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Lefebvristas fecham portas para Roma: não podemos chegar a um acordo em questões doutrinárias

Em um comunicado e carta, a Fraternidade (FSSPX) respondeu ao diálogo proposto pelo Vaticano, afirmando que a Igreja rompeu com a Tradição, a qual “desejamos observar fielmente”.

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Redação (20/02/2026 09:55, Gaudium Press) A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), mais conhecida como lefebvristas — por seguir o Arcebispo Marcel Lefebvre —, respondeu na Quarta-feira de Cinzas à proposta de diálogo apresentada pela Santa Sé, em 12 de fevereiro. A resposta, na prática, representa uma rejeição clara.

O Superior Geral, Pe. Davide Pagliarani, comunicou ao Cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, que as consagrações episcopais sem mandato pontifício, marcadas para 1º de julho, seguirão em frente. Segundo ele, “a Fraternidade não pode abandonar as almas”, pois “a necessidade das consagrações é concreta e de curto prazo para a sobrevivência da Tradição”.

Para entender o que aconteceu, vale recapitular a sequência dos fatos.

O convite de Roma

Em 12 de fevereiro, com a aprovação do Papa Leão XIV, o Cardeal Fernández recebeu Pagliarani no Palácio do Santo Ofício. O encontro foi descrito oficialmente pelo Dicastério como “cordial e sincero”. A Santa Sé propôs um “caminho de diálogo especificamente teológico, com metodologia bem definida”, para tratar dos temas levantados pela FSSPX em cartas entre 2017 e 2019 — questões que nunca receberam resposta satisfatória. Entre os pontos estão a vontade divina a respeito da pluralidade das religiões e a natureza do ato de fé, especialmente em relação aos textos do Concílio Vaticano II.

Entretanto, Roma foi clara e firme: ordenar bispos sem mandato papal em 1º de julho “implicaria uma ruptura decisiva da comunhão eclesial (cisma), com graves consequências para toda a Fraternidade”. Por isso, o diálogo só seria possível se a FSSPX suspendesse a decisão das ordenações episcopais.

O encontro terminou com o compromisso de Pagliarani apresentar a proposta ao seu Conselho e responder depois. A resposta veio no dia 18 de fevereiro (Quarta-feira de Cinzas).

 “Não podemos chegar a um acordo doutrinal”

A carta de Pagliarani — assinada também pelos bispos Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay, além dos demais membros do Conselho Geral — foi redigida em Menzingen, sede da FSSPX. É um texto extenso que começa com agradecimentos formais e, passo a passo, constrói a argumentação para justificar a continuidade da ordenação para 1º de julho.

O ponto central é revelador. Pagliarani reconhece explicitamente a ruptura doutrinal como algo insuperável. Ele escreve: “Assim, partilhando da mesma percepção de que não podemos chegar a um entendimento comum quanto à doutrina, parece-me que o único ponto em que podemos coincidir é o da caridade para com as almas e para com a Igreja”.

Essa frase resume tudo. Em vez de aceitar o diálogo proposto por Roma (apresentado como caminho para evitar o cisma), Pagliarani o declara inútil em matéria doutrinal e sugere substituí-lo por um gesto unilateral de tolerância pastoral: que Roma simplesmente permita que a FSSPX continue “a fazer esse mesmo bem em prol das almas às quais ministra os santos sacramentos”.

A lógica é a seguinte: como o desacordo doutrinal é irresolúvel e a Fraternidade atende pastoralmente milhares de fiéis com sacramentos, Roma deveria aplicar o mesmo critério de “misericórdia”, “escuta” e “flexibilidade pastoral” que — segundo Pagliarani — os últimos pontificados usaram em casos complexos. Em outras palavras, a FSSPX pede para ser tratada como uma realidade irregular tolerada, não como interlocutora que negocia sua comunhão plena.

Um diálogo “acolhido favoravelmente”, mas rejeitado na prática

Há na carta um ponto especialmente incômodo para Roma, destacado por vaticanistas como Andrea Gagliarducci: o Pe. Davide Pagliarani lembra ter sido ele mesmo quem, em janeiro de 2019, propôs ao então Dicastério a abertura de um diálogo doutrinal. Naquela ocasião, a resposta foi que um acordo doutrinal entre a Santa Sé e a FSSPX era “impossível”, e a iniciativa foi sepultada. Agora, sete anos depois, Roma retoma exatamente a mesma proposta. Pagliarani a aceita em princípio — “só posso acolher favoravelmente esta abertura” —, mas a rejeita na prática, argumentando que as condições não são adequadas: o diálogo vem acompanhado de uma ameaça pública de cisma, o que, na visão dele, o torna incompatível com “um verdadeiro desejo de intercâmbios fraternos”.

O raciocínio tem certa coerência interna, mas carrega também uma contradição grave: se o desacordo doutrinal é insuperável, como a FSSPX afirma, então o diálogo proposto em 2019 também não teria levado a lugar nenhum. A Fraternidade não pode criticar Roma por ter rejeitado a proposta de 2019 e, ao mesmo tempo, negar qualquer utilidade à proposta similar de 2026. O que fica evidente é que, para a FSSPX, o diálogo doutrinal é desejável quando não traz consequências práticas imediatas, mas torna-se inaceitável quando exige a suspensão das consagrações.

O cisma de 1988 como modelo

Para compreender a gravidade do momento atual, é essencial recordar o precedente histórico. Em 1988, o Arcebispo Marcel Lefebvre consagrou quatro bispos sem mandato pontifício, ato que resultou na excomunhão dos consagrados e do próprio consagrante, declarada por São João Paulo II. Em 2009, a Congregação para os Bispos, por determinação de Bento XVI, publicou um decreto que levantava a excomunhão daqueles quatro bispos. O Papa explicou na ocasião que o gesto visava remover um obstáculo sério ao diálogo e abrir um caminho real de reconciliação.

Aquele gesto de magnanimidade, porém, não foi seguido pela regularização canônica da FSSPX. Agora, a história ameaça se repetir.

Se as novas consagrações episcopais anunciadas pela FSSPX se concretizarem sem mandato pontifício, a situação voltará, de fato, ao mesmo ponto de 1988.

Tanto a Fraternidade quanto Roma estão cientes disso. No resumo da reunião de 12 de fevereiro, o Vaticano usou explicitamente a palavra “cisma”. Mesmo assim, na carta recente, o Pe. Davide Pagliarani afirma: “A necessidade das sagrações é uma necessidade concreta no curto prazo para a sobrevivência da Tradição, a serviço da santa Igreja católica”. A urgência alegada é garantir a sucessão episcopal, já que a FSSPX conta atualmente com apenas dois bispos — Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay —, ambos já em idade avançada.

A “caridade” como justificativa para a desobediência

No fundo, os lefebvristas estão dizendo não à proposta da Santa Sé: vão ordenar novos bispos e pedem “caridade” em troca. Essa sequência não é por acaso. A FSSPX invoca a “caridade para com as almas” para legitimar um ato que o direito canônico classifica como cisma. O raciocínio é que a fidelidade pastoral concreta — administrar sacramentos aos fiéis da Tradição — prevalece sobre a obediência ao Romano Pontífice no que diz respeito às consagrações episcopais.

Essa lógica não é novidade na história da Fraternidade. O próprio Dom Marcel Lefebvre já havia dito que “fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar a consagração, inclusive indo repetidamente a Roma”, mas que nada resolveu, levando-o à decisão dramática de 1988.

Pagliarani repete exatamente o mesmo argumento: escrevemos ao Papa, pedimos audiência, esperamos anos. Diante do silêncio, agimos. É o roteiro de 1988 reescrito em 2026.

Posições claras de ambos os lados

O que esse episódio deixa evidente é que as duas partes foram transparentes quanto às suas intenções, mas com resultados opostos.

Roma abriu uma porta real: um diálogo teológico sério, com metodologia definida, para tratar dos pontos doutrinais que a FSSPX levanta há décadas. A condição era razoável — suspender temporariamente as consagrações —, e o tom do comunicado vaticano foi intencionalmente fraterno. A Santa Sé buscava “condições mínimas para uma plena comunhão”, sem exigir de imediato a aceitação total do Concílio Vaticano II, deixando margem para “maior precisão” em temas que “ainda não receberam esclarecimento suficiente”.

A FSSPX respondeu fechando essa porta: o acordo doutrinal é impossível, o diálogo proposto não serve, as consagrações seguem em frente. Para amenizar a recusa, apelam à “caridade”. É uma palavra bela e verdadeira em si mesma, mas usada aqui para fugir da questão central: não há caridade autêntica sem comunhão com o sucessor de Pedro.

O próprio direito canônico — que a Fraternidade cita seletivamente para criticar o pós-concílio — estabelece no cânon 331: o Romano Pontífice possui sobre a Igreja uma potestade plena, suprema, universal, imediata e ordinária, incluindo, de modo especial, a consagração de bispos.

Enquanto o Vaticano abre as portas, a FSSPX as fecha. O dia 1º de julho se aproxima, e com ele a possibilidade de um novo cisma — que, desta vez, ao que parece, nenhum gesto de benevolência por parte de Roma terá deixado de tentar impedir.

Os textos do comunicado e da carta da FSSPX estão nesses links.

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