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Leão XIV, absorvendo crises

A crise tradicionalista não é novidade. O objetivo hoje é evitar chegar a uma ruptura, encontrar alguma forma de diálogo, mesmo que isso signifique prolongar o debate e esperar que ele seja absorvido.

Foto: Vatican news

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(16/02/2026 10:23, Gaudium Press) Havia grande expectativa em torno do encontro anunciado entre o Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, Cardeal Victor Manuel Fernández, e o Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), Pe. Davide Pagliarani.

No entanto, antes da reunião, as partes compreenderam que aquela conversa seria a  primeira de muitas. Ainda resta saber como Leão XIV pretende lidar com uma das primeiras crises de seu pontificado.

Há muitos assuntos pendentes do pontificado de Francisco — basta pensar no caso do jesuíta Pe. Marko Rupnik ou na saga judicial em curso no Vaticano sobre a gestão dos fundos da Secretaria de Estado —, mas o assunto com a FSSPX é a primeira crise “nova” eclesiástica da era leonina.

A crise tradicionalista não é novidade.

Todos os papas desde o Concílio Vaticano II a herdaram, e seu plano geral é um resquício de um debate ultrapassado há muitas gerações.

Paulo VI se viu em um diálogo dramático com o fundador da FSSPX, o Arcebispo Marcel Lefebvre; depois, o Papa São João Paulo II precisou enfrentar a questão do cisma criado pelas ordenações ilegítimas; e Bento XVI ofereceu uma abertura litúrgica, mas pediu que a Fraternidade assinasse um preâmbulo doutrinal que a FSSPX não podia aceitar (ou, ao menos, não aceitou). Francisco concedeu faculdades e outras concessões aos sacerdotes da Fraternidade, mas nunca realmente tomou nenhuma medida para resolver as questões fundamentais.

Leão XIV terá de encontrar sua própria abordagem.

A reunião de 12 de fevereiro terminou como esperado: com uma promessa de diálogo e uma ameaça de não-diálogo. A promessa de diálogo é a de um percurso doutrinal que esclareça certos pontos do Concílio Vaticano II — inclusive aqueles contestados pela FSSPX — a fim de definir os mínimos requisitos fundamentais para a plena comunhão.

Pensando bem, isso é um pouco menos do que o preâmbulo doutrinal que Bento XVI pediu para ser assinado.

Bento XVI não podia aceitar a versão da FSSPX de que o Concílio era um evento histórico, mas meramente pastoral, cujos desdobramentos poderiam, portanto, ser contestados ou ignorados. E isso não se devia ao fato de Bento XVI ser progressista, mas sim porque ele compreendia o “Concílio dos Padres”, diferente do “Concílio da mídia”, e a necessidade de defendê-lo apesar do parecer publicado.

A ameaça de não-diálogo vem do fato de que a Santa Sé pediu oficialmente à Fraternidade que desistisse das novas ordenações episcopais e explicou — verbalmente — que qualquer ordenação desse tipo provocaria um cisma, e que o cisma encerraria todo diálogo.

Leão XIV decidiu, como era natural, que o Dicastério para a Doutrina da Fé tratasse do assunto.

A ausência da Comissão Ecclesia Dei — responsável pelo diálogo com a FSSPX desde as suas ordenações episcopais originais — é algo que os insiders do Vaticano sentem (ou deveriam sentir) profundamente.

Francisco suprimiu a comissão Ecclesia Dei em 2019 e incorporou suas responsabilidades ao Dicastério para a Doutrina da Fé (então denominado CDF).

E talvez uma consequência natural seja restabelecer uma comissão semelhante à Ecclesia Dei, ou pelo menos um comitê de diálogo permanente, justamente para promover delicadamente o diálogo. Uma comissão como a Ecclesia Dei, no entanto, também abre a possibilidade de restabelecer outras comissões.

Durante o pontificado de Francisco, muitas comissões internas foram abolidas ou abandonadas, enquanto o Papa formava novas e provisórias (a CRIOR no IOR, a COSEA na administração, o comitê e a comissão para a reforma das comunicações do Vaticano, o próprio Conselho de Cardeais) e abandonou aquelas que permaneceram ativas no passado.

Por exemplo, não houve mais notícias de uma reunião da Comissão sobre a China, convocada por Bento XVI, e a Ecclesia Dei foi suprimida pouco antes de Francisco tomar medidas mais severas contra o movimento tradicionalista com o motu proprio Traditionis Custodes e sua subsequente aplicação que, na prática, revogou a liberalização do rito antigo autorizada por Bento XVI.

Então, talvez surja uma nova (antiga) Comissão.

Por outro lado, talvez a FSSPX decida prosseguir com as ordenações ameaçadas, baseando sua decisão no que considera uma brecha no Direito Canônico, segundo a qual não se incorre em excomunhão se a pessoa que cometeu um ato potencialmente sujeito à pena o fez diante de uma situação grave.

Essa é uma avaliação completamente subjetiva, mesmo dentro do Código, razão pela qual tem sido repetidamente afirmado que a excomunhão dos bispos lefebvristas — posteriormente revogada por Bento XVI em meio a muita controvérsia — nunca foi válida.

A verdade é que, além de fatos e interpretações subjetivas, quando o Papa formaliza a excomunhão, está consumado, e não há mais o que fazer. O objetivo hoje é evitar chegar a esse ponto de ruptura, encontrar alguma forma de diálogo, mesmo que isso signifique prolongar o debate e esperar que ele seja absorvido.

Não se trata de uma crise decisiva para o pontificado, isso é certo, mas é uma crise que pode dizer muito sobre o estilo de governo de Leão.

Leão age por canais institucionais — o Dicastério competente — e não se envolve pessoalmente no diálogo porque não se sente com o carisma necessário para fazer as coisas avançarem. Ele exige que todos atuem de acordo com a justiça.

Acima de tudo, Leão XIV espera.

Ele toma decisões quando elas são inevitáveis e irrevogáveis, e por isso pensa cuidadosamente antes de decidir.

Resta saber se essa é a melhor estratégia para o mundo tradicionalista. É verdade, porém, que os adeptos do rito antigo estão crescendo, e são jovens — basta pensar na peregrinação tradicionalista anual de Paris a Chartres, que reúne milhares de jovens tradicionalistas. É um segmento da Igreja que não pode ser ignorado. Em tempos de crise de vocações, o mundo tradicionalista pode ser um reservatório de nova fé ou a causa de cisma e divisão.

O Papa terá de decidir como proceder, e cada decisão será uma revelação.

Artigo de Andrea Gagliarducci, publicado originalmente em inglês em Monday Vatican, 16-02-2026. Tradução Gaudium Press.

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