Leão XIV revoga decisão que triplicou o aluguel do Cardeal Burke
A revogação do rescrito não veio acompanhada de discursos inflamados, nem de manifestos ideológicos. Foi um ato sóbrio, quase silencioso, mas carregado de significado.
Foto: Vatican News/ Vatican media
Redação (04/02/2026 09:46, Gaudium Press) A recente notícia sobre a revogação, por Leão XIV, do rescrito de Francisco que retirava subsídios habitacionais de cardeais e altos oficiais da Cúria deve ser lida com atenção redobrada, não tanto pelo fato administrativo em si, mas pelo que ele revela sobre a transição de clima e de linguagem no coração do governo da Igreja. O episódio é pequeno em aparência, quase prosaico, mas altamente simbólico. E em Roma, como se sabe, os símbolos costumam falar mais alto do que os decretos longos.
O rescrito de 2023 nasceu sob o signo de uma retórica muito própria do pontificado de Francisco. Sacrifício excepcional, Igreja pobre, solidariedade com os necessitados, ajuste de contas com privilégios históricos. A decisão de cortar subsídios e impor aluguel de mercado a cardeais e chefes de dicastério foi apresentada como um gesto moralmente edificante, quase pedagógico. O problema nunca foi apenas o conteúdo, mas o contexto e o método. A medida atingiu um grupo restrito, altamente visível, e o fez sem transparência comunicativa, fora dos canais ordinários do boletim oficial, afixada num pátio interno do Vaticano como um aviso administrativo qualquer. O gesto tinha algo de “exemplarizante”, quase punitivo, e por isso foi lido internamente como populista.
Conforme observa Nico Spuntoni, vaticanista do Il Giornale, Leão XIV, ao revogar o rescrito, não está simplesmente devolvendo benefícios imobiliários; está sinalizando uma mudança de chave. Observadores acertam ao destacar que a decisão se insere num esforço mais amplo de reverter atos do pontificado anterior que geraram desconforto dentro da Cúria Romana. O ponto decisivo não é a nostalgia de um passado confortável, mas a tentativa de restaurar um senso de justiça institucional, previsibilidade jurídica e respeito à dignidade do serviço curial.
A situação do Cardeal Raymond Leo Burke tornou-se o caso emblemático dessa política. O aumento de três vezes no valor do aluguel de seu apartamento romano, somado à retirada anterior da chamada Cardinal’s Plate, foi amplamente percebido como algo mais do que uma medida econômica. Para muitos, soou como retaliação. Independentemente do juízo pessoal que se faça sobre Burke, o problema eclesial é outro. Quando decisões administrativas parecem calibradas para atingir indivíduos específicos, o governo deixa de ser pastoral e passa a ser personalista, no pior sentido do termo.
A matéria também recorda um aspecto frequentemente negligenciado. O rescrito não foi retroativo e atingiu de modo peculiar cardeais recém-nomeados para cargos de grande responsabilidade. Robert Francis Prevost, então prefeito do Dicastério para os Bispos, nomeado poucos dias antes da entrada em vigor da norma, passou quase dois anos pagando aluguel de mercado em Roma. O mesmo valeria, ao menos em tese, para o Cardeal Víctor Manuel Fernández, embora neste caso específico haja indícios claros de tratamento diferenciado, como o próprio Fernández deixou transparecer com candura em suas redes sociais.
Esse contraste revela uma fissura interna do pontificado anterior. De um lado, uma retórica de austeridade aplicada com rigor a alguns. De outro, exceções concedidas com naturalidade a colaboradores próximos, justificadas por critérios afetivos ou simbólicos. Não se trata aqui de moralizar a escolha de uma casa com vista para os jardins do Vaticano, mas de reconhecer que a seletividade mina a credibilidade de qualquer discurso reformista. A austeridade, quando não é universal e previsível, deixa de ser virtude e passa a ser instrumento de poder.
Leão XIV parece ter compreendido esse ponto desde o início. A revogação do rescrito não veio acompanhada de discursos inflamados, nem de manifestos ideológicos. Foi um ato sóbrio, quase silencioso, mas carregado de significado. Ao mesmo tempo, a decisão coincide com a disposição do novo Papa de se transferir para o Palácio Apostólico (mais especificamente numa mansarda dele), abandonando soluções provisórias que marcaram o pontificado anterior. Também aqui o sinal é claro. O papado não é um gesto performático de simplicidade individual, mas uma instituição que exige estabilidade, clareza e continuidade.
Há ainda um elemento eclesiológico de fundo que merece atenção. A Cúria Romana não é uma elite mundana vivendo à margem da Igreja real, mas um corpo de serviço que, com todos os seus limites humanos, garante a unidade administrativa e doutrinal da Igreja universal. Fragilizar sistematicamente suas condições de trabalho, por razões simbólicas ou midiáticas, produz ressentimento, insegurança e paralisia decisória. Analistas mencionam o descontentamento interno, e isso não deve ser subestimado. Uma Cúria humilhada tende a se tornar defensiva, burocrática e avessa à responsabilidade.
Ao reverter o rescrito, Leão XIV não canoniza o luxo nem reabilita privilégios injustificados. Ele reconhece que o problema da Igreja não se resolve com gestos punitivos dirigidos a poucos, mas com reformas estruturais que exigem tempo, consenso e critérios objetivos. A moral cristã nunca foi amiga do moralismo administrativo. O Evangelho pede conversão do coração, não espetáculos de austeridade seletiva.
Há também um dado político inevitável. O novo Papa governa uma Igreja marcada por polarizações profundas. Cada gesto é lido como vitória ou derrota de um campo. O gesto é interpretado por alguns como um passo no sentido de virar a página do pontificado anterior. Essa leitura é compreensível, mas incompleta. O gesto de Leão XIV parece menos ideológico e mais institucional. Ele não está corrigindo Francisco por discordância doutrinal, mas ajustando um estilo de governo que, em vários momentos, confundiu profecia com administração.
No fim, a questão da moradia dos cardeais é apenas a superfície. O que está em jogo é a restauração de um princípio básico de governo eclesial. A autoridade não se afirma por constrangimento público nem por sacrifícios impostos de modo assimétrico. Ela se sustenta pela justiça, pela previsibilidade e pelo reconhecimento da dignidade de quem serve. Se Leão XIV conseguir manter essa linha, mesmo em decisões mais complexas e sensíveis, este pequeno decreto de fevereiro de 2026 poderá ser lembrado como um dos primeiros sinais de um pontificado menos teatral e mais enraizado na tradição administrativa da Igreja.
Roma observa. A Cúria respira. E o mundo católico, cansado de gestos simbólicos que dividem mais do que edificam, começa a perceber que, às vezes, governar bem é justamente retirar um cartaz do muro e devolver à normalidade aquilo que nunca deveria ter sido transformado em espetáculo.





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