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No caminho da virtude, não avançar é recuar

Estamos mergulhados em uma guerra espiritual, queira o leitor ou não. E, em uma guerra, permanecer neutro não é uma posição de segurança, mas de deserção. 

Redação (08/03/2026 10:39, Gaudium Press) Há uma máxima de São Gregório Magno — mais tarde abraçada por doutores da Igreja como Santa Teresa d’Ávila — que serve como um exame de consciência implacável para todos nós: “in via Dei non progredi, regredi est”, no caminho de Deus, não avançar é recuar.

Muitos cristãos, por uma espécie de cegueira confortável, imaginam que a vida espiritual é como um patamar estável: acreditam que, se não estão praticando o mal ativamente, se não estão cometendo crimes ou pecados escandalosos, já estão fazendo o suficiente. No entanto, isso é um engano. Não fazer o mal é meramente a obrigação de qualquer civilizado; fazer o bem, de forma ativa e crescente, é a missão do batizado.

A ilusão da neutralidade

Estamos mergulhados em uma guerra espiritual, queira o leitor ou não. E, em uma guerra, permanecer neutro não é uma posição de segurança, mas de deserção. A neutralidade, em termos espirituais, contribui para que o inimigo avance, para que a Igreja se enfraqueça e para que outras almas se percam por falta de testemunho.

Ser conivente com o mal por omissão é um perigo silencioso. É comum vermos a prática do erro e do vício cotidianamente, mas, por razões de comodismo ou como estratégia para não “criar problemas” no emprego, na família ou no círculo social, acabamos praticando o que chamo de subserviência parda. É aquela atitude que não se define: não apoia o mal abertamente, mas também não o contesta. É uma posição de facilitação, que permite que o erro se instale e ganhe o status de normalidade por falta de resistência.

O oceano e a trincheira

É evidente que não devemos bancar os justiceiros de esquina ou acreditar que vamos reformar o mundo a partir de nossa insignificância pessoal. No entanto, é bom considerar que, de gota em gota, compõe-se o oceano; e de grãos minúsculos, forma-se a extensão quilométrica das praias. Ainda que nos sintamos fracos — o que de fato somos —, assistir à prática da injustiça e ao crescimento do pecado sem tomar nenhuma atitude é uma traição ao nosso posto.

É como estar de guarda na porta de uma trincheira. Você vê o inimigo se aproximar, vê o perigo entrar sorrateiramente, mas decide não dar o alarde apenas para não ser incomodado em seu descanso ou para não parecer “radical” diante dos outros soldados. Você permite a invasão, acreditando que seu posto de soldado raso é irrelevante demais para fazer diferença. Saiba: o inimigo adora a insignificância dos que se calam.

A armadilha da falsa modéstia

Há ainda aqueles que, embora sejam intrinsicamente bons, se deixam dominar por uma falsa modéstia. Não avançam na virtude por medo de serem mal interpretados ou tachados de arrogantes e “santarrões”. Para parecerem “legais” ou integrados, apenas seguem a manada, deixam que outros tomem a frente e evitam qualquer decisão que exija firmeza de caráter.

Santa Teresa d’Ávila adverte com severidade: quem toma essa atitude de neutralidade e comodismo — fazendo uma pausa para descansar onde deveria haver combate — coloca-se em perigo constante de ser absorvido por “feras e víboras”, que são as distrações e os pecados que rondam os castelos da alma.

É preciso avançar sempre. Todos os dias. Ainda que seja um passo milimétrico, mas que seja à frente. É preciso tomar a deliberação de progredir e não ficar esperando que a vida nos proteja indefinidamente apenas pelo traço de bondade que herdamos. A bondade estagnada apodrece; a virtude, para ser real, precisa ser um movimento contínuo em direção ao Alto.

Por Afonso Pessoa

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