nas vaidades passageiras e nas facilidades que o mundo nos oferece, esquecendo completamente a santidade à qual fomos chamados.
O “direito de escolha” tornou-se a desculpa perfeita para escolhermos tudo o que nos agrada e rejeitarmos tudo o que nos corrige. Esquecemos que a verdadeira liberdade não é o direito de fazer o que se quer, mas a força para fazer o que se deve. Sem o discernimento para perceber quem está soprando essas “novas escolhas” em nossos ouvidos, corremos o tremendo risco de entrar em Jerusalém aclamando o rei errado.
Por Afonso Pessoa




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