Leão XIV: IA deve ser uma aliada e não controlar informação
Mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicações Sociais.

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Redação (24/01/2026 16:19, Gaudium Press) Por ocasião do 60º Dia das Comunicações Sociais, celebrada hoje na memória litúrgica de São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas e comunicadores, o Papa Leão XIV divulgou uma mensagem que convoca a todos — fiéis e profissionais da comunicação — a um uso ético, humano e responsável dos meios de comunicação em tempos de revolução tecnológica.
O Pontífice coloca no centro da reflexão o tema escolhido para a 60ª edição dessa comemoração: “Preservar vozes e rostos humanos”. Essa expressão significa preservar o “reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos, definidos antecipadamente. Cada um de nós tem uma vocação insubstituível e inimitável que emerge da vida e que se manifesta precisamente na comunicação com os outros”. Ou seja, “Preservar rostos e vozes” não indica apenas a prioridade de proteger a identidade e a dignidade de cada pessoa na comunicação, mas também de preservar aquilo que é intrinsecamente humano no diálogo social e midiático.
Uma comunicação ao serviço da pessoa
Na sua mensagem, o Papa Leão XIV evidencia como a era digital transformou radicalmente as formas como as pessoas se relacionam, se informam e contam o mundo. Desde as plataformas sociais até aos algoritmos que geram feeds de notícias, passando pelas ferramentas de inteligência artificial capazes de gerar textos, imagens ou mesmo simular rostos e vozes, a comunicação já não é apenas um instrumento, mas um contexto no qual se define a nossa experiência humana.
O Pontífice alerta para práticas que arriscam despersonalizar o diálogo, como a difusão de deepfakes, chatbots enganosos e conteúdos manipulados que podem corroer a confiança mútua e criar “realidades paralelas” difíceis de distinguir da verdade. “Simulando vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, mas também invadem o nível mais profundo da comunicação, o da relação entre seres humanos”.
“A Inteligência Artificial é capaz de orientar sutilmente os comportamentos e até mesmo reescrever a história humana – incluindo a história da Igreja –, muitas vezes sem que nos demos conta”, sublinhou o Papa.
Compromisso com a educação e a verdade
O Papa Leão XIV frisou que, para evitar tais perigos, é necessária uma formação e “alfabetização digital (juntamente com educação humanística e cultural) para entendermos como os algoritmos moldam nossa percepção da realidade, como os vieses da IA funcionam, quais mecanismos ditam o aparecimento de certos conteúdos em nossos feeds de informação e quais são as premissas e os modelos econômicos da economia da IA e como eles podem mudar”.
Não se trata de renunciar à inovação, mas de orientá-la necessariamente para que sirva ao crescimento da pessoa e não à sua marginalização. “As capacidades exclusivamente humanas de empatia, ética e responsabilidade moral não podem ser delegadas às máquinas”, escreve o Papa, lembrando que as ferramentas digitais devem permanecer a serviço da comunidade humana, não a substituir, em contraste com qualquer forma de polarização, ódio e superficialidade.
A dignidade da pessoa, insiste o Pontífice, não pode ser sacrificada no altar da eficiência tecnológica: a comunicação autêntica nasce do encontro real entre vozes e rostos, do diálogo respeitoso e da capacidade de ouvir. Sob essa luz, ele ressalta que jornalistas, educadores, criadores de conteúdo e todos aqueles que atuam no vasto mundo da comunicação têm uma grande responsabilidade: custodiar a verdade e proteger a dignidade humana em suas palavras, imagens e escolhas editoriais.
No contexto de uma cultura cada vez mais permeada por tecnologias avançadas, o apelo do Papa Leão XIV chama a atenção para a distorção da realidade por parte dos modelos de IA com a imposição de “formas de pensar que reproduzem os estereótipos e preconceitos presentes nos dados dos quais se alimentam” e também “nos prendem em redes que manipulam nossos pensamentos e perpetuam e aprofundam as desigualdades e injustiças sociais existentes”.
O risco é grande e pode levar à fabricação de “realidades paralelas”, onde a probabilidade estatística é vendida como conhecimento e a aproximação como verdade. “Verdadeiras alucinações”, escreve Leão XIV, que podem afetar até mesmo o mundo da mídia.
Uma mensagem para toda a sociedade
A mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicações Sociais não diz respeito apenas ao mundo eclesial, mas a toda a sociedade civil, com um convite a reconhecer na comunicação um instrumento de construção da paz, do diálogo e da inclusão.
Um apelo, portanto, à responsabilidade, à reflexão e ao compromisso para que cada voz conte, cada rosto seja respeitado e cada pessoa possa participar plenamente na construção de um horizonte comunicativo verdadeiro, autêntico e humano.
O Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado hoje na memória de São Francisco de Sales — figura fundamental para o diálogo e o anúncio da verdade — confirma assim o papel essencial da comunicação como instrumento de encontro, unidade e esperança para o mundo contemporâneo.





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