Irmã Brambilla, um ano após sua nomeação
Um ano após a sua nomeação, o futuro da Irmã Simona Brambilla no Vaticano gera especulações em Roma.

Foto: Vatican News
Redação (06/01/2026 10:57, Gaudium Press) Exatamente um ano após sua nomeação como a primeira mulher a chefiar um dicastério da Cúria Romana, a Irmã Simona Brambilla, das Missionárias da Consolata, enfrenta questionamentos sobre a efetividade de sua liderança no Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.
Nomeada pelo Papa Francisco em 6 de janeiro de 2025, sua escolha foi amplamente vista como um gesto simbólico em favor da maior participação feminina nas estruturas de governo da Igreja, em um contexto em que sua condição de mulher constituía, por si só, um elemento determinante.
De fato, a designação de Brambilla representou um marco inédito: pela primeira vez, uma religiosa assumia a direção de um organismo vaticano tradicionalmente reservado a prelados ordenados. O gesto alinhava-se à ênfase do pontificado de Francisco na promoção das mulheres nas estruturas de governo da Igreja, sem uma ruptura doutrinária explícita.
No entanto, a nomeação conjunta do cardeal espanhol Ángel Fernández Artime como pró-prefeito – uma configuração jurídica válida, mas incomum – tem alimentado debates sobre o alcance real da autoridade da prefeita. Na prática, decisões mais sensíveis continuam dependendo de uma autoridade ordenada, o que reforça a percepção de uma liderança simbólica, mas institucionalmente limitada.
Perda expressiva de vocações
Fontes próximas à Cúria destacam o currículo de Brambilla durante seu mandato como superiora-geral das Missionárias da Consolata entre 2011 e 2023. Com efeito, a congregação registrou uma redução significativa no número de religiosas e comunidades. Ao assumir o cargo, em 2011, o instituto contava com 746 religiosas distribuídas em 121 casas. Em 2023, quando ela deixou o cargo, as Missionárias da Consolata contavam com apenas 532 religiosas e 73 casas, refletindo uma perda expressiva de vocações e presença institucional, ou seja, em pouco mais de uma década, a congregação perdeu mais de 200 religiosas e quase 40% de suas casas. Estes números levantam dúvidas sobre a gestão da vida religiosa e vocacional, e a administração dos bens de sua congregação.
Esses números, precisamente porque fazem parte de uma tendência global de declínio vocacional, convidam a uma leitura cautelosa dessa experiência quando ela é apresentada como um argumento decisivo a favor de sua capacidade de governar um dicastério romano confrontado com uma crise estrutural grave.
Em declarações públicas, a Irmã Simona Brambilla tem enfatizado uma visão espiritual sobre o declínio vocacional, afirmando que “o importante não são os números, mas o coração”. Para ela, é positivo que o instituto seja “pequeno”, porque assim “o bem se faz sem barulho”. Esta visão parece nortear seu objetivo como prefeita: reduzir as vocações religiosas, numa lógica bastante questionável.
Questão feminina como prisma central
No âmbito teológico e pastoral, a abordagem de Brambilla é descrita como coerente com uma visão contemporânea da Igreja, priorizando reconhecimento, visibilidade e reequilíbrio de papéis, especialmente sob a perspectiva feminina. Essa linha privilegia uma eclesiologia relacional e processual, atenta às dinâmicas culturais atuais, mas em detrimento de uma ênfase mais explícita na dimensão sacramental e hierárquica da missão eclesial.
Sem romper com a doutrina católica, sua ênfase na questão feminina como prisma central tende a relegar outras dimensões eclesiais para segundo plano.
Povos não cristãos ensinam o missionário
Questões mais profundas surgem em relação à concepção de missão defendida por Brambilla. Em suas posições, a missão não aparece mais em primeiro lugar como o ato pelo qual o missionário leva, ilumina e transmite um tesouro recebido, mas como um processo de intercâmbio em que são os povos não cristãos encontrados que, por meio de sua cultura e experiência, iluminam, enriquecem e ensinam o missionário. Tal inversão de perspectiva, frequentemente apresentada como um sinal de humildade e escuta, questiona, no entanto, a compreensão clássica da missão ad gentes, baseada no anúncio explícito de Cristo e na transmissão de um depósito recebido, e não numa simples circulação recíproca de experiências espirituais.
Em lugar de apoiar-se nos escritos de seu fundador, São José Allamano, que instava os missionários a buscar cada vez mais a “oração, mortificação, santificação, uma santificação extraordinária”, a Irmã Brambilla prefere pronunciar discursos emotivos, com temas especialmente de caráter feminista e gnóstico, contrários à doutrina da Igreja.
Às vésperas do consistório extraordinário convocado pelo Papa Leão XIV para os dias 7 e 8 de janeiro de 2026 – o primeiro de seu pontificado –, rumores sobre uma possível saída de Brambilla circulam nos círculos romanos, sem nenhuma confirmação oficial. Caso se concretize, tal cenário colocaria o atual pontificado diante de uma decisão delicada: a de administrar uma herança recebida, e não escolhida, e avaliar suas implicações eclesiásticas e simbólicas.
Uma eventual partida precoce poderia decepcionar setores que depositaram expectativas desproporcionais na figura de Brambilla, alguns inclusive projetando-a – de forma especulativa – como precursora de mudanças mais radicais, como uma hipotética papa mulher. Tais projeções, no entanto, revelam mais sobre confusões contemporâneas do que sobre a realidade doutrinária e institucional da Igreja Católica.
Um ano após a sua nomeação, a trajetória de Irmã Simona Brambilla parece ser avaliada menos por conquistas concretas e mais pelo simbolismo que representou. E talvez seja nessa discrepância entre o símbolo desejado ontem e a realidade administrativa atual que se define, agora, o futuro de seu mandato no Vaticano.
Com informações Tribune Chrétienne e Infovaticana



Deixe seu comentário