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Leão XIV e o mundo digital

“Se a Igreja não se pronunciar, ou se ninguém se manifestar sobre isso, o perigo é que o mundo digital siga seu próprio caminho e nos tornemos peões, ou sejamos relegados ao esquecimento”.

Leao XIV e o mundo digital

Redação (03/02/2026 17:36, Gaudium Press) O mundo moderno sofre de inúmeras “doenças”, entre elas, o Papa Leão XIV considerou uma muito difundida: “o cansaço de viver”, analisando-a como uma “realidade complexa, pesada e difícil de enfrentar” e, pior ainda, que diante dela, “ficamos insensíveis, adormecemos, com a ilusão de que, ao despertar, as coisas serão diferentes” (Audiência Geral, 25 de junho de 2025). Não deixando de lado uma das circunstâncias que contribuem para este “cansaço” em uma sociedade “cada vez mais digital, na qual as tecnologias, embora aproximem pessoas distantes, muitas vezes distanciam aquelas que estão próximas” (15 de julho de 2025).

Tivemos a oportunidade de comentar, em um artigo anterior, o grande desejo e a esperança do Santo Padre, pois “este tempo que vivemos necessita de cura” (3 de julho de 2025). Sim, pois a sociedade em que vivemos está doente e, mostrando uma de suas origens, afirmava que por causa da “bulimia” nas redes sociais, estando hiperconectados, somos literalmente bombardeados com notícias e imagens, quando estas não são falsas ou distorcidas.

Os benefícios da comunicação através das redes sociais e a vasta quantidade de informação disponível na internet são descomunais; o problema surge quando o uso excessivo leva ao vício. Esta foi a temática central da “VII Conferência Nacional sobre Vícios”, realizada no início de novembro em Roma. Os participantes se aprofundaram sobre os vícios tradicionais (como drogas e o álcool), assim como vícios mais atuais como o jogo e a tecnologia, com foco na prevenção e nos efeitos negativos sobre os jovens. Em uma mensagem de vídeo para os assistentes, o Papa Leão XIV afirmou como “o vício se torna uma obsessão, condicionando o comportamento e a existência cotidiana”, pois “vivemos em um mundo carente de esperança, no qual faltam propostas humanas e espirituais vigorosas. Consequentemente, muitos jovens pensam que todos os comportamentos são equivalentes, já que não conseguem distinguir o bem do mal e não têm noção dos limites morais”, portanto, é essencial “inspirar valores espirituais e morais nas gerações mais jovens, para que se comportem como indivíduos responsáveis”.

Entretanto, em outro encontro sobre “A dignidade das crianças e dos adolescentes na era da inteligência artificial” — promovido no Vaticano pela Fundação para o Estudo e a Pesquisa da Infância e da Adolescência —, o Santo Padre afirmou em seu discurso que: “A inteligência artificial está transformando muitos aspectos de nossa vida cotidiana, como a educação, o entretenimento e a segurança dos menores. Seu uso levanta importantes questões éticas, especialmente no que se refere à proteção da dignidade e do bem-estar dos menores. Crianças e adolescentes são especialmente vulneráveis ​​à manipulação através de algoritmos de inteligência artificial que podem influenciar suas decisões e preferências”. Em sua mensagem, ele ressaltou a necessidade de “uma educação digital”, compreendendo os riscos que “tanto o uso da inteligência artificial quanto o acesso digital prematuro, ilimitado e sem supervisão podem representar para os relacionamentos e o desenvolvimento dos jovens”. Concluiu que “somente com uma abordagem educativa, ética e responsável podemos garantir que a inteligência artificial seja uma aliada, e não uma ameaça, ao crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes” (13 de novembro de 2025).

Suas preocupações não se limitam a crianças e adolescentes. Pouco tempo antes, ele fez um alerta a centenas de estudantes universitários na Sala Paulo VI, no Vaticano, durante o Jubileu da Educação (30 de outubro de 2025): “Não deixem que o algoritmo escreva a sua história! Sejam vocês os autores: usem a tecnologia com sabedoria, mas não deixem que a tecnologia use vocês”. Destacando a natureza inovadora da inteligência artificial, ele disse que “não basta ser ‘inteligente’ na realidade virtual; é preciso ser humano com os outros”, enfatizando: “eduquem-se para humanizar o digital”, “em vez de serem turistas da internet, sejam profetas no mundo digital!”.

Tantas são as intervenções de Leão XIV advertindo sobre os perigos do mundo digital que já circulam rumores sobre o tema que tratará em sua primeira encíclica. Alguns até especulam sobre seu possível título: “Magnifica Humanitas”, na qual poderá abordar questões antropológicas, com especial atenção para a inteligência artificial. O título destacaria a convicção de que a dignidade humana segue sendo “magnífica”, em uma época em que o poder da tecnologia parece ameaçá-la e até mesmo remodelá-la.

Assim como a “Rerum Novarum”, de seu predecessor, Leão XIII, abordou questões trabalhistas em uma era de monopólios e exploração industrial, “Magnifica Humanitas” — se esse for de fato seu título final — poderia se tornar um texto fundacional para a era digital e algorítmica. Os paralelos são surpreendentes. Esperemos para ver…

O Sumo Pontífice, Leão XIV, não aborda estas realidades como alguém que sente aversão à tecnologia — especialmente às novas tecnologias que surgiram — diríamos como um “tecnofóbico”. Vimos em alguns de seus muitos pronunciamentos sobre o assunto que ele reconhece os benefícios da tecnologia, mas, ao mesmo tempo, expõe as distorções que ela cria. Ele reconhece sua eficiência e alcance, mas ressalta que ela não pode substituir as capacidades exclusivamente humanas, seu comportamento e responsabilidade moral, visto que uma dependência excessiva da inteligência artificial acaba por enfraquecer o pensamento crítico e as habilidades criativas.

Lhe preocupa esse fenômeno, como podemos ver em sua resposta à jornalista Elise Ann Allen, autora do livro-entrevista “Leão XIV: Cidadão do mundo, missionário do século XX”, no qual asseverava: “Será muito difícil descobrir a presença de Deus na IA. Nas relações humanas, pelo menos podemos encontrar indícios da presença de Deus”, destacando que, “se a Igreja não se pronunciar, ou se ninguém se manifestar sobre isso, embora a Igreja deva certamente ser uma das vozes aqui, o perigo é que o mundo digital siga seu próprio caminho e nos tornemos peões, ou sejamos relegados ao esquecimento” (18 de novembro de 2025).

(Publicado originalmente em ‘La Prensa Gráfica’ de El Salvador, 1º de fevereiro de 2026)

Por Padre Fernando Gioia, EP

www.reflexionando.org

Traduzido por Emílio Portugal Coutinho

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