O bom bispo segundo Leão: uma análise de suas últimas nomeações
Para o Papa Leão XIV, acima de tudo vale ser “in Illo uno unum”, unidos no único Cristo, como no lema agostiniano de seu brasão.
(17/02/2026 09:31, Gaudium Press) No último dia 6 de fevereiro, o novo arcebispo de Nova York, Dom Ronald A. Hicks, fez sua entrada solene na Catedral de São Patrício, no coração de Manhattan. Do púlpito, resumiu assim o seu programa, perfeitamente alinhado com as diretrizes do Papa Leão XIV: “Somos chamados a ser uma Igreja missionária, uma Igreja que catequiza, evangeliza e põe em prática a nossa fé. Uma Igreja composta por discípulos missionários que saem ao encontro dos outros e formam novos discípulos, transmitindo a fé de geração em geração. Uma Igreja que cuida dos pobres e dos vulneráveis. Uma Igreja que defende, respeita e sustenta a vida, desde a concepção até a morte natural”.
A nomeação de Dom Hicks, entre os muitos escolhidos pelo Papa Leão XIV, não é a única que marcará nos próximos anos o caminho da Igreja Católica nos Estados Unidos, pois, no dia 19 de dezembro passado — apenas 24 horas após o anúncio da nomeação do novo arcebispo de Nova York —, o Sumo Pontífice realizou outra nomeação significativa: confiou a Diocese de Palm Beach, na Flórida, a Dom Manuel de Jesús Rodríguez.
Palm Beach abriga a propriedade de Mar-a-Lago, residência predileta do presidente Donald Trump, cujas políticas migratórias rigorosas suscitaram protestos unânimes da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos. E o novo bispo, Dom Rodríguez, é ele próprio um imigrante; nasceu na República Dominicana, onde foi ordenado sacerdote, e até ontem era titular de uma paróquia na Diocese de Brooklyn, em Nova York, onde seus cerca de 17 mil fiéis são, em sua maioria, latinos.
Dom Rodríguez, porém, não é do tipo que sobe nas barricadas. Após a sua nomeação, declarou: “Trump também está fazendo coisas boas para os Estados Unidos e para o mundo. Mas, quando se trata dos migrantes e da política de imigração, queremos ajudá-lo”. Ele é especialista em direito civil e canônico — assim como o Papa Leão, que aprecia muito essa competência jurídica ao atribuir funções importantes, como na cúria vaticana, a de prefeito do Dicastério para os bispos, confiada ao valioso canonista Filippo Iannone.
Dom Hicks também demonstrou ser competente no governo de situações difíceis, tanto em Chicago onde foi vigário geral entre 2015 e 2020, e depois auxiliar do Arcebispo e Cardeal Blase Cupich; em seguida, como bispo de Joliet, em Illinois — um dos estados mais afetados no passado pela praga dos abusos sexuais. E agora que chegou em Nova York, ele terá que assumir um plano de indenização às vítimas da ordem de US$ 300 milhões, herdado de seu predecessor, o Cardeal Timothy Dolan.
Dom Hicks é compatriota do Papa Robert F. Prevost. Assim como ele, nasceu na periferia de Chicago, em um subúrbio chamado South Holland, que fica bem ao lado do subúrbio de Dalton, onde o Papa nasceu. “Nossas casas ficavam a apenas 14 quarteirões uma da outra”, disse ele. No entanto, só se encontraram pela primeira vez em 2024, em uma conferência de Prevost em Illinois, seguida de uma breve conversa entre ambos. “Eu o achei claro, conciso, criativo e sempre humilde, capaz de escutar antes de decidir”.
A proximidade de Hicks com Dom Cupich — figura proeminente da corrente mais progressista dos bispos norte-americanos, na linha do Cardeal Joseph Bernardin (1928–1996), também arcebispo de Chicago e por uma década líder histórico dessa corrente — gerou em alguns a impressão de uma identificação entre os dois, sob a égide do Papa Francisco.
Mas, na realidade, o verdadeiro mentor de Dom Hicks foi o predecessor de Cupich em Chicago, o Cardeal Francis George (1937–2015), que esteve à frente da mais robusta corrente conservadora, além de ter sido presidente da Conferência Episcopal de 2007 a 2010. Foi George quem sugeriu a Cupich a nomeação de Hicks como vigário geral. E, sobretudo, foi George quem, em 2005, enviou em missão aquele seu jovem sacerdote por cinco anos a San Salvador, para cuidar de um orfanato chamado “Nossos Pequenos Irmãos”.
Desde então, Hicks fala perfeitamente o espanhol, que é a língua nativa da grande maioria dos católicos dos Estados Unidos. E ele quis que a Missa de posse em Nova York fosse celebrada tanto em inglês quanto em espanhol. A homilia também foi proferida alternando os dois idiomas. E uma leitura da missa, tirada da Carta de São Paulo aos Gálatas, foi proclamada por Samuel Jiménez Coreas, um dos órfãos que ele ajudou em San Salvador. Na Arquidiocese de Nova York, mais de um milhão de católicos são hispânicos, de um total de 2,4 milhões.
Hicks e o Papa Leão compartilham uma visão unitária e coerente da ética da vida, como a “seamless garment”, a túnica inconsútil de Jesus, imagem tão querida pelo Cardeal Bernardin. O direito à vida deve ser defendido em todos os seus momentos, não apenas “desde a concepção até a morte natural”, mas também contra a guerra, a pobreza e a opressão, embora cada uma delas seja abordada de forma específica. Em Joliet, Dom Hicks costumava participar do Dia Nacional em Memória das Crianças Abortadas e abençoava túmulos de crianças não nascidas. Mas ele também destacou em seu escudo episcopal um ramo de alecrim, em homenagem a São Óscar Romero, o arcebispo de El Salvador martirizado no altar, em 1980, por um esquadrão da morte.
Hicks é também apreciado como formador de jovens sacerdotes, em perfeita harmonia – agora se sabe – com a exigente carta que o Papa Leão XIV enviou, no dia 9 de fevereiro, aos sacerdotes de Madri, mas na realidade a toda a Igreja. Em 2024, foi eleito pela conferência episcopal dos EUA com 68% dos votos como presidente da comissão para o clero, a vida consagrada e as vocações. Em Nova York, ele terá muito trabalho pela frente, dada a queda acentuada das vocações sacerdotais na diocese, nos últimos anos.
Ele é muito compreensivo e tolerante com quem celebra a missa segundo o rito antigo, mas está longe do perfil de um “cultural warrior” (guerreiro cultural), e também da escola teológica neoconservadora de Richard John Neuhaus, Michael Novak e George Weigel, da qual seu antecessor em Nova York, o Cardeal Dolan, era próximo.
Em resumo, Dom Hicks rompe as divisões entre progressistas e conservadores. Como para o Papa Leão XIV, também para ele acima de tudo vale ser “in Illo uno unum”, unidos no único Cristo, como no lema agostiniano do brasão papal.
Todas as importantes nomeações do Papa Leão seguem essa linha. Dom Stanislav Pribyl, o novo arcebispo de Praga — uma das capitais europeias mais fechadas à fé —, nomeado no dia 2 de fevereiro, descreveu imediatamente o caminho que deseja seguir: “O que me importa é especialmente a reconciliação dentro da Igreja, e o primeiro passo deve ser justamente tentar alcançá-la. Cristo está acima de todas as facções e grupos de interesse; e só n’Ele podemos ser verdadeiramente um”.
Outra nomeação exemplar foi a de 6 de outubro de 2025 para a diocese belga de Namur, conferida a Dom Fabien Lejeusne, de 52 anos, ex-superior geral para a Europa dos Agostinianos da Assunção. Logo ao assumir, priorizou a correção da gestão financeira da diocese e, sobretudo, o relançamento da evangelização, com atenção especial aos jovens, mantendo-se bem distante de controvérsias doutrinais levadas ao extremo.
Porque esta é a Igreja amada pelo Papa Leão: unida e missionária, acolhedora para todos, sem oposições internas definitivas. Com um lugar para o cardeal dominicano Timothy Radcliffe, chamado pelo Papa Leão para fazer as meditações introdutórias ao consistório de cardeais em janeiro passado; e outro para o bispo trapista Erik Varden, chamado a pregar os exercícios espirituais de início da Quaresma ao Papa e à Cúria Romana, ambos teólogos refinados, mas de visões que não coincidem exatamente.
É também entre personalidades como essas que se encontra a unidade “no único Cristo” que Leão XIV deseja realizar na Igreja. Com uma variante entre os dois que é útil assinalar desde já, porque se Radcliffe, aos 81 anos, ex-mestre geral da Ordem dos Pregadores, está no ocaso de sua trajetória, Varden, aos 52 anos, bispo de Trondheim na Noruega e presidente da Conferência Episcopal da Escandinávia, tem ainda um futuro pela frente. E o que ele tem feito e dito até aqui — documentado em várias ocasiões por Settimo Cielo — é rico em promessas.
Artigo de Sandro Magister, publicado originalmente em espanhol em Settimo Cielo, 17-02-2026. Tradução Gaudium Press.




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