No alto do monte, a predileção de Deus
Se entrares para o serviço de Deus, prepara a tua alma para a provação (Eclo 2,1).
Redação (21/02/2026 19:48, Gaudium Press) “Naquele tempo, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado” (Mt 4,1). Todos os anos, no 1° Domingo da Quaresma, temos a ocasião de nos depararmos com o episódio das três tentações de Cristo. Nem por isso, diminui em algo o nosso estupor diante deste misterioso, temível e assíduo fenômeno que é a tentação. Afinal de contas, quem poderia imaginar que um Deus se encarnaria para ser tentado por amor de nós?
Sem embargo, isso aconteceu. E este adorável e arcano momento da história de Nosso Salvador parece não apenas deslumbrar e ultrapassar a inteligência humana, como também a atrair de um modo assaz peculiar, e, por vezes, até incompreensível aos olhos do mundo. Assim poderiam testemunhar aqueles veneráveis e colendos eremitas do deserto, como Santo Antão e São Pacômio, que, considerando tudo o que tinham no mundo como lixo, optaram por habitar as ingentes vastidões do ermo, a fim de poderem aí melhor imitar o exemplo de seu Redentor.
Mas… será que hoje, neste 1° Domingo da Quaresma, o Espírito Santo almeja também nos impelir a rumar junto a Jesus para um deserto, como o fizera outrora com tantos santos e santas? Ou antes, quer nos ensinar a caminhar por outros desertos? É isto o que a liturgia vai nos responder.
A vida do homem sobre a Terra é uma luta
De fato, quando um atleta deseja alcançar um prêmio em uma competição, é preciso que ele se submeta a duras privações (cf. 1Cr 9,25), conforme pondera o próprio São Paulo. Além de rigorosas dietas e extremos cuidados com a saúde, é necessário, antes de tudo, exercitar-se todos os dias, pois, caso contrário, toda aquela musculatura que lhe é requerida para tornar-se o dono do troféu rapidamente se atrofia. Ora, o mesmo se dá no campo espiritual. O exercício cotidiano que o ginasta tem de fazer corresponde precisamente às tentações que frequentemente nos cabe sofrer.
O fato de sermos tentados pelo Maligno, porém, sempre se nos afigura como algo estranho, e até culposo. Não obstante, se não tivéssemos de padecer tentações, seria impossível merecer o Céu, conforme explica Santo Agostinho: “Nossa vida neste desterro não pode existir sem tentação, já que o nosso progresso é levado a cabo pela tentação. Ninguém se conhece a si mesmo se não é tentado; nem pode ser coroado se não vence; nem vence se não peleja; nem peleja se lhe faltam inimigo e tentações”.[1] Afinal, se vivêssemos uma vida sem lutas e sem batalhas, nunca poderíamos ouvir aquelas célebres, graves e amabilíssimas palavras de Cristo no Apocalipse: “ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono” (Ap 3,21). Foi ainda por isso que Deus permitiu à serpente esgueirar-se por entre as árvores do Paraíso, e colocar à prova os nossos primeiros pais, conforme comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “No paraíso havia tudo, exceto um herói!”[2]
Mas, cometido o pecado original, abandonamos aquelas verdejantes pradarias do Éden, bem como o íntimo convívio com Deus — o qual descia todas as tardes para conversar com Adão — para vaguearmos por entre as planícies arenosas de um lúgubre deserto, onde o demônio nunca cessa de nos atormentar. Encontramo-nos agora, pois, como os israelitas do Êxodo, rumando para uma terra prometida, que, no nosso caso, é a Pátria Celeste.
Todavia, não se trata de um deserto totalmente retilíneo; antes, ele está polvilhado de montes. E Deus tem, por assim dizer, um apreço especial por estes montes. Ora, não foi em um monte que Deus entregou as tábuas da lei a Moisés, e que Elias viu aquela pequena nuvem que simbolizava a Mãe do Salvador? Não foi, ademais, sobre o monte Sião que Deus quis edificar o seu templo e a sua cidade dileta? Não foi ainda sobre um monte que Cristo quis pregar as Bem-Aventuranças, transfigurar-se ante três apóstolos, transpirar sangue e ser crucificado? E foi sobre um monte, por conseguinte, que o Redentor quis ser tentado, como narra o Evangelho: “o diabo levou Jesus para um monte muito alto” (Mt 4,8). Por que a última das tentações — aquela na qual o demônio deveria postular para si a adoração do próprio Deus — teria de se dar em um monte?
Os montes representam precisamente uma fase da vida espiritual em que a alma está como que mais próxima de Deus. Ali lhe são outorgados inúmeros favores e graças, junto dos quais ela costuma exclamar como Pedro: “Senhor, é bom estarmos aqui” (Lc 9,33). Contudo, este momento não está isento de sofrimentos; pelo contrário, vemos a alma sofrer talvez mais do que nunca.
Assim sendo, a liturgia de hoje quer nos mostrar uma vez mais a importância de sermos tentados, e que mesmo nos maiores graus de santidade a alma estará sujeita às ameaças do diabo. Além disso, cabe ressaltar que quanto maiores forem as tentações, tanto maiores serão os passos que Deus quererá de nós. De fato, aos tíbios e mesquinhos, Deus permitirá apenas que o demônio os leve a se preocuparem com pães, isto é, com a sua vidinha. Aos fervorosos, porém, que já se encontram em graus muito mais altos, certamente os fará passar por tribulações muito piores, a fim de que provem a pureza de seu amor.
Roguemos, então, à Santíssima Virgem para que ela nos dê forças a fim de enfrentarmos todos os perigos desta jornada, e que, pelos méritos de seu Divino Filho, possamos sempre encontrar nela um doce refrigério nesta peregrinação rumo à Terra, ou melhor, ao Céu da Promessa.
Por Valter Gonçalves
[1] AGOSTINHO DE HIPONA, Santo. Enarratio in psalmum LX, n. 3. In: Obras. Madrid: BAC, 1965, v. XX, p. 519.
[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 21 set. 1985.






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