Iniciativas em Roma destacam 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Santa Sé
A celebração tem como ponto de referência o dia 23 de janeiro de 1826, quando o Papa Leão XII recebeu as credenciais do primeiro representante brasileiro junto à Santa Sé, Dom Francisco Corrêa Vidigal.

Foto: Fundação Biblioteca Nacional/ Facebook
Redação (21/01/2026 17:07, Gaudium Press) O ano de 2026 marca um momento histórico para a diplomacia brasileira e a presença institucional da Igreja no país: o bicentenário das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé. A data, oficialmente incorporada à agenda do Vaticano, recorda um vínculo inaugurado em 1826, poucos anos após a Independência do Brasil, e que permanece entre os mais antigos da história diplomática nacional.
A celebração tem como ponto de referência o dia 23 de janeiro de 1826, quando o Papa Leão XII recebeu as credenciais do primeiro representante brasileiro junto à Santa Sé, Dom Francisco Corrêa Vidigal. O gesto estabeleceu formalmente as relações entre os dois Estados e deu início a uma trajetória que atravessou o Império, a República, mudanças de regime, transformações sociais e ciclos distintos de interação entre Igreja e Estado, sempre com presença relevante no cenário internacional.
Em Roma, uma série de iniciativas religiosas, acadêmicas e diplomáticas reforça a importância do bicentenário e concentra, ao longo do mês de janeiro, atividades que unem memória histórica e projeção institucional. Um dos pontos centrais da programação é a visita oficial da Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) à capital italiana entre os dias 20 e 29 de janeiro, com uma agenda intensa junto a organismos da Cúria Romana.
Entre os compromissos previstos está a primeira audiência oficial da atual presidência da conferência com o Papa Leão XIV, marcada para o dia 26 de janeiro. O encontro reforça o papel do episcopado brasileiro no panorama eclesial global, além de consolidar o diálogo permanente entre a Igreja no Brasil e a Santa Sé em temas que envolvem tanto a vida interna da Igreja quanto a sua atuação pública.
A delegação é composta pelo Cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB; Dom João Justino de Medeiros Silva, arcebispo de Goiânia e primeiro vice-presidente; Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa, arcebispo de Olinda e Recife e segundo vice-presidente; e Dom Ricardo Hoepers, bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da conferência.
A programação começou no dia 20 de janeiro com a participação da CNBB no seminário “Relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé”, promovido pela Embaixada do Brasil junto à Santa Sé e sediado na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. O evento propõe uma leitura histórica e contemporânea sobre o papel diplomático da Igreja e do Estado brasileiro ao longo de dois séculos, em uma abordagem que ultrapassa o âmbito protocolar e toca também em aspectos culturais e sociais desse relacionamento.
No mesmo dia, outro destaque se somou às celebrações: o lançamento da exposição virtual “Brasil e Santa Sé: 200 anos de relações diplomáticas”, iniciativa da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), vinculada ao Ministério da Cultura, em parceria com a Embaixada do Brasil na Santa Sé, o Instituto Guimarães Rosa e a Pontifícia Universidade Gregoriana. A mostra digital, acessível gratuitamente pela BNDigital, reúne 115 itens do acervo da Biblioteca Nacional relacionados ao tema e foi planejada para oferecer uma viagem histórica que une memória diplomática e riqueza cultural brasileira.
Com a curadoria do presidente da FBN, Marco Lucchesi, e cocuradoria de Mônica Carneiro, coordenadora de Acervos Especiais da instituição, a exposição é dividida em onze módulos temáticos. Entre eles estão “Mapeando o Novo Mundo”, “Império do Brasil”, “A Questão Religiosa”, “Igreja e Estado na República”, “A Devoção Popular” e “Mirabilia da Biblioteca Nacional”. O objetivo central é apresentar como a presença da Igreja atravessou os grandes momentos da história do Brasil, desde as navegações, passando pela Independência, Proclamação da República e o processo de redemocratização, sem perder de vista a dimensão cultural e simbólica que acompanha esse percurso.
O público encontra mapas do período das navegações, documentos com relatos e ilustrações sobre o chamado “Novo Mundo”, registros ligados às missões jesuíticas, materiais sobre a Independência, além de itens raros do acervo, como exemplares de bulas papais e uma edição histórica da famosa Bíblia de Mogúncia, considerada o primeiro livro impresso em larga escala no Ocidente. Também são destaque documentos e referências a personalidades centrais da Igreja no Brasil, como o Cardeal Arcoverde, lembrado como o primeiro cardeal nascido na América Latina.
No calendário religioso do bicentenário, a celebração mais simbólica acontece no dia 23 de janeiro, com a missa solene na Basílica de Santa Maria Maggiore, que será presidida pelo Secretário de Estado da Santa Sé, Cardeal Pietro Parolin. A liturgia integra oficialmente a programação comemorativa e deve reunir autoridades religiosas, civis e diplomáticas ligadas ao Brasil e ao Vaticano. A escolha da basílica, um dos maiores santuários marianos de Roma, também reforça o caráter espiritual e cultural do vínculo entre os dois países, marcado por uma presença católica histórica e por manifestações populares de devoção que atravessam séculos.
Paralelamente às celebrações e aos eventos públicos, a agenda da CNBB em Roma inclui encontros com dicastérios considerados estratégicos para a atuação da Igreja brasileira no contexto global. Estão previstas reuniões com organismos responsáveis por áreas como Doutrina da Fé, Clero, Bispos, Cultura e Educação, Evangelização, Secretaria de Estado e temas ligados à América Latina. Cada compromisso, além de reforçar a cooperação institucional, permite aprofundar o diálogo sobre questões pastorais e administrativas que envolvem diretamente a Igreja no Brasil, incluindo desafios missionários, formação do clero, realidades sociais e a relação com diferentes contextos culturais.
As comemorações, no entanto, não se restringem ao mês de janeiro. Ao longo de 2026, estão previstas novas ações culturais e acadêmicas em Roma e no Brasil. Entre as iniciativas estão o lançamento de um selo postal comemorativo no Vaticano, uma mostra de cinema brasileiro e um seminário dedicado ao Padre Antônio Vieira, figura histórica central na tradição luso-brasileira e no pensamento católico, cuja influência atravessa o campo religioso, político e literário.
No Brasil, o bicentenário será lembrado também durante a Assembleia Geral da CNBB, além de sessões solenes, exposições e atividades institucionais em Brasília. A intenção é manter viva a memória histórica das relações e, ao mesmo tempo, reafirmar um compromisso de cooperação que ultrapassa o formato diplomático tradicional. Ao longo de dois séculos, o vínculo entre Brasil e Santa Sé não se limitou a trocas oficiais, ele acompanhou grandes transformações do país e permaneceu conectado à vida cultural, social e religiosa da nação.
A marca dos 200 anos, mais do que uma data comemorativa, surge como oportunidade para reafirmar uma relação que atravessa governos, pontificados e mudanças profundas, mantendo-se, até hoje, como um elo singular no cenário diplomático brasileiro.





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